domingo, outubro 30, 2011

Críticas da Semana

Breve resumo dos principais filmes visualizados esta semana:

. A CANÇÃO MAIS TRISTE DO MUNDO
. A TORINÓI LÓ
. ASSIM É O AMOR

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. A CANÇÃO MAIS TRISTE DO MUNDO (2003), de Guy Maddin



Quando Chester Kent (Mark McKinney), um falhado empresário da Broadway, e Narcissa (Maria de Medeiros), a sua namorada amnésica, regressam à terra natal de Chester, vão deparar-se com uma espinhosa reunião familiar e um caótico concurso para encontrar a canção mais triste do mundo, organizado pela cervejaria local, dirigida pela amarga Lady Port-Huntley (Isabella Rossellini).



Para Maddin, cineasta com tanto de avant-garde como de "antiquário", a exagerada abundância é completamente intencional: os seus filmes garantem-lhe estatuto de culto pela granulada qualidade da imagem, pela monocromia dos enquadramentos, pelo lirismo das histórias e personagens. E no filme mais acessível da sua carreira, o espectador tem de se render a esta super-artificialidade, servida numa história de total absurdo mas completamente irresistível.

Durante toda a sua duração, vivemos um género de cinema que apenas encontramos na nossa memória e em alguns momentos — como o plano de um retrato de família enquadrado numa gota de água, cujo sentimentalismo inerente invejaria Chaplin ou Griffith — ponderamos a hipótese de Maddin ser um viajante no tempo, apetrechado com o know-how do período mudo e os recursos técnicos do século XXI. A CANÇÃO MAIS TRISTE DO MUNDO é uma curiosidade de primeira ordem e, talvez, a estreia ideal para quem deseja conhecer o cinema de Guy Maddin.

. A TORINÓI LÓ (2011), de Béla Tarr



Em 1889, Nietzsche protege um cavalo que é brutalmente espancado. Depois desse episódio, perderá a razão. O que aconteceu ao cavalo continua a ser um profundo mistério.



Recompensado com o Grande Prémio do Júri no último Festival de Berlim, o (segundo as próprias palavras do realizador) último filme de Béla Tarr é um profundo exercício de niilismo moderno, pautado por estados de espírito em detrimento da explanação de uma narrativa na verdadeira acepção do conceito — a repetição, o tédio, a frugalidade, o sofrimento, a filosofia anti-religiosa de Nietszche e duas das personagens mais planas e "invisíveis" que poderemos observar num grande ecrã dominam os trinta planos-sequência de um filme que atesta como o seu realizador, recorrendo outra vez ao seu discurso directo, «não me resta nada de novo para contar».

Contudo, é impossível desviar o olhar da sua permanente desconstrução da forma e tempo cinematográficos, imergindo-nos num fantasmagórico chiaroscuro e extraindo o ritmo a partir da nortada que assola, incessantemente, a casa onde a "acção" do filme decorre. A partir daqui, o grau de satisfação será proporcionalmente dependente do quanto se é fã de Tarr. A TORINÓI LÓ revela-se um poderoso desafio para quem "institucionalizou" que cada filme do cineasta deve ser encarado como obra-prima e, só por isso, merