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segunda-feira, dezembro 12, 2011

Críticas da Semana

Breve resumo dos principais filmes visualizados esta semana:

. WE NEED TO TALK ABOUT KEVIN
. FLEURETTE
. A PELE ONDE EU VIVO

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. WE NEED TO TALK ABOUT KEVIN (2011), de Lynne Ramsay



Eva (Tilda Swinton), mãe do rapaz adolescente (Ezra Miller) responsável por uma série de homicídos num liceu, procura lidar com os remorsos e sentimentos de culpa pelas acções do filho.



O vermelho-sangue, esse rubor que em Cinema parece sempre clamar outras sensações que não as imediatamente patenteadas pela imagem, abunda no seu esquema cromático, mantendo-nos em sobressalto contínuo durante as quase duas horas de um dos filmes, a nível visual e temático, mais perturbadores do ano. Enunciando ideias como propensão genética ou responsabilidade maternal para a formação psíquica de um homicida em massa, Ramsay (que já não filmava desde 2002) constrói uma obra-prima na desconstrução da linearidade temporal do argumento — a capacidade do espectador apreender a cronologia de vários flashbacks é testada ao limite — e na oscilação, sempre periclitante e arriscada, entre o realismo puro e a fuga para a ilusão.

A contribuir, temos uma Tilda Swinton no auge das suas faculdades representativas e o surgimento de Ezra Miller, autêntica "bomba-relógio" de inquietação e malefício humano. É pena que só estreie em Fevereiro no nosso país — está aqui um dos títulos obrigatórios de 2011.

. FLEURETTE (2002), de Sérgio Tréfaut



Sérgio Tréfaut procura compreender o passado atribulado da mãe e Fleurette, aos 79 anos, ainda coloca obstáculos a qualquer inquérito sobre o seu passado. Mas vai ao longo do filme, pouco a pouco, desvendando acontecimentos secretos e revelando uma outra vida.



Eis uma obra de difícil análise, a começar logo pela sua catalogação. Algures entre o documentário autobiográfico e um original retrato de época, Tréfaut exibe pormenores íntimos e quase confrangedores não só da sua vida privada, como também dos que lhe são próximos, com uma franqueza e candura que desarmam qualquer possibilidade de aferir este trabalho negativamente.

Contudo, e apesar da boa experiência que proporciona, FLEURETTE (o filme) não transmite, cinematograficamente, grandes novidades sobre o género "fascinante história de vida real" através do exemplo de Fleurette (mãe do realizador), saldando-se num produto final mediano.

. A PELE ONDE EU VIVO (2011), de Pedro Almodóvar



Durante anos, o Dr. Robert Ledgard (Antonio Banderas), eminente cirurgião plástico, interessa-se pela criação de uma nova pele que seria capaz de garantir a sobrevivência da sua esposa, queimada num acidente de automóvel. Mas para além de anos de estudo e experimentação, Robert necessita de uma cobaia humana e a total ausência de escrúpulos.



Inesperada exploração de Almodóvar pelo sub-género do body horror — embora aqui seja mais body do que horror, nomeadamente com a impressionante presença física de Elena Anaya, numa das melhores interpretações do ano —, revela no cineasta espanhol a existência de pulsões criativas que não lhe víamos desde ATA-ME! (1990) ou EM CARNE VIVA (1997) e um potencial único para coadunar melodrama com as mais puras perversidades humanas num produto de óbvio apelo comercial.

Ostentando um cada vez maior perfeccionismo técnico (sobretudo, na fotografia assinada por José Luis Alcaine, tão estéril quanto o bloco operatório do protagonista de A PELE ONDE EU VIVO mas nunca sórdida) e com a cativante banda sonora de Alberto Iglesias (um dos seus mais fiéis e sempre assertivos colaboradores), Almodóvar divaga, todavia, por vários caminhos estéticos e narrativos numa tentativa semi-falhada de ensemble piece e, não obstante o principal plot point do filme ser intrinsecamente Almodóvariano, raramente detectamos o lado humanista do realizador. E o argumento de A PELE ONDE EU VIVO poderia sujeitar-se, de forma natural, a uma abordagem desse género. Recomenda-se, no entanto, a sua visualização.

sexta-feira, dezembro 09, 2011

Agenda Cinematográfica

:: 9500 CINECLUBE DE PONTA DELGADA ::

FLEURETTE (2002), de Sérgio Tréfaut



Será que conhecemos as pessoas que nos são próximas? Será que as queremos conhecer?
E elas, quererão que as cheguemos a conhecer? O filho procura compreender o passado atribulado da mãe e Fleurette aos 79 anos ainda coloca obstáculos a qualquer inquérito sobre o seu passado. Mas vai ao longo do filme, pouco a pouco, desvendando acontecimentos secretos e revelando uma outra vida.

É um filme de difícil delimitação em termos de género: formalmente um documentário autobiográfico, em que o realizador interroga os pais e o irmão, em complexa estratégia de auto-descoberta, acaba por passar as fronteiras da ficção, lançando um belíssimo olhar sobre uma história de família. Porque se atravessa grande parte do séc. XX, da França dos anos 40, com fragmentos de história de amor e desamor, de colaboracionismo e neutralidade, ao Portugal da Revolução de Abril, é também a inscrição de uma narrativa comovida e terna sobre as contradições da estrutura familiar, no quadro mais vasto da história recente.

[Com a presença do realizador.]

Hoje, pelas 21h30, no Cine Solmar.

segunda-feira, julho 04, 2011

Críticas da Semana

Breve resumo dos principais filmes visualizados esta semana.

AFTERSCHOOL — DEPOIS DAS AULAS (2008), de António Campos

afterschool

Robert (Ezra Miller), aluno numa das melhores escolas norte-americanas, filma por acidente a morte, por oversode, de duas colegas. As suas vidas tornam-se no assunto de um projecto audiovisual concebido pela direcção da escola para acelerar o processo de luto colectivo. Contudo, aquele filme suscitará uma atmosfera de paranóia e desconforto entre alunos e professores.

Logo nos seus primeiros frames, percebemos que estamos em território cinematográfico fugidio, inquietante e atordoante, sentimentos que nunca abandonarão o espectador até ao fim. Sendo essa a sua principal qualidade, aliada à fenomenal composição formal de AFTERSCHOOL — DEPOIS DAS AULAS (Campos é um confesso admirador do estilo desenvolvido por Kubrick, e essa inspiração está sempre patente), apenas há a lamentar o facto de não ser explanado um argumento mais singular, o qual limita-se a "reciclar" a interacção entre juventude, violência e novas tecnologias que títulos como BENNY'S VIDEO (1992, Michael Haneke) ou ELEFANTE (2003, Gus Van Sant) analisaram com melhor rendimento. Apesar disso, recomenda-se a visualização.

VIAGEM A PORTUGAL (2010), de Sérgio Tréfaut



Uma ucraniana (Maria de Medeiros), pouco depois de aterrar em Faro vinda de Kiev de modo a reencontrar-se com o marido senegalês (Makena Diop), vê a sua entrada no país barrada pelo "sistema" português de Estrangeiros e Fronteiras, nomeadamente através da funcionária (Isabel Ruth) encarregue de analisar o caso.

VIAGEM A PORTUGAL será, provavelmente, o exemplo mais recente que vi onde o recurso a opções estéticas que procuram subverter as regras básicas do cinema de ficção mais oscila entre o fascinante e o perigoso. Fascinante pelo trabalho formal adoptado (implacável fotografia a preto e branco que nem aos cinzentos concede espaço, montagem elíptica, direcção artística minimalista, sonoplastia metafórica), perigoso por esse "exercício de estilo" infundir a narrativa, inspirada em factos verídicos, de tanto artificialismo técnico que a sua potencial denúncia não encontra qualquer ressonância emocional no espectador, sendo mais desviante do que incisivo. Cabe a Maria de Medeiros e, sobretudo, Isabel Ruth, garantir o pouco "calor" de uma obra com pouca densidade narrativa para uma estética tão profunda.

O LIVRO DE CABECEIRA (1996), de Peter Greenaway

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Quando Nagiko (Vivian Wu) era criança, o pai escrevia-lhe na face, no dia do seu aniversário, orações de felicidade e a tia lia-lhe o diário de uma aia japonesa do Século XX. Enquanto cresce fisicamente, o seu espírito desenvolve um fetiche por livros, papéis e escrita corporal. Quando conhece Jerome (Ewan McGregor), um tradutor britânico a residir em Hong Kong, Nagiko julga encontrar o "papel" ideal para os treze capítulos da sua obra-prima literária.

Nunca abandonando os seus "jogos" fílmicos predilectos, Greenaway é dos poucos cineastas actuais que conseguem transformar uma sequência em quadros vivos, autênticas telas (o principal mérito tem de ir para o director de fotografia, Sacha Vierny) onde predominam impecáveis simetrias e as fragilidades do ser humano, situados em histórias de estranhas obsessões que, mesmo quando arriscam quebrar a linha da verosimilhança, nunca deixam de nos envolver durante e após a sua visualização. Quinze anos passados desde a sua estreia, O LIVRO DE CABECEIRA não perdeu nenhum do seu poder, sendo definitivamente um dos melhores filmes de Greenaway — e mais um testemunho de que Ewan McGregor é actor talhado para intensos projectos alternativos.

domingo, maio 08, 2011

Críticas da Semana

Breve resumo dos principais filmes visualizados esta semana.

