O magnum opus da 'trilogia de vingança' assinada por Chan-wook Park, OLDBOY — VELHO AMIGO recebeu o selo de culto ainda em Cannes, pouco antes de se tornar num dos maiores fenómenos cinematográficos de 2003; em causa a controvérsia associada à natureza da sua brutalidade e a qualidade técnica dos cineastas envolvidos que produziu, entre outros, "o" magistralmente coreografado plano-sequência, já um ícone da cultura popular. Mas o impacto causado pela película Sul Coreana vai muito além de um ideal ilusório de violência. É a poesia da narrativa e a instigante honestidade que tornam a viagem de Oh Dae Su (brilhante interpretação de Choi Min-sik) numa miríade de intriga dotada de uma subliminal caracterização de justiça.
Sob o trepidar da angústia e do incompreensível, Park desconstrói um macabro envolto em epistemologias filosóficas, evidenciando um ethos de moral ambígua em prol da exploração de uma dimensão humana de solidão. É através deste catalisador de emoções primárias que Park usa a repressão de impulsos caóticos do seu anti-herói para colorir este subversivo e arrebatador neo-noir. Gravado na retina fica a harmonia entre os tons negros do caleidoscópio óptico e a perversidade do lirismo contextual, bem como a visceralidade psicológica associada à sua visualização. Baseado na manga de Garon Tsuchiya e Nobuaki Minegishi, OLDBOY é, mais do que um dos melhores feitos da década de 2000, um dos grandes filmes do cinema asiático.
Elenco
. Choi Min-sik (Oh Dae-su), Yoo Ji-tae (Lee Woo-jin), Kang Hye-jung (Mi-do), Ji Dae-han (No Joo-hwan), Kim Byeong-ok (Mr. Han), Oh Tae-kyung (Dae-su jovem), Ahn Yeon-seok (Woo-jin jovem), Woo Il-han (Joo-hwan jovem)
Palmarés
. Festival de Cannes: Grande Prémio do Júri (Chan-wook Park)
. Festival Internacional de Sitges: Melhor Filme (Chan-wook Park), Prémio da Crítica
Sobre Chan-wook Park
Uma das principais figuras do renascimento do Cinema Sul-Coreano, a sua tendência para encenar histórias simples mas sangrentas, através da criação de mundos ilusórios e quase artificiais, está explanada numa carreira diversificada e multipremiada. Destacam-se, da sua filmografia, JOINT SECURITY AREA (2000), SYMPATHY FOR MR. VENGEANCE (2002), VINGANÇA PLANEADA (2005) e THIRST — ESTE É O MEU SANGUE (2009).
O que se diz lá fora sobre STOKER, de Chan-wook Park:
«The final act of Stoker walks a fine line between the sensational and the silly. Mr. Park is less interested in narrative suspense than in carefully orchestrated shocks and camouflaged motives.»
A.O. Scott, The New York Times.
«Park's unsettling visuals and his handling of the cast make the occasional holes in Wentworth Miller's script practically irrelevant.»
John DeFore, The Hollywood Reporter.
«The movie wants to be Hitchcockian, but it's the flat-footed Hitchcock of MARNIE that Park evokes. His filmmaking here is hermetic and lugubrious, with each physical movement meaninglessly heightened and every line hanging in the air with (empty) significance.»
Owen Gleiberman, Entertainment Weekly.
«STOKER is Park's darkly funny, deliciously depraved riff on Hitchcock's SHADOW OF A DOUBT.»
Peter Travers, Rolling Stone.
«STOKER, which plays something like a remake of THE ADDAMS FAMILY mixed with THE PAPERBOY — but without the laughs of either – belongs in a special category of movie badness, or perhaps two different but overlapping categories. It’s a visually striking but fundamentally terrible film made by a good or (some would say) great director.»
Andrew O'Hehir, Salon.
Marcante. É um filme que vi inúmeras vezes, e de longe um dos meus filmes favoritos. É daqueles filmes que me parece audiovisualmente perfeito, em que o realizador tem controlo completo sobre cada aspecto, da fotografia à banda-sonora, das interpretações ao argumento. Tem cenas que me estão marcadas a fogo na memória. Ainda me lembro muito bem do impacto que teve na altura. Demorei dias até conseguir colocar o queixo no sítio certo.
