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sábado, maio 04, 2013

O Cinema dos Anos 2000: As Horas, de Stephen Daldry




As vicissitudes e defeitos nas adaptações ao Cinema de romances considerados "infilmáveis", é uma das questões que divide, amiúde, crítica, público, leitores compulsivos e cinéfilos aguerridos. No entanto, AS HORAS é digno do "estatuto" de excepção à regra. Stephen Daldry, juntamente com o argumentista David Hare, convertem a premiada obra literária de Michael Cunningham, um exercício meditativo onde pouco acontece, num filme complexo e meticulosamente construído, capaz de dissolver fronteiras temporais e narrativas através da reflexão sobre a influência que um determinado livro — mais concretamente, o Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf — tem na vida de três mulheres (Nicole Kidman, Julianne Moore e Meryl Streep) em três épocas distintas.

Desde a repetida referência à frase que abre o livro supracitado ("Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself") até ao espectro do suicídio (a primeira sequência do filme é, precisamente, o momento em que Virginia Woolf decide terminar a sua própria vida) que paira sobre a maioria das personagens, AS HORAS é uma profunda e desconfortável observação de sofrimento humano. Quase como se tratasse de um filme de terror psicológico, Daldry aborda uma série de temáticas (para além do suicídio, disfunção familiar, ambiguidade sexual, distúrbios mentais e doença terminal são pratos fortes neste contexto dramático) para ilustrar traumas quotidianos, íntimos mas universais, e de inegável poder emocional.

Paralelamente, AS HORAS é, também, uma obra que pertence ao seu extenso e perfeito elenco, numa diversidade de registos que lhe garante uma imediata e duradoira identificação pelo espectador. Torna-se, em jeito de conclusão, impossível não falar sobre os dois "destaques no feminino" do filme: Nicole Kidman "desaparece" sob a camada de make-up da sua personagem, mas traz à luz do dia uma irrepreensível encarnação no corpo e alma de Virginia Woolf, combinando a sensualidade andrógena e semblante depressivo da escritora inglesa, e Meryl Streep, aqui transfigurada no centro emocional do argumento pela sua contida mas fascinante versão da mulher de meia-idade, que não teme assumir responsabilidades, em plena década de 2000.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Nicole Kidman (Virginia Woolf), Julianne Moore (Laura Brown), Meryl Streep (Clarissa Vaughan), Stephen Dillane (Leonard Woolf), Ed Harris (Richard "Richie" Brown), Miranda Richardson (Vanessa Bell), John C. Reilly (Dan Brown), Toni Collette (Kitty), Allison Janney (Sally Lester), Claire Danes (Julia Vaughan), Jeff Daniels (Louis Waters)


Palmarés
. Oscars da Academia: Melhor Actriz (Nicole Kidman)
. BAFTA: Melhor Actriz (Nicole Kidman), Melhor Banda Sonora (Philip Glass)
. Globos de Ouro: Melhor Filme — Drama, Melhor Actriz — Drama (Nicole Kidman)
. Festival de Berlim: Urso de Prata — Melhor Actriz (Meryl Streep, Nicole Kidman, Julianne Moore), Prémio do Júri "Berliner Morgenpost" (Stephen Daldry)
. Prémios Sant Jordi: Melhor Actriz Estrangeira (Julianne Moore)
. National Board of Review: Melhor Filme
. Writers Guild of America: Melhor Argumento Adaptado (David Hare)
. Círculo de Críticos de Los Angeles: Melhor Actriz (Julianne Moore)


Sobre Stephen Daldry

Um dos principais realizadores, na última década, a abordar dramas históricos com dimensão trágico-romântica, Daldry faz uso extensivo da sua experiência teatral para obter desempenhos únicos dos seus actores e experiências cinematográficas de respeitável apelo comercial. BILLY ELLIOT (2000), O LEITOR (2008) e EXTREMAMENTE ALTO, INCRIVELMENTE PERTO (2011) são os restantes títulos da sua filmografia.



sexta-feira, abril 26, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Longe do Paraíso, de Todd Haynes




Outono de 1957 no Connecticut. Eisenhower governa os Estados Unidos e encontramo-nos na época do idílico "sonho à Americana", do qual Cathy Whitaker (Julianne Moore) e a sua família são um perfeito exemplar, de tão perfeita e glamorosa a sua vida aparenta ser. Cathy é a típica dona de casa da época, mãe dedicada, linda e amorosa e o seu marido Frank (Dennis Quaid) é o austero e trabalhador chefe de família, antigo combatente de guerra e respeitado pela vizinhança. A sua apresentação pinta-nos o retrato de uma família inocentemente feliz, inconsciente do drama, vergonha e humilhação que se virá a abater sobre a sua casa.

