quarta-feira, março 17, 2010

NIP/TUCK — Um final cirúrgico



Durante sete anos, NIP/TUCK levou a cabo uma revolução, quase imperceptível, nas sensibilidades e tendências das séries televisivas norte-americanas que, em 2003, rendiam-se à acção de um só dia que 24 proporcionava ou aos mistérios forenses de CSI: CRIME SOB INVESTIGAÇÃO.

A começar, temos o golpe de génio que constituiu elevar a protagonistas de um drama sobre relações humanas as figuras de dois cirurgiões plásticos (Sean McNamara e Christian Troy), área da medicina eternamente polémica e suscitadora de dúvidas morais. E depois há Julia McNamara, a mulher no meio dos dois sócios. Estava criado o triângulo amoroso televisivo mais sui generis da década, explanado ao longo de seis temporadas onde assistimos, como temas fulcrais, infidelidades, transexualismo, um serial killers empenhado em demonstrar que "a beleza é uma maldição no mundo", tráfico de órgãos, a envenenada sedução dos meandros da própria televisão e à importância das escolhas que fazemos, cedo ou tarde, na nossa vida.



NIP/TUCK nunca foi consensual ou popular. Rapidamente, tornou-se série de culto e só na terceira temporada, assente num whodunnit sobre a identidade do psicopata denominado 'The Carver', conheceu audiências semelhantes às séries de maior êxito dos anos 2000. De resto, entre temas quase tabu e a apresentação detalhada de facelifts e implantes mamários, o público esteve sempre arredado da clínica McNamara/Troy...

O último episódio, transmitido no passado dia 3 de Março, revelou-se um autêntico sussurro quando comparado com o ambiente normal da série, caracterizada por situações "explosivas" e próximas da inverosimilhança. Com o seu encerramento, terminou também o hábito pessoal de acompanhar a vida e desventuras deste duo de cirurgiões plásticos, que vendiam a sua actividade de aparências com um icónico chavão — «Tell me what you don't like about yourself» — mas sem conseguirem esconder o drama pessoal que lhes toldou a vida durante anos.

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