. CINEMA PARAÍSO (1988, Nuovo Cinema Paradiso, Giuseppe Tornatore)
O primeiro filme que alguma vez me fez chorar. Sou profundamente susceptível ao sentimento de nostalgia, e sendo este filme o que é, era inevitável que me tivesse marcado como marcou. Um filme sobre o amor pelo cinema, visto por mim numa idade em que esse amor começava a despertar verdadeiramente. Mesmo hoje em dia, comove-me profundamente.
. SAGA A GUERRA DAS ESTRELAS (1977, Star Wars, George Lucas, 1980, Star Wars: Episode V - The Empire Strikes Back, Irvin Kershner, 1983, Star Wars: Episode VI - Return of the Jedi, Richard Marquand)
Tinha de aqui estar, claro. A saga da minha infância, que cresci a ver com o meu pai, e que ainda hoje povoa por completo a minha imaginação. Para mim, talvez a grande saga de aventuras do cinema. Ainda sorrio como uma criança de sete anos quando o Darth Vader atira o Imperador para o abismo, e ainda fico entusiasmado quando o Luke destrói a Estrela da Morte. São filmes que ficarão comigo para o resto da vida. Apesar de o Lucas não estar muito a favor disso, mas isso já é outra história.
. OS SETE SAMURAIS (1954, Shichinin no samurai, Akira Kurosawa)
O meu filme de acção predilecto. Vê-lo no cinema, na primeira vez que fui à Cinemateca, foi uma experiência que nunca hei-de esquecer. É daqueles que estaria sempre nesta lista, em qualquer dia da semana.
. AURORA (1927, Sunrise: A Song of Two Humans, F.W. Murnau)
Oh Deus, onde é que eu começo com este? Mais uma vez, é um filme perfeito, sem falhas, tão honesto e simples quanto revelador de uma mestria exemplar por parte do Murnau, como contador de histórias. Passei anos a querer vê-lo, e só o fiz há cerca de três anos, quando um grande amigo meu me deu o DVD. Fiquei num misto de encanto e lágrimas, e creio que tem verdadeiramente alguns dos momentos mais memoráveis que alguma vez verei num filme. Demasiado belo.
. OS QUATROCENTOS GOLPES (1959, Les Quatre Cents Coups, François Truffaut)
Repito o que disse em relação ao SUNRISE: demasiado belo. É tão simples quanto isso.
. ANNIE HALL (1977, Annie Hall, Woody Allen)
Melhor argumento de sempre? O meu favorito do Allen, e um filme que me parece rigorosamente genial desde o primeiro ao último segundo. Literalmente, do primeiro ao último. Ainda o revejo imensas vezes.
. A VIAGEM DE CHIHIRO (2001, Sen to Chihiro no kamikakushi, Hayao Miyazaki)
Era entre este e o CASTLE IN THE SKY... e este ganhou, porque foi o primeiro. Foi este o filme que me fez apaixonar pelo seu cinema, e que teve o impacto imediato de começar a idolatrar o homem. Ainda hoje em dia fico com lágrimas nos olhos quando o vejo, e descubro facilmente novos pormenores que fazem com que adore o filme ainda mais.
. THE FOUNTAIN — O ÚLTIMO CAPÍTULO (2006, The Fountain, Darren Aronofsky)
Tinha de aqui estar. Perfeição audiovisual, que tem no seu cerne um coração do tamanho do mundo. Isto é, afinal, uma história de amor. Um dos poucos filmes que me arrebataram verdadeiramente, em todos os aspectos. Põe-me lágrimas nos olhos enquanto me deslumbra os sentidos.
. O MUNDO A SEUS PÉS (1941, Citizen Kane, Orson Welles)
O meu filme favorito, ponto. Tenho um fascínio absoluto por cada plano, cada linha de diálogo, e acima de tudo pelo homem que é Charles Foster Kane. A personagem bigger than life por excelência, para mim a representação perfeita do quão impossível é, e sempre será, compreender verdadeiramente alguém. Fascina-me verdadeiramente.
Se fazer uma lista é sempre complicado, escolher os 10 filmes da nossa vida é ainda mais difícil, é como escolher o nosso filho preferido. Esta lista, como todas as listas, está incompleta e não numerada e não espelha verdadeiramente os meus 10 filmes preferidos, porque isso são coisas que mudam diariamente. Depende de tantos factores que é impossível ser uma verdade absoluta. Escolhi aqueles que numa altura ou outra me surpreenderam e fizeram repensar as minhas prioridades cinematográficas.