A CIDADE DOS MORTOS (2009), de Sérgio Tréfaut



A Cidade dos Mortos, no Cairo, é a maior necrópole do mundo. Um milhão de pessoas vivem dentro de um cemitério que se estende por mais de dez quilómetros ao longo de uma auto-estrada. Contudo, não deixa de ser uma aldeia, com mães à caça de um bom partido para as filhas, rapazes a correr atrás das raparigas, disputas entre vizinhos.

Não é difícil apelidar o registo filmado do quotidiano de uma "cidade" que se formou no interior de uma necrópole do Cairo como irresistível. O realizador não esconde o seu fascínio por este microcosmos, mas permanece a impressão de existir ainda muito por contar e descobrir acerca desta peculiar localidade numa metragem (60 minutos) que se revela muito breve. Apesar do seu défice de contextualização e detalhe, encoraja-se visualização.

COMANDANTE (2003), de Oliver Stone



Documentário político em que o realizador norte-americano entrevista Fidel Castro sobre uma gama variada de temas: memórias históricas, geopolítica, a intimidade do estadista e o próprio sentido da vida.

Stone faz um excelente trabalho na desmistificação de Castro, contudo revela-se facilmente ludibriado pelo entrevistado quando os diálogos abordam os temas mais sensíveis (direitos humanos, repressão policial e política, etc.) da Revolução Cubana. Política e História à parte, o contraste entre as palavras do líder e imagens de arquivo retoma a pujança da montagem dinâmica e intelectualmente provocadora que o cineasta exibira em JFK (1991) e da qual, na minha opinião, nunca se deveria ter afastado.

FREAKONOMICS (2010), de Seth Gordon



Baseado no best-seller de Steven Levitt e Stephen Dubner, este documentário é composto por uma série de vinhetas, assinadas por diferentes realizadores (incluindo Morgan Spurlock e Alex Gibney), que ilustram capítulos do livro sobre temas tão diversos como a influência que o primeiro nome exerce no sucesso ou fracasso de um indivíduo ou se é possível subornar um estudante de forma a que este atinja desempenho escolar positivo.

Se a decisão de filmar os segmentos mais interessantes do livro revela-se acertada, o facto de as curtas afastarem-se do campo da Economia — que é, sem dúvida, o cerne das investigações levadas a cabo por Levitt e Dubner — para "introspecções" sobre (i)moralidade social afastam o espectador de importantes reflexões, tais como ausência de informação ou tácticas agressivas de manipulação que conduzem ao consumo irracional contemporâneo. Desta feita, e contrariamente ao que advogo, recomendo a obra literária e depois o filme... caso não exista algo melhor "à mão" para ver.

O MÁGICO (2010), de Sylvain Chomet



Quando a arte do ilusionismo dava os últimos passos, um mágico entertainer, afastado dos palcos da cidade, vê-se obrigado a apresentar o seu espectáculo num pub da costa ocidental escocesa, onde encontra Alice, uma jovem inocente, que mudará para sempre a sua vida.

Ao adaptar um argumento nunca produzido de Jacques Tati, Chomet recupera a (apropriada) magia que só a animação tradicional, assente mais em gestos e situações do que em diálogos, consegue proporcionar. Pleno de mensagens de amor paternal, surpreendentemente realista e melancólico como a vida, apresenta um interessante subplot dedicado às amarguras de quem procura na arte e entretenimento incondicionais um meio de subsistência. Mesmo que se tenha em mente a pequena controvérsia em torno da reinvenção da história escrita por Tati, é complicado ficar de coração empedernido quando O MÁGICO termina.

SERBIS (2008), de Brillante Mendoza



Uma família filipina, residente num velho cinema de província que passa filmes pornográficos, lida com os seus dilemas pessoais. Entretanto, o público que frequenta a sala encontra na penumbra de um cinema a atmosfera ideal para uma variedade de "serviços" sexuais entre prostitutos e clientes.

O cinema de Mendoza não é, definitivamente, para "meninos": rude, obsceno, raramente gentil e de intenções pouco transparentes, a história é simplesmente apresentada e não narrada por mecanismos narrativos consensuais. Para o cineasta, aquele cinema pornográfico parece funcionar como metáfora para um mundo em ruínas, onde prazeres mundanos e crenças particulares não camuflam as misérias e descontentamentos da existência humana. Filme tão incomodativo como de qualidade.

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