terça-feira, novembro 09, 2010

A REDE SOCIAL (2010), de David Fincher



Mais do que um estudo acerca dessa "máquina" de interacção virtual chamada Facebook ou uma biografia do seu criador, Mark Zuckerberg, inspirada em O MUNDO A SEUS PÉS, A REDE SOCIAL representa, acima de tudo, a certeza de que nem tão cedo teremos em David Fincher um realizador inventivo. O satisfatório ZODÍACO, na sua abordagem histórico-documental, pareceu "desvio" de percurso; O ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON incrementou um estilo emocional que lhe desconhecíamos mas não totalmente eficaz; e agora, nesta narrativa centrada no bilionário mais jovem do mundo que mistura sátira social, comédia de costumes e tragédia grega, o adeus definitivo ao cineasta que mais procurou sobressair no mainstream norte-americano através de arrojo visual (CLUBE DE COMBATE, SALA DE PÂNICO) e surpreendente reinvenção do thriller enquanto género cinematográfico (SETE PECADOS MORTAIS).

Não significa o parágrafo anterior que A REDE SOCIAL seja um mau filme. Na verdade, vê-se muito bem — a premissa de um individuo associal que concebe uma poderosa ferramenta para facilitar amizades não deixa de ser deliciosamente irónica, o argumento possui diálogos cativantes e algumas interpretações suscitam empatia. Contudo, e observando o que se tem dito e escrito desde a sua estreia, surpreende-me afirmações como «o filme do ano», «o principal candidato aos Óscares» ou «o retrato de uma geração». Zuckerberg e eu, na altura dos acontecimentos, partilhávamos quase a mesma idade; sou utilizador assíduo do Facebook; reconheço benefícios na possibilidade de interagir online com conhecidos e estranhos. Mas não me identifico com as ilações e personagens que pululam no filme. Se existe mensagem a reter em A REDE SOCIAL, é a de como ser um empreendedor de sucesso na sociedade global dos nossos dias — sugerindo que esta tanto poderia ser a história do Facebook como do Google...



Inspirado no polémico livro Milionários Acidentais, de Ben Mezrich, A REDE SOCIAL situa-nos numa noite de Outubro de 2003 em que Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) decide criar um site, ilegalmente alojado na própria rede da universidade, onde se podia classificar alunas pelo critério sexista de hot or not como resposta à "tampa" que sofreu de uma colega (fossem todas as decepções românticas assim tão criativas e rentáveis...). Condenado a seis meses de suspensão, Mark é instigado pelos irmãos gémeos Cameron e Tyler Winklevoss, membros de uma fraternidade, a conceber uma página de encontros entre universitários. Ele aceita a proposta, mas a sua ambição (e ideias) levam-no a solicitar ajuda ao amigo Eduardo Saverin (Andrew Garfield) para financiar uma rede social que "agarre em toda a dinâmica da vida universitária e a disponibilize na Internet", fundando assim o Facebook. Da parceria de êxito até à ruptura da "sociedade" por irregularidades legais e disputas financeiras foi um passo.

Dividindo a narrativa principal com a descrição dos dois litígios judiciais que Mark Zuckerberg teve de enfrentar logo após o boom do Facebook (uma acusação de roubo de propriedade intelectual e outra movida por Saverin a exigir compensação pelo seu estatuto de fundador do site), A REDE SOCIAL ganha ritmo (e esse é um mérito que não se pode mesmo tirar ao filme) e tenta expressar moralismo expectável, ou seja, o défice que as comunidades virtuais provocam às relações interpessoais.



Poder-se-à concluir que o maior problema de A REDE SOCIAL parece residir nos contextos engendrados pelo argumento de Aaron Sorkin (UMA QUESTÃO DE HONRA). Independentemente da afirmação pública de que nem tudo o que aqui vemos é para ser tomado como verídico, divaga em algumas sequências talvez desnecessárias — exemplo acabado disto é a corrida de remo, com a redobrada ironia de talvez ser, a nível formal, a mais reconhecidamente Fincheriana — e apresenta-nos como protagonista um autista social, obcecado por reconhecimento, que o desempenho (monótono e monocórdico) de Eisenberg não consegue tornar interessante. Tanto podemos ter alguém que padece de Síndroma de Asperger como de um indivíduo emocionalmente carente... tanto, que é capaz de encontrar em Sean Parker (um apropriado Justin Timberlake), esse Fausto moderno que inventou o Napster e revolucionou a indústria musical, um mentor para o sucesso do Facebook. Apenas Andrew Garfield, a quem é permitido variedade de registo, se destaca dos demais.

Como anteriormente opinei, David Fincher volta a "negar-se" ao virtuosismo e inventividade de outros tempos. Mas continua a ser evidente que se rodeia de alguns dos melhores profissionais técnicos do ramo, nomeadamente Jeff Cronenweth na direcção de fotografia, a dupla Kirk Baxter/Angus Wall à frente da sala de montagem e a subtileza dos efeitos visuais integrados nos gémeos Winklevoss. Já para não falar de Trent Reznor, que compôs uma das mais surpreendentes bandas sonoras de 2010. Poderá uma partitura composta por música electrónica ser nomeada ao Óscar daquele categoria? A concretizar-se, será motivo de regozijo pessoal, o qual será devidamente anunciado. De preferência, no Facebook.

9 comentários:

Tiago Ramos disse...

Efectivamente o Facebook é a questão menos importante no filme. Eu acho que é um belíssimo estudo social, as personagens são profundíssimas (ainda mais do que aparentam) e há muito de importante para ir ali buscar e aprender. Uma definição do social contemporâneo muito competente. Grande parte do filme é Sorkin, a ele cabe-lhe o mérito de ter adaptado o argumento tão bem. A Fincher, pode-lhe ter faltado originalidade, mas é tão competente e brilhante naquilo que fez, que acho que não é um dos seus filmes menores. Muito pelo contrário.

A cena de remo, belíssima, fantástica. Simboliza o espírito de Harvard e de forma análoga, o espírito competitivo da sociedade actual: por dois micro-segundos ficas atrás e perdes tudo.

Sam disse...

Tiago,

Achei muito interessante a tua interpretação da sequência do remo, e não deixo de concordar contigo. No entanto, julgo que o carácter competitivo de Harvard já é expresso durante grande parte do filme, e a cena agora em destaque serve, no máximo, para a enfatizar.

E sim, há observação e estudo social implícito no argumento. Mas define totalmente as sociedades modernas ou apenas uma faixa específica das mesmas?

As minhas expectativas eram elevadas e isso poderá ter influenciado a minha visão de A REDE SOCIAL...

Obrigado pela tua opinião, abraço.

Jubylee disse...

Acho a tua análise interessante, mas não concordo com alguns aspectos. Acho que Fincher nunca disse que este filme definia totalmente as sociedades modernas - o que seria demais afirmar, visto nós sermos a sociedade dita moderna e não acho que sejamos os melhores a analisarmo-nos a nós próprios. Além disso, não concordo quando dizes que ele tenta expressar moralismo expectável. Não acho que seja o virtual que aqui está em causa, mas as relações pessoais entre indivíduos próximos, muito reais.

De resto, também fiquei com a mesma sensação do que tu, no que diz respeito a expectativas goradas, por assim dizer. Ainda assim não acho que seja um mau filme, mas um filme menos bom - Fincher está em geral muito bem, na minha opinião, ao longo de toda a sua filmografia e este não é excepção, apesar de preferir outros títulos. Talvez o tema não seja tão...bombástico ou impressionante quanto "Fight Club" ou "Seven", mas não deixa de ser um retrato bastante interessante sobre as relações interpessoais e que acho que vale a pena apreciar.

:)

Sam disse...

Caro Jubylee,

Desde já, obrigado pelo teu comentário.

A afirmação de que este filme é um retrato da nossa sociedade não partiu de Fincher, mas sim de muitas críticas e opiniões que li.

Quanto ao filme, espero que o meu texto não tenha passado a ideia de que "não vale a pena" ver A REDE SOCIAL. Pelo contrário, oferece agradável visualização. Tal como tu, apenas fiquei com expectativas goradas...

Volta sempre!

Jubylee disse...

;)

Jubylee disse...

Ah, já agora, é carA e não carO :)

Eu já sou uma visitante assídua do teu blogue há anos! Mas não sou muito de comentar - só de vez em quando.


Se quiseres faz uma visitinha ao meu cantinho: http://jubylee.tumblr.com.
:)

Sam disse...

Peço imensa desculpa pela "troca", 'I should know better'... :/

Conheço muito bem e visito frequentemente o teu blog — aliás, está listado no rol de links aqui à direita.

Fica bem :)

Jubylee disse...

Deixa lá - já não é a primeira vez...hehe

Nem tinha reparado! Obrigada pela referência :)

Roberto Simões disse...

Ainda não vi, mas aguardo com especial curiosidade ;) Afinal, David Fincher é David Fincher. Já li maravilhas, a respeito.

Cumps.
Roberto Simões
» CINEROAD - A Estrada do Cinema «