. O FESTIM NU (1991, Naked Lunch, David Cronenberg)
Quando o vi pela primeira vez era jovem (e inexperiente) e a minha noção de cinema ainda rodava em volta de Hollywood. Com Naked Lunch percebi que havia muito cinema além daquele que nos é imposto. Basta procurar em vez de ser procurado.
. CLERKS (1994, Clerks, Kevin Smith)
Talvez o meu filme preferido. Devaneio ultra-low-budget com aquele que considero o melhor guião de sempre.
Quem ler a sinopse deste filme percebe imediatamente que, para o bem ou para o mal, tem que o ver. Extravagância coreana de um realizador que pinta com luz.
. 2001: ODISSEIA NO ESPAÇO (1968, 2001: A Space Odyssey, Stanley Kubrick)
Meu Deus, 2001. It’s full of stars. Uma vez por ano, pelo menos, tem que ser revisto.
. OS TENENBAUMS — UMA COMÉDIA GENIAL (2001, The Royal Tenenbaums, Wes Anderson)
Um dos melhores realizadores de sempre, o rei da estética e da câmara fixa. De entre todos os seus geniais filmes, este é o melhor.
. O HERÓI DO ANO 2000 + BANANAS (1973, Sleeper + 1971, Bananas, Woody Allen)
Não consigo fazer uma lista destas sem inserir Woody Allen. Gosto de todos, melhores ou menores, adoro! Prefiro a fase inicial, mas não desgosto das outras. Os meus preferidos terão mesmo que ser Sleeper e Bananas, curiosamente suas obras mais Slapstick. O que querem que vos diga? Sou um eterno parolo.
De fora fica tanta coisa que será certamente incluída na segunda volta quando o Samuel propuser a lista "10 filmes que te esqueceste aquando da elaboração da primeira lista de 10 filmes da tua vida".
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Obrigado, Pedro, pela tua participação! E a tua sugestão será devidamente ponderada :)
E chegamos à inevitável (e muito tramada!) época de balanço do ano que agora termina. Como já é tradição, deixo-vos com o Top 10 dos melhores filmes estreados em Portugal durante 2010, de acordo com o Keyzer Soze:
A primeira experiência de Tom Ford como realizador é uma obra cinematográfica por excelência. A elaborada direcção artística funciona em prol do argumento, abundam os qualitativos pormenores de fotografia, montagem, guarda-roupa e maquilhagem a espelharem os estados de espírito das personagens e um Colin Firth assombroso na pele da personagem mais pesarosa que preencheu um grande ecrã este ano.
Documentário que na análise da propaganda salazarista durante os anos da Segunda Guerra Mundial, mostrando a neutralidade de Portugal como um paraíso de paz no seio de uma Europa em devastador conflito, procura referências de comparação com o actual estado da Nação. No seu minimalismo de imagens e sons (o filme não tem narrador), João Canijo impele o espectador a tirar as suas próprias conclusões.
A controvérsia gerada em Cannes — onde lhe foi atribuído um "anti-prémio" — era suficiente para se perceber que Lars von Trier não iria abandonar a sua infâmia muito própria. E, na verdade, o dinamarquês realizou um dos títulos mais poderosos do ano, uma obra-prima de grotesco cinematográfico. Willem Defoe e Charlotte Gainsbourg, sem medo da exposição ou do rídiculo gratuitos, mantêm o argumento (e o interesse de quem assiste) coeso de uma ponta à outra do filme.
O filme fantástico para todas as idades do ano — que me perdoem os fãs da ALICE de Tim Burton —, Spike Jonze desenvolve o conto infantil de Maurice Sendak e dá vida à sagaz imaginação de um rapaz de oito anos que se torna rei de uma ilha povoada por criaturas peludas (magníficas e realistas composições digitais) que demonstram idiossincrasias próprias dos adultos.
Chan-wook Park prossegue a sua corajosa e original carreira com uma fresca abordagem ao (sempre em voga) mito do vampiro, mas sem abdicar dos motivos próprios do género, usando o tema — e um padre católico como protagonista — para dissertar acerca do que nos torna humanos. Capaz de se mostrar surreal, espirituoso, visceral e sensual numa única cena, foi dos filmes mais pujantes do ano.
Não há uma única emoção que tenha ficado esquecida: da genuína alegria à honesta comoção e capaz de nos encantar pelo seu deslumbramento visual, nenhum espírito é suficientemente empedernido para deixar de se convencer da maturidade artística alcançada pela dupla Disney/Pixar. A trilogia que definiu a animação concebida por computador encerra com genial chave de ouro.
