sábado, novembro 14, 2009

MOON — O OUTRO LADO DA LUA (2009), de Duncan Jones



A maior parte dos filmes de ficção-científicas produzidos hoje em dia caracterizam-se por serem espectáculos de grande orçamento e em larga escala, oferecendo cenários distópicos que abundam na grandiosidade e na representação caricatural dessas "realidades". Em obras como STAR TREK, de J.J. Abrams, ou o vindouro AVATAR de James Cameron, o espaço sideral é um local extremamente populado. Pelo contrário, este modesto e assombroso MOON — O OUTRO LADO DA LUA, primeiro trabalho de Duncan Jones (filho do cantor David Bowie), constitui uma espécie de antítese às convenções em voga do género, apresentando uma visão da vida para além da Terra predominantemente claustrofóbica e solitária.

Filmado nos emblemáticos Shepperton Studios, em Londres, MOON — O OUTRO LADO DA LUA é um exercício de minimalismo por excelência, diluindo uma complexa realidade futurista em algo que, essencialmente, é o drama íntimo de um homem. Rapidamente, apercebemo-nos de como Jones vivifica a sua história com omnipresentes homenagens a outros títulos obrigatórios da ficção-científica mais "contida", nomeadamente SOLARIS (1972, Andrei Tarkovsky) ou SILENT RUNNING (1972, Douglas Trumbull), histórias que exploravam o conflito entre as necessidades sociais da Humanidade e o vácuo do espaço que rodeia o nosso planeta, o despojar das nossas faculdades mínimas (sobretudo, a ausência de discernimento entre o real e a alucinação), interesses empresariais e sempre situados em naves ou estações espaciais com deslumbrante direcção artística.



Situado num futuro não muito distante, um pseudo-anúncio comercial, no início do filme, explica-nos que os problemas energéticos da Terra foram resolvidos pela transformação de um combustível abundante no solo lunar. Sam Bell (Sam Rockwell), funcionário da corporação responsável pela extracção deste recurso, aproxima-se do término do seu contrato de três anos enquanto único habitante de uma remota estação mineira. Ou, pelo menos, é essa a sua aparente convicção...

Falar muito mais sobre a história seria arruinar as surpresas do pequeno e cuidadosamente planeado argumento do filme, cuja estrutura, temas e vagarosa exposição invoca não só as películas acima referidas, como também outros clássicos da ficção-científica cinematográfica. Sam não está inteiramente só; a sua principal companhia dá pelo nome de Gerty, uma máquina deliberadamente semelhante ao computador HAL 9000 de 2001: ODISSEIA NO ESPAÇO (1968, Stanley Kubrick) e cuja "sinistra" assistência prestada ao protagonista é acentuada pelo facto de comunicar através da "inexpressividade oral" de Kevin Spacey.



Seguindo as linhas mestras do género, MOON — O OUTRO LADO DA LUA é uma reflexão acerca do conflito entre as irremediáveis tendências do progresso tecnológico e a teimosa persistência dos sentimentos e desejos humanos em levar a melhor. Estes ideais são aqui apresentados de forma interessante, mas não explorados em toda a sua extensão. Além disso, avaliar a interpretação de Sam Rockwell torna-se numa tarefa quase ingrata, visto o actor estar fabuloso no que lhe é pedido mas aquém na apresentação de um contexto, emocional ou filosófico, que eleve o seu personagem ao estatuto de referência para os próximos anos.

Duncan Jones construiu um filme destinado a cult classic e merecedor de visualização atenta. Os seus modestos valores de produção são decididamente uma virtude mas, no seu nada ambíguo final, uma limitação à total satisfação do espectador. Fala-se que o realizador planeia uma obra que complementará esta primeira história: o vislumbre de um ensemble mais detalhado sobre as ideias aqui lançadas?

3 comentários:

Fifeco disse...

AInda não vi mas já li tanto sobre ele que tenho que me dedicar à sua visualização.

Excelente texto por sinal.

Abraço

Bruno disse...

Vi este filme há dois dias... e de facto, está excelente! Concordo inteiramente contigo quanto à prestação de Sam Rockwell, há situações em que realmente parece que falta ali mais qualquer coisa... Quanto à comparação de Gerty com o HAL é inevitável, apenas acho que o HAL estava menos preocupado com o companheiro Humano e mais preocupado com a missão, neste caso isso não acontece e Gerty até acaba por ceder a alguns pedidos menos "correctos" do colega humano... Enfim, o filme está muito bom, mesmo!

Abraço

looT disse...

É uma das prioridades. espero que se aguente algum tempo nas salas.

abraço