segunda-feira, julho 04, 2011

Críticas da Semana

Breve resumo dos principais filmes visualizados esta semana.

AFTERSCHOOL — DEPOIS DAS AULAS (2008), de António Campos

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Robert (Ezra Miller), aluno numa das melhores escolas norte-americanas, filma por acidente a morte, por oversode, de duas colegas. As suas vidas tornam-se no assunto de um projecto audiovisual concebido pela direcção da escola para acelerar o processo de luto colectivo. Contudo, aquele filme suscitará uma atmosfera de paranóia e desconforto entre alunos e professores.

Logo nos seus primeiros frames, percebemos que estamos em território cinematográfico fugidio, inquietante e atordoante, sentimentos que nunca abandonarão o espectador até ao fim. Sendo essa a sua principal qualidade, aliada à fenomenal composição formal de AFTERSCHOOL — DEPOIS DAS AULAS (Campos é um confesso admirador do estilo desenvolvido por Kubrick, e essa inspiração está sempre patente), apenas há a lamentar o facto de não ser explanado um argumento mais singular, o qual limita-se a "reciclar" a interacção entre juventude, violência e novas tecnologias que títulos como BENNY'S VIDEO (1992, Michael Haneke) ou ELEFANTE (2003, Gus Van Sant) analisaram com melhor rendimento. Apesar disso, recomenda-se a visualização.

VIAGEM A PORTUGAL (2010), de Sérgio Tréfaut



Uma ucraniana (Maria de Medeiros), pouco depois de aterrar em Faro vinda de Kiev de modo a reencontrar-se com o marido senegalês (Makena Diop), vê a sua entrada no país barrada pelo "sistema" português de Estrangeiros e Fronteiras, nomeadamente através da funcionária (Isabel Ruth) encarregue de analisar o caso.

VIAGEM A PORTUGAL será, provavelmente, o exemplo mais recente que vi onde o recurso a opções estéticas que procuram subverter as regras básicas do cinema de ficção mais oscila entre o fascinante e o perigoso. Fascinante pelo trabalho formal adoptado (implacável fotografia a preto e branco que nem aos cinzentos concede espaço, montagem elíptica, direcção artística minimalista, sonoplastia metafórica), perigoso por esse "exercício de estilo" infundir a narrativa, inspirada em factos verídicos, de tanto artificialismo técnico que a sua potencial denúncia não encontra qualquer ressonância emocional no espectador, sendo mais desviante do que incisivo. Cabe a Maria de Medeiros e, sobretudo, Isabel Ruth, garantir o pouco "calor" de uma obra com pouca densidade narrativa para uma estética tão profunda.

O LIVRO DE CABECEIRA (1996), de Peter Greenaway

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Quando Nagiko (Vivian Wu) era criança, o pai escrevia-lhe na face, no dia do seu aniversário, orações de felicidade e a tia lia-lhe o diário de uma aia japonesa do Século XX. Enquanto cresce fisicamente, o seu espírito desenvolve um fetiche por livros, papéis e escrita corporal. Quando conhece Jerome (Ewan McGregor), um tradutor britânico a residir em Hong Kong, Nagiko julga encontrar o "papel" ideal para os treze capítulos da sua obra-prima literária.

Nunca abandonando os seus "jogos" fílmicos predilectos, Greenaway é dos poucos cineastas actuais que conseguem transformar uma sequência em quadros vivos, autênticas telas (o principal mérito tem de ir para o director de fotografia, Sacha Vierny) onde predominam impecáveis simetrias e as fragilidades do ser humano, situados em histórias de estranhas obsessões que, mesmo quando arriscam quebrar a linha da verosimilhança, nunca deixam de nos envolver durante e após a sua visualização. Quinze anos passados desde a sua estreia, O LIVRO DE CABECEIRA não perdeu nenhum do seu poder, sendo definitivamente um dos melhores filmes de Greenaway — e mais um testemunho de que Ewan McGregor é actor talhado para intensos projectos alternativos.

1 comentário:

ArmPauloFer disse...

Gostei bastante do Afterschool, um filme pertinente sobre a "sociedade escolar", voyerista, e que coloca o dedo nas várias partes envolvidas no processo: alunos, pais, instituição, o mundo exterior (as vicissitudes).
Sou apreciador desse filme.

O LIVRO DE CABECEIRA nunca vi inteiro, e quando o vi foi pela TV hás uns 10 ou mais anos e foi numa altura sem predisposição para o filme (tem umas partes boas e algumas até bem vistosas). O problema de um filme na TV é o comando e outras propostas mexidas noutros canais. Desculpa ter dito isto assim, pois até parece mal como comentário.
Admito que o deveria rever actualmente, com mais atenção e até porque o sentido cinéfilo tem estado muito mais agudo actualmente (e tens parte de culpa nisso, eheheh).