Desde O RESGATE DO SOLDADO RYAN que nenhum filme colocava o espectador tão intimamente na linha de fogo dum conflito armado. Totalmente situado no interior de um blindado que acompanha quatro soldados israelitas durante a Guerra do Líbano, em 1982, esta é uma obra de criativa audácia, rigorosa seriedade moral e, acima de tudo, uma experiência cinematográfica inesquecível. Ou tudo aquilo que um war movie deve ser.
O padrão de como um blockbuster deve apresentar-se: visualmente atraente, narrativamente inteligente, profundamente envolvente e totalmente satisfatório. Na verdade, existem poucos adjectivos para louvar a dimensão aplicada a um argumento que assume diversos riscos — quer na sua coerência como na capacidade de gerar receitas de bilheteira — do princípio ao fim das suas duas horas e meia de duração.
Novo e curioso estudo dos irmãos Coen sobre o absurdo da condição humana, o seu sereno formalismo para explorar uma narrativa freneticamente surrealista torna-o numa das obras mais originais do ano. Impecavelmente filmado, arranca um fabuloso registo de contenção e desespero latente de Michael Stuhlbarg e o seu final ambíguo é susceptível de mais prazer que frustração cinéfila.
Este foi, definitivamente, o principal "OVNI" cinematográfico a estrear no nosso país. Reconstituindo temas clássicos que vão desde a história de Adão e Eva até à Alegoria da Caverna (e estas são algumas das interpretações possíveis), a sua peculiar apresentação de condicionamento e livre arbítrio humano tanto pode ser visto como terror absurdo ou comédia atroz. Certo é ser dos filmes mais originais e exigentes do ano.
Um thriller como já não se produz nos dias que correm, Roman Polanski colmata a ausência de explosões ou sustos construindo a sua ameaçante imagem de marca, apostando na contenção de personagens (um elenco formidável), ambiências hostis (nem a Natureza é apaziguadora) e uma economia narrativa (veja-se como um GPS "ajuda" ao desenrolar dos acontecimentos) que poucos alcançam. O cinema clássico puro está vivo!
Admito que é árduo observar e analisar cinema asiático. Trata-se de uma opinião partilhada por outros, sobretudo aqueles que se sentiram devastados com as filmografias de Takashi Miike (AUDITION) e Tsai Ming-liang (O SABOR DA MELANCIA), duas obras que "massacraram" audiências de festivais internacionais e espectadores incautos. As sensibilidades orientais encontram, portanto, um eco favorável reduzido na Europa e América do Norte, dificultando a comercialização de filmes oriundos da Ásia Oriental nesses contextos geográficos.
A excepção encontra-se na carreira do sul-coreano Chan-wook Park, provavelmente o cineasta asiático mais internacional da actualidade. Quentin Tarantino venera-o — ao ponto de (segundo abundantes rumores) ter feito um imenso lobbying, enquanto Presidente do Júri no Festival de Cannes em 2004, para que OLDBOY — VELHO AMIGO fosse galardoado com a Palma de Ouro —, os seus filmes têm conhecido diversas projecções nas salas e cineclubes europeus e a crítica é unânime em elogios.
A contribuir para a adesão pública ao estilo de Chan-wook Park, pesa sobremaneira os temas que explana, sobretudo na apelidada «Trilogia da Vingança», composta do referido OLDBOY e pelos narrativa e visualmente tocantes SYMPATHY FOR MR. VENGEANCE e SYMPATHY FOR LADY VENGEANCE.
Agora, e depois da "Vingança", parece que Chan-wook Park concentra esforços na investigação dos desafios da "Fé", extrapolando essa temática com a história vampírica de THIRST — ESTE É O MEU SANGUE..., parcialmente adaptado do romance 'Thérèse Raquin' de Emile Zola, vencedor do Prémio do Júri no último Festival de Cannes e recentemente galardoado na secção «Orient Express» do FantasPorto 2010.
Sang-hyun (Song Kang-ho) é um padre católico dedicado ao voluntariado em hospitais e imensamente admirado pela extrema devoção a este misericordioso trabalho. Contudo, a dúvida e a tristeza dominam a sua existência e, numa derradeira prova de fé, oferece-se como cobaia para um revolucionário e embrionário tratamento contra o denominado vírus «Emmanuel». A experiência fracassa, causando o aparente falecimento de Sang-hyun. Após a administração de uma transfusão sanguínea durante a sua reanimação, o padre demonstra uma fulgurante convalescença, mas com peculiares efeitos secundários: Sang-hyun vê-se transformado num vampiro.
Na posse das faculdades desta "estranha forma de vida", o protagonista trava conhecimento com a jovem Tae-ju (Kim Ok-bin), um manifesto de frustração e desespero pela realidade em que está inserida: presa a um casamento de circunstância e constantemente agredida, física e verbalmente, pela sogra. Os dois iniciam um caso amoroso que culminará na transformação, embora Sang-hyun demonstre reticência, de Tae-ju em vampira. O conflito entre o casal residirá, a partir daquele momento, na réstia de humanidade que Sang-hyun ainda exibe e no desprendimento de remorsos demonstrado por Tae-ju, quando esta se apercebe das potencialidades que a sua nova condição permite.
Poder-se-ia afirmar que o cinema oriental também não resistiu em alinhar à recente moda do vampiro na Sétima Arte. Todavia, THIRST não confere proeminência à natureza predatória desta criatura mitológica, mas sim às emoções genuinamente humanas quando confrontadas com situações extremas — mesmo que demonstradas por "mortos-vivos". É certo que testemunhamos sangue, pescoços mordidos e uma eficiente atmosfera de terror — afinal de contas, o filme de vampiros tem de respeitar certos "dogmas".
THIRST possui, também, uma interessante composição técnica: os efeitos especiais estão infundidos de um subtil e delicioso realismo (permitam-me este aparte quase cliché mas, nesta categoria, bate aos pontos o que a saga CREPÚSCULO tem apresentado) e a direcção de fotografia (em algumas sequências, um verdadeiro showcase na "arte" de dominar o branco fluorescente) é arrebatadora e cativante.
Por fim, THIRST encerra um interessante díptico no que a audiências diz respeito. Para os fãs de Chan-wook Park, é capaz de revelar-se desapontante pela ausência da violência surrealista que caracterizava os seus anteriores filmes mas, simultaneamente, é um título indicado para os "iniciados" deste cineasta. E embora o argumento não seja plenamente coeso (algumas quebras de ritmo, sub-plots pouco relevantes), para além de que nunca marcará a história do Cinema, estamos perante um singular conto moral sobre dramas mundanos que se afigura como a melhor revitalização do género nos últimos anos e merecedor da nossa (e da vossa) atenção.
Uma foto promocional de Rita Hayworth (na minha opinião pessoal, o arquétipo definitivo da femme fatale) relativa ao filme GILDA (1946, Charles Vidor), ilustra este post dedicado a uma das personagens-tipo femininas mais icónicas na história do Cinema. Com fugazes aparições desde os primórdios da Sétima Arte (Theda Bara, Pola Negri, Lilian Gish, entre outras), a sua imagem floresceu no film noir dos anos 40 e 50, como a personificação dos receios masculinos após a Segunda Guerra Mundial relativamente à fidelidade das esposas e namoradas dos soldados norte-americanos durante a sua ausência. A definição de femme fatale é extensa: sedutora, manipuladora, inflexível em alcançar fins sem olhar aos meios. E quem fica a perder é, quase sempre, o protagonista masculino que se deixa enredar na teia destas implacáveis mulheres.
Actualmente, tudo parece indicar que a sua presença encontra-se em declínio — e não estou só nesta declaração. Encontramos os últimos resquícios da absoluta femme fatale com Sharon Stone em INSTINTO FATAL (1992, Paul Verhoeven) ou Linda Fiorentino em A ÚLTIMA SEDUÇÃO (1994, John Dahl).
Na primeira década do Século XXI, detectar exemplos desta mítica figura feminina representa uma árdua tarefa, reflectida na complexidade com que me deparei para formular este oitavo capítulo da rubrica «Momentos Memoráveis». Provável sinal dos tempos modernos, as seis referências que se seguem não invocam, à primeira vista, o perfil clássico da femme fatale na Sétima Arte, mas preservam o típico e quase indescritível fascínio que lhe está associado...
MENÇÃO HONROSA: Vesper Lynd, em CASINO ROYALE (2006), de Martin Campbell
Interpretada por Eva Green, Vesper Lynd é a homenagem recente mais bem conseguida à longa lista de femmes fatales que povoaram a saga James Bond desde os anos 60.
