sexta-feira, março 26, 2010

THIRST — ESTE É O MEU SANGUE... (2009), de Chan-wook Park



Admito que é árduo observar e analisar cinema asiático. Trata-se de uma opinião partilhada por outros, sobretudo aqueles que se sentiram devastados com as filmografias de Takashi Miike (AUDITION) e Tsai Ming-liang (O SABOR DA MELANCIA), duas obras que "massacraram" audiências de festivais internacionais e espectadores incautos. As sensibilidades orientais encontram, portanto, um eco favorável reduzido na Europa e América do Norte, dificultando a comercialização de filmes oriundos da Ásia Oriental nesses contextos geográficos.

A excepção encontra-se na carreira do sul-coreano Chan-wook Park, provavelmente o cineasta asiático mais internacional da actualidade. Quentin Tarantino venera-o — ao ponto de (segundo abundantes rumores) ter feito um imenso lobbying, enquanto Presidente do Júri no Festival de Cannes em 2004, para que OLDBOY — VELHO AMIGO fosse galardoado com a Palma de Ouro —, os seus filmes têm conhecido diversas projecções nas salas e cineclubes europeus e a crítica é unânime em elogios.



A contribuir para a adesão pública ao estilo de Chan-wook Park, pesa sobremaneira os temas que explana, sobretudo na apelidada «Trilogia da Vingança», composta do referido OLDBOY e pelos narrativa e visualmente tocantes SYMPATHY FOR MR. VENGEANCE e SYMPATHY FOR LADY VENGEANCE.

Agora, e depois da "Vingança", parece que Chan-wook Park concentra esforços na investigação dos desafios da "Fé", extrapolando essa temática com a história vampírica de THIRST — ESTE É O MEU SANGUE..., parcialmente adaptado do romance 'Thérèse Raquin' de Emile Zola, vencedor do Prémio do Júri no último Festival de Cannes e recentemente galardoado na secção «Orient Express» do FantasPorto 2010.



Sang-hyun (Song Kang-ho) é um padre católico dedicado ao voluntariado em hospitais e imensamente admirado pela extrema devoção a este misericordioso trabalho. Contudo, a dúvida e a tristeza dominam a sua existência e, numa derradeira prova de fé, oferece-se como cobaia para um revolucionário e embrionário tratamento contra o denominado vírus «Emmanuel». A experiência fracassa, causando o aparente falecimento de Sang-hyun. Após a administração de uma transfusão sanguínea durante a sua reanimação, o padre demonstra uma fulgurante convalescença, mas com peculiares efeitos secundários: Sang-hyun vê-se transformado num vampiro.

Na posse das faculdades desta "estranha forma de vida", o protagonista trava conhecimento com a jovem Tae-ju (Kim Ok-bin), um manifesto de frustração e desespero pela realidade em que está inserida: presa a um casamento de circunstância e constantemente agredida, física e verbalmente, pela sogra. Os dois iniciam um caso amoroso que culminará na transformação, embora Sang-hyun demonstre reticência, de Tae-ju em vampira. O conflito entre o casal residirá, a partir daquele momento, na réstia de humanidade que Sang-hyun ainda exibe e no desprendimento de remorsos demonstrado por Tae-ju, quando esta se apercebe das potencialidades que a sua nova condição permite.



Poder-se-ia afirmar que o cinema oriental também não resistiu em alinhar à recente moda do vampiro na Sétima Arte. Todavia, THIRST não confere proeminência à natureza predatória desta criatura mitológica, mas sim às emoções genuinamente humanas quando confrontadas com situações extremas — mesmo que demonstradas por "mortos-vivos". É certo que testemunhamos sangue, pescoços mordidos e uma eficiente atmosfera de terror — afinal de contas, o filme de vampiros tem de respeitar certos "dogmas".

THIRST possui, também, uma interessante composição técnica: os efeitos especiais estão infundidos de um subtil e delicioso realismo (permitam-me este aparte quase cliché mas, nesta categoria, bate aos pontos o que a saga CREPÚSCULO tem apresentado) e a direcção de fotografia (em algumas sequências, um verdadeiro showcase na "arte" de dominar o branco fluorescente) é arrebatadora e cativante.



Por fim, THIRST encerra um interessante díptico no que a audiências diz respeito. Para os fãs de Chan-wook Park, é capaz de revelar-se desapontante pela ausência da violência surrealista que caracterizava os seus anteriores filmes mas, simultaneamente, é um título indicado para os "iniciados" deste cineasta. E embora o argumento não seja plenamente coeso (algumas quebras de ritmo, sub-plots pouco relevantes), para além de que nunca marcará a história do Cinema, estamos perante um singular conto moral sobre dramas mundanos que se afigura como a melhor revitalização do género nos últimos anos e merecedor da nossa (e da vossa) atenção.

2 comentários:

O Regedor disse...

Caro Sam,

faltou referir o I´m a cyborg but that´s ok, uma excelente comédia do mesmo realizador.
Não percebo bem o início do post quando refere que é árduo observar cinema asiático e que este tem um eco reduzido na europa e EUA.
Então e Jonh Woo, Yimou Zhang, Ang Lee, Takeshi Kitano, etc?

Cumps

Sam disse...

Caro O Regedor,

É bem visto mas, exceptuando Ang Lee e John Woo (que estão absolutamente "ocidentalizados"), quantas vezes encontras nos cinemas filmes de realizadores asiáticos? E afluências em massa do público?

Obrigado pelo teu comentário, volta sempre!

Cumps cinéfilos.