segunda-feira, maio 03, 2010

CHLOE (2009), de Atom Egoyan



Embora se trate de um remake do francês NATHALIE (assinado por Anne Fontaine e que possuía elenco de luxo composto por Fanny Ardant, Gérard Depardieu e Emmanuelle Béart), CHLOE revela-se um veículo privilegiado para Atom Egoyan retomar a sua dissecação sobre a interacção humana em situações de stress emocional e social. Sem nunca chegar aos patamares qualitativos de outras obras do cineasta sobre essa temática, nomeadamente durante o seu maior pico de criatividade, nos anos 90, do qual nasceu os fenomenais EXOTICA (1994), O FUTURO RADIOSO (1997) e A VIAGEM DE FELICIA (1999), encontramos aqui todas as obsessões dramáticas e visuais do canadiano.

Apesar de ostentar segurança nas interpretações — sobretudo, as femininas — e uma peculiar (mas não despropositada) sensualidade na mise-en-scène, CHLOE padece, numa análise a frio, da indefinição nos terrenos que pretende pisar (thriller erótico? drama sobre um proibido triângulo amoroso? crítica social?) e, principalmente, dum terceiro acto pouco conseguido, quase desligado de todo o filme e, a partir de certa altura, totalmente esperado, saldando-se num dos produtos mais inseguros da filmografia de Egoyan.



Catherine (Julianne Moore) é uma ginecologista casada com um professor de música, David (Liam Neeson). À superfície, são os protagonistas de um matrimónio próspero e invejável; basta observar a luxuosa e moderna vivenda do casal, partilhada pelo seu púbere filho, Michael (Max Thieriot). Contudo, a relação conhece dias conturbados. Catherine suspeita que o marido, cada vez mais distante, nutre uma relação extra-matrimonial com uma das suas alunas. Num fortuito encontro na casa-de-banho de um restaurante, Catherine trava conhecimento com uma jovem, atraente e carente prostituta chamada Chloe (Amanda Seyfried). Intuitiva e desesperadamente, Catherine acaba por contratar Chloe para que esta seduza David como derradeiro teste à fidelidade dele.

David "morde o isco", e Chloe não se faz rogada em relatar a Catherine, pormenorizadamente, os contornos desta quebra induzida de votos matrimoniais. À concretização de suspeita fundada, soma-se o despoletar de uma curiosidade quase erótica por parte de Catherine — a qual revela, assim, uma excessiva frustração sexual, que só encontrará apaziguamento nas palavras (e nos braços) daquela jovem mas calculista call-girl...



Julianne Moore justifica, uma vez mais, o seu singular posicionamento de actriz imprevisível mas completa — uma postura, para alguns, totalmente desnecessária para o seu "estatuto". Assumindo um novo papel arriscado (lembram-se do que ela fez e disse no recente DESEJOS SELVAGENS?), é ela quem toma as rédeas deste filme, determinando não só as acções das personagens que a rodeiam, como de todo o desenrolar da narrativa. Um feito ainda mais relevante face à "concorrência" de Amanda Seyfried, cuja Chloe estilhaça a imagem de menina doce que vinha alimentando em GIRAS E TERRÍVEIS e MAMMA MIA!, provando ser actriz a ter em conta nos anos vindouros. Neeson é extremamente eficaz numa apropriada composição de segurança e ocultação.

As fragilidades de CHLOE não impedem que seja encarado, no panorama das estreias independentes, como uma obra em plano de destaque. Egoyan filma uma estranha crise de meia-idade feminina no estilo a que nos tem habituado, refinando-o a cada título que produz: a languidez da câmara e dos planos, a montagem que procura, activamente, semelhanças ou antagonismos entre duas acções paralelas, a banda sonora (por Mychael Danna, fiel colaborador do cineasta) arrepiante mas nunca intrusiva. O rumo de CHLOE pode ser incerto, mas capaz de nos manter fixos à sua narrativa pelo talento cinematográfico de Egoyan. Merecedor de atenta visualização (e, esperemos, de lançamento nacional...).

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