De uma beleza simultaneamente clássica e invulgar, Eva Green delineia uma das poucas 'Bond Girls' com profundidade psicológica, exalando uma personagem imprevisível e vulnerável em doses equitativas, transformando-a num "osso duro de roer" para o Agente 007. A atmosfera parece mudar sempre que Vesper Lynd "anuncia" a sua presença...
Interpretada por Yeong-ae Lee, constitui a prova cinematográfica que femme fatale rima com "vingança", pois a protagonista Geum-ja Lee vive, durante todo o filme, controlada por esse louco ímpeto de desforra após sujeitar-se a treze anos e meio de encarceramento por um crime que não cometeu, de modo a garantir a sobrevivência da própria filha.
A angélica face de Geum-ja é puro fogo de vista: a sua libertação constitui o móbil para a deflagração, isso sim, de um "anjo vingador" forjado durante a quase década e meia que passou atrás das barras.
4. Maria, em CALL GIRL (2007), de António-Pedro Vasconcelos
Interpretada por Soraia Chaves — actriz que, no presente panorama nacional, é o exemplo acabado de uma femme fatale lusitana —, Maria é a peça central no suborno financeiro e sexual de um autarca, com o propósito de obter deste o aval necessário para a construção de um empreendimento turístico de contornos pouco lícitos.
De mero peão até ser rainha num "xadrez" de corrupção, esta call girl de luxo possui todos os recursos para lucrar com o esquema, iludindo criminosos e agentes da Judiciária com a mesma "arma" que qualquer femme fatale maneja inatamente: a eloquente sexualidade.
Interpretada por Ludivine Sagnier, a inquietude e beleza emanada por Julie consegue perturbar tanto os egos masculinos (que "caem" facilmente na sua aura de sensualidade) como os femininos (nomeadamente, o da escritora representada por Charlotte Rampling que encontra escape para o seu bloqueio criativo no voluptuoso mas frágil carácter da jovem francesa).
No panorama europeu da última década, a figura de Julie sobressai como a perfeita miscelânea entre a femme fatale clássica e moderna: exibe o seu desprendimento romântico sob a forma de promiscuidade sexual; a sua sensualidade não é sugerida mas totalmente exibida; e o confronto verbal não se cinge apenas à guerra dos sexos, extravasando-o para a tensão inerente a divergências geracionais.
2. Laure Ash / Lily Watts, em MULHER FATAL (2002), de Brian De Palma
Interpretada por Rebecca Romijn, é, acima de tudo, a encarnação de uma amálgama das homenagens cinematográficas que perfilham a carreira de Brian De Palma. Desde a dupla identidade assumida pela protagonista (A MULHER QUE VIVEU DUAS VEZES, Alfred Hithcock) até à sequência inicial que retrata um assalto filmado quase sem diálogos (DU RIFIFI CHEZ LES HOMMES, Jules Dassin), essas referências conseguem ser tão interessantes quanto a femme fatale do título.
Do presente top, Laure Ash é o exemplo contemporâneo mais clássico deste género de personagens, constatação acrescida pela forma como transforma o simplório paparazzo Antonio Banderas na vítima mais impotente perante os planos de uma mulher em tempos recentes.
1. Nola Rice, em MATCH POINT (2005), de Woody Allen
Interpretada por Scarlett Johansson, é a típica "arrasadora" de felizes e prósperos lares burgueses. A vítima é o inglês Chris Wilton que, apesar do seu noivado assegurar-lhe estabilidade financeira e estatuto social vitalícios, cede aos encantos da norte-americana Nola Rice. Como em qualquer film noir que envolva paixões extra-conjugais, o final de MATCH POINT é azedo, mas contrabalançado pela imprevisibilidade de Woody Allen no tratamento da sua mais notória femme fatale.
Nola Rice arrecada o primeiro lugar desta lista não apenas pelas características físicas e psicológicas ostentadas, mas também por ser Scarlett Johansson a encarná-la, actriz que representa, sem dúvida, um dos principais sex symbols gerados nos "anos zero" do Século XXI.
Keyzer Soze é um personagem do filme de 1995, OS SUSPEITOS DO COSTUME.
Soze era o líder de uma secreta organização criminosa; a sua impiedosa personalidade e obscura influência granjeou-lhe um estatuto quase mítico entre agentes da lei e gangsters.
O seu papel no supreendente twist final do filme tornou-se num dos ícones da cultura popular dos anos 90.