A história aborda o público como se de voyeurs se tratasse, mostrando-nos mais sobre esta família do que as impressionantes festas e soirées e a rotineira vida do dia-a-dia deixam antever. É-nos revelado que Frank é homossexual em segredo, encontrando-se frequentemente com outros homens. A cena em que Cathy o descobre é devastadoramente triste — e a sua solução para o problema, propondo a Frank que busque ajuda psiquiátrica para este problema, mais aflitiva e penosa ainda é. Com a relação a sofrer consideravelmente, Cathy encontra consolo junto do seu jardineiro de raça negra, Raymond (Dennis Haysbert), culto e educado, mas portador de uma raiva escondida que vem ao de cima em situações sociais desconfortáveis. O falatório que Cathy gera por ambas as situações começa a tornar-se impossível de superar e, em pouco tempo, vemos como a vida idílica desta pobre e doce dona de casa esvanece quanto mais a realidade a assoma e a vemos, ansiosa e desesperadamente, agarrar-se a um pequeno semblante dessa vida que agora mais lhe parece um sonho distante, um paraíso bem longe dali.

Através de uma magnífica atenção ao detalhe e à atmosfera desse período histórico, por todos desde a soberba produção artística, a rica e extravagante banda sonora, as luxuosas roupas fabricadas pela inigualável Sandy Powell, auxiliadas por um elenco forte e competente e um argumento imaculado, somos imersos a fundo na infeliz fábula dos Whitaker. Abordando de forma directa e honesta temas como o racismo e a homossexualidade, que nos últimos cinquenta anos progrediram consideravelmente desde a visão cor de rosa e superficial que se tentava passar enquanto a descriminação, o preconceito e a violência ocorriam debaixo dos narizes de toda a gente, Haynes mescla a ironia do presente com a inocência e ignorância de tempos idos e com isso fabrica um melodrama potentíssimo, uma obra-prima num género gasto, no qual poucos ousariam tentar algo novo. Depois do afirmativo SAFE — SEGURO (1995) e do revolucionário VELVET GOLDMINE (1998), o iconoclasta e autor de excelência Todd Haynes dedica-se a um reinventar o melodrama dos anos 50 com nova aventura junto da sua musa, Julianne Moore.

E não conseguiria arranjar melhor parceira que esta. Moore mostra-se invulgarmente à vontade com as palavras de Haynes e a sua habilidade especial de transformar um acto rotineiro numa peça de teatro, tal a multiplicidade de emoções que consegue transmitir com um simples olhar, fala ou movimento corporal, favorece as construções femininas do autor, normalmente pacatas e apagadas mulheres de família, habituadas a sofrer, com muito por dizer por entre os seus silêncios. O brilho particular desta personagem de Moore e Haynes está na forma reactiva e astuta como vai aprendendo com o decorrer da narrativa. Ela surge-nos como (mais) uma dona de casa ignorante e encantadoramente desfasada da realidade, mas a exposição a que é submetida leva a frágil Cathy a abandonar a natural passividade da mulher dos anos 50 e a começar a consciencializar-se de como é na realidade o mundo que a rodeia.

Ainda me surpreende como Julianne Moore é habitualmente esquecida quando nos referimos aos "melhores", sobretudo se comparada outros seus pares de igual importância (Winslet, Bening, Streep, Kidman, Foster, Blanchett). Uma explicação simples para tal é o quão simples a actriz o faz parecer. "Basta" pegar nas suas duas interpretações premiadas deste ano de 2002, aqui e em AS HORAS, duas donas de casa ideais aprisionadas num pesadelo de subúrbia do qual urgem escapar. Tão diferentes as suas personalidades, motivações, ambições e destinos. Que enorme intérprete. Pena que o Óscar, para uma das maiores de sempre, talvez já nunca virá.

por Jorge Rodrigues (Dial P For Popcorn).

Elenco
. Julianne Moore (Cathy Whitaker), Dennis Quaid (Frank Whitaker), Dennis Haysbert (Raymond Deagan), Patricia Clarkson (Eleanor Fine), Viola Davis (Sybil), James Rebhorn (Dr. Bowman), Michael Gaston (Stan Fine)


