segunda-feira, fevereiro 22, 2010

UMA OUTRA EDUCAÇÃO (2009), de Lone Scherfig



Enquanto crítico amador de Cinema, procuro sempre adoptar uma visão positiva de cada filme que vejo, transportando essa óptica para a posterior "dissecação" que publico neste espaço. Contudo, continuam a existir fenómenos de popularidade, tanto da crítica especializada como do público, que me confundem totalmente. UMA OUTRA EDUCAÇÃO é o mais recente exemplo de análise a reacender este meu "obscuro objecto de perplexidade".

Como é fácil de depreender neste discurso introdutório, UMA OUTRA EDUCAÇÃO é, para mim, um produto extremamente sobrevalorizado, sobretudo pelo facto de ter arrecadado, num ritmo quase nonstop, uma série de galardões e nomeações prestigiantes (desde o prémio da audiência no Festival de Sundance, passando pelo reconhecimento das principais associações de crítica anglófonas, até às nomeações para Melhor Filme nos Globos de Ouro e Óscares) e a positiva apreciação ensaiada por críticos exigentes como Roger Ebert ou Todd McCarthy.



Jenny (Carey Mulligan) é uma exímia aluna de 16 anos que, no seio da 'Swinging London', nutre um imenso fascínio pela cultura francesa — Albert Camus e Juliette Gréco praticamente "residem" no seu quarto — como escapatória para a existência cinzenta e autoritária que pais (Alfred Molina e Cara Seymour) e escola (com a rigidez do estabelecimento de ensino personificada na sua directora, numa interessante e sucinta composição de Emma Thompson) lhe impõem.

É então que lhe surge, quase do nada, a figura de David Goldman (Peter Sarsgaard), um trintão carismático, educado e bon vivant — hábil, inclusive, na conquista da simpatia dos pais de Jenny, sempre receosos das intenções de qualquer pretendente à sua filha única. A relação amorosa entre os dois possibilita a Jenny o estilo de vida que sempre ambicionou, mas esse deslumbramento é despedaçado quando ela descobre os reais motivos da prosperidade de David: um agiota envolvido em negócios imobiliários pouco escrupulosos e detentor de flagrantes segredos sobre o seu estado civil. Dividida entre a possível existência de luxuosa tranquilidade e o ingresso na Universidade de Oxford, Jenny terá de fazer uma opção sem recorrer ao existencialismo de Camus ou à melancolia da voz de Gréco.



Perante uma sinopse que não deixa de explorar temas relevantes — os dilemas da maturidade física e psicológica de um adolescente são susceptíveis de diversas abordagens —, é surpreendente encontrar tanta banalidade num projecto recheado de inegáveis talentos. Com Nick Hornby (autor dos best-sellers «Alta Fidelidade» e «Era Uma Vez Um Rapaz», ambos adaptados com êxito ao Cinema) a assinar o argumento, era legítimo augurar um conjunto de situações e, sobretudo, um desfecho mais pujantes do que aqueles que aqui nos são oferecidos. E a realização de Lone Scherfig, "descendente" do movimento Dogma 95 (ITALIANO PARA PRINCIPIANTES, 2000) e com uma estreia auspiciosa em Hollywood através da comédia negra de WILBUR QUER MATAR-SE (2002), afigura-se pouco ambiciosa, transformando UMA OUTRA EDUCAÇÃO numa autêntica montra para os actores envolvidos.



Nesse campo, para além do já referido cameo memorável de Emma Thompson, justifica-se uma especial atenção para Alfred Molina, que compõe um dos papéis secundários mais interessantes do ano transacto, provando — se tal ainda fosse necessário — ser dos actores mais polivalentes da actualidade (e os Óscares, este ano, "esqueceram" esse pormenor). Encarnando um antagonista de frágil empatia, Peter Sarsgaard executa um delicado registo entre a inadaptação e a segurança para o personagem que lhe foi atribuído. No entanto, a estrela ascendente é mesmo Carey Mulligan (galardoada ontem como Melhor Actriz pelos BAFTA), que na "categoria" de estreantes femininas britânicas, sugere-me a Emily Watson de ONDAS DE PAIXÃO (1996, Lars von Trier), mas numa versão menos trágica.

Contudo, a Sétima Arte não vive apenas dos intervenientes que actuam em frente das câmaras. E a trivialidade (não tenho pudores em usar este termo) de UMA OUTRA EDUCAÇÃO é quase gritante, quando justaposta com a alegre recepção de certos quadrantes que, habitualmente, demonstram maior exigência na avaliação de um filme. Tem os seus méritos, mas encontra-se infundido de um espírito bastante olvidável.

1 comentário:

Madame Lumière disse...

Oi,
Eu gostei de A Educação porque tentei enfocar mais a questão da escolha de Jenny, o rito de passagem em si. Nesse ponto o filme não é profundo mas mostra objetivamente nada que é surpreendente(todos nós já sabemos), ainda assim é um filme agradável, simpático. Meu olhar foi mais baseado em mim mesma como espectadora. Mulheres passam por isso, principalmente as que tem um ideal de liberdade, de sair na contra mão do aprisionamento.

abs!