Palmarés
. Festival de Veneza: Taça Volpi — Melhor Actriz (Julianne Moore), Prémio SIGNIS — Menção Honrosa (Todd Haynes), Prémio Golden Osella — Contribuição Artística (Edward Lachman)
. Prémios Satellite: Melhor Filme — Drama, Melhor Realizador (Todd Haynes), Melhor Actor Secundário — Drama (Dennis Haysbert)
. Independent Spirit Awards: Melhor Filme, Melhor Realizador (Todd Haynes), Melhor Actriz (Julianne Moore), Melhor Actor Secundário (Dennis Quaid), Melhor Fotografia (Edward Lachman)
. Prémios Sant Jordi: Melhor Actriz Estrangeira (Julianne Moore)
. National Board of Review: Melhor Actriz (Julianne Moore)
. Círculo de Críticos de Los Angeles: Melhor Actriz (Julianne Moore), Melhor Fotografia (Edward Lachman), Melhor Banda Sonora (Elmer Bernstein)
. Círculo de Críticos de Nova Iorque: Melhor Filme, Melhor Realizador (Todd Haynes), Melhor Actriz (Julianne Moore), Melhor Actor Secundário (Dennis Quaid), Melhor Fotografia (Edward Lachman)


Sobre Todd Haynes

Conhecido por assinar filmes provocadores, que subvertem estruturas narrativas clássicas, denunciam hipocrisias modernas e centradas na ambiguidade sexual dos seus personagens, SUPERSTAR: THE KAREN CARPENTER STORY (1988), SAFE — SEGURO (1995), VELVET GOLDMINE (1998) e I'M NOT THERE — NÃO ESTOU AÍ (2007) são títulos fundamentais para a compreensão visual e temática da sua filmografia.



segunda-feira, novembro 29, 2010

"What are your Oscar chances?" #5

OS MIÚDOS ESTÃO BEM



Comédia dramática sobre um casal de lésbicas cujos filhos, gerados por fertilização in vitro, procuram descobrir a identidade do seu dador anónimo de esperma, está bem posicionada para ser um dos competidores aos Óscares relativos a 2010, nomeadamente desde a sua ante-estreia, em Janeiro último, durante o Festival de Sundance.

Nem a temática homossexual prejudicará as suas hipóteses de figurar como um dos principais títulos do ano, sobretudo face à crescente facilidade com que a Academia premeia "interpretações homossexuais" — basta recordar Sean Penn, galardoado por MILK há dois anos — e OS MIÚDOS ESTÃO BEM é um filme de actores.

Análise factual:

Desempenho de bilheteira: Produção independente, logo de "baixo custo", que até ao presente conseguiu facturar 27 milhões de dólares a nível mundial, dos quais 20 milhões foram em território norte-americano(1).

Recepção crítica: Com um rating de aprovação na ordem dos 94% segundo o Rotten Tomatoes(2), é um dos filmes com maior consenso favorável. Destaque para o veredicto de ser «a comédia do ano, que não aplica golpes baixos nem é manipuladora, transmitindo ideias sem ser paternalista».

(3)

Avaliação de cenários:

Cenário provável: Encontra-se bem posicionado para Melhor Filme e Argumento Original (nesta última categoria, detém a pole position). O mesmo se pode dizer de Annette Bening, cuja indicação — e posterior vitória — a Melhor Actriz já é uma quase certeza.

Cenário de sonho: Embora não tenha pretensões a muitos prémios, a cerimónia dos Óscares será positiva com as vitórias para Melhor Actriz e Melhor Argumento Original. O panorama aperfeiçoar-se-ia com a nomeação da realização de Lisa Cholodenko e um número maior de indicações nas interpretações, sendo que Mark Ruffalo (Actor Secundário) e Julianne Moore (Actriz Secundária) são nomes a ter em conta. No entanto, se a Academia preferir um filme de índole mais reconfortante, OS MIÚDOS ESTÃO BEM pode ser considerado como o melhor de 2010...

Cenário a evitar: É quase impossível que escape às nomeações. Assim, o "pesadelo" seria não ganhar qualquer Óscar.

--//--

Consideram que esta poderá ser a surpresa do ano? Julgam que existe aqui alguma sobrevalorização? Partilhem a vossa opinião.

segunda-feira, maio 03, 2010

CHLOE (2009), de Atom Egoyan



Embora se trate de um remake do francês NATHALIE (assinado por Anne Fontaine e que possuía elenco de luxo composto por Fanny Ardant, Gérard Depardieu e Emmanuelle Béart), CHLOE revela-se um veículo privilegiado para Atom Egoyan retomar a sua dissecação sobre a interacção humana em situações de stress emocional e social. Sem nunca chegar aos patamares qualitativos de outras obras do cineasta sobre essa temática, nomeadamente durante o seu maior pico de criatividade, nos anos 90, do qual nasceu os fenomenais EXOTICA (1994), O FUTURO RADIOSO (1997) e A VIAGEM DE FELICIA (1999), encontramos aqui todas as obsessões dramáticas e visuais do canadiano.

Apesar de ostentar segurança nas interpretações — sobretudo, as femininas — e uma peculiar (mas não despropositada) sensualidade na mise-en-scène, CHLOE padece, numa análise a frio, da indefinição nos terrenos que pretende pisar (thriller erótico? drama sobre um proibido triângulo amoroso? crítica social?) e, principalmente, dum terceiro acto pouco conseguido, quase desligado de todo o filme e, a partir de certa altura, totalmente esperado, saldando-se num dos produtos mais inseguros da filmografia de Egoyan.



Catherine (Julianne Moore) é uma ginecologista casada com um professor de música, David (Liam Neeson). À superfície, são os protagonistas de um matrimónio próspero e invejável; basta observar a luxuosa e moderna vivenda do casal, partilhada pelo seu púbere filho, Michael (Max Thieriot). Contudo, a relação conhece dias conturbados. Catherine suspeita que o marido, cada vez mais distante, nutre uma relação extra-matrimonial com uma das suas alunas. Num fortuito encontro na casa-de-banho de um restaurante, Catherine trava conhecimento com uma jovem, atraente e carente prostituta chamada Chloe (Amanda Seyfried). Intuitiva e desesperadamente, Catherine acaba por contratar Chloe para que esta seduza David como derradeiro teste à fidelidade dele.

David "morde o isco", e Chloe não se faz rogada em relatar a Catherine, pormenorizadamente, os contornos desta quebra induzida de votos matrimoniais. À concretização de suspeita fundada, soma-se o despoletar de uma curiosidade quase erótica por parte de Catherine — a qual revela, assim, uma excessiva frustração sexual, que só encontrará apaziguamento nas palavras (e nos braços) daquela jovem mas calculista call-girl...



Julianne Moore justifica, uma vez mais, o seu singular posicionamento de actriz imprevisível mas completa — uma postura, para alguns, totalmente desnecessária para o seu "estatuto". Assumindo um novo papel arriscado (lembram-se do que ela fez e disse no recente DESEJOS SELVAGENS?), é ela quem toma as rédeas deste filme, determinando não só as acções das personagens que a rodeiam, como de todo o desenrolar da narrativa. Um feito ainda mais relevante face à "concorrência" de Amanda Seyfried, cuja Chloe estilhaça a imagem de menina doce que vinha alimentando em GIRAS E TERRÍVEIS e MAMMA MIA!, provando ser actriz a ter em conta nos anos vindouros. Neeson é extremamente eficaz numa apropriada composição de segurança e ocultação.

As fragilidades de CHLOE não impedem que seja encarado, no panorama das estreias independentes, como uma obra em plano de destaque. Egoyan filma uma estranha crise de meia-idade feminina no estilo a que nos tem habituado, refinando-o a cada título que produz: a languidez da câmara e dos planos, a montagem que procura, activamente, semelhanças ou antagonismos entre duas acções paralelas, a banda sonora (por Mychael Danna, fiel colaborador do cineasta) arrepiante mas nunca intrusiva. O rumo de CHLOE pode ser incerto, mas capaz de nos manter fixos à sua narrativa pelo talento cinematográfico de Egoyan. Merecedor de atenta visualização (e, esperemos, de lançamento nacional...).

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Movie Moments #13



Há dez anos atrás estreava um dos filmes mais inesquecíveis dos tempos modernos: MAGNOLIA é uma pura homenagem ao «cinema-mosaico» (repleto de personagens e histórias paralelas) que Robert Altman popularizou e afirmou Paul Thomas Anderson como um dos realizadores mais talentosos e maduros da sua geração, epítetos plenamente confirmados pelas duas obras que produziu na presente década, a original comédia romântica PUNCH-DRUNK LOVE — EMBRIAGADO DE AMOR (2002) e o épico negro (em vários sentidos) HAVERÁ SANGUE (2008).

Para comemorar o décimo aniversário da sua estreia, é impossível não invocar este fabuloso momento em que todas as figuras que pululam em MAGNOLIA expiam os erros do seu passado através de um inesperado playback de «Wise Up», da autoria de Aimee Mann.



quarta-feira, dezembro 03, 2008

Happy birthday, Miss Moore



Uma das actrizes mais talentosas da sua geração (senão a mais dotada artisticamente), Julianne Moore completa hoje 48 anos, mas o tempo (como a foto acima demonstra) parece não passar por esta senhora.

Capaz de se reinventar em cada filme que protagoniza, a sua carreira está repleta de diversidade e carácter, tal como ficou patenteado em SHORT CUTS — OS AMERICANOS (1993), SAFE — SEGURO (1995), MAGNÓLIA (1999), LONGE DO PARAÍSO (2002) ou OS FILHOS DO HOMEM (2006).

Ah! E não posso deixar de salientar que a Academia deve-lhe um Óscar há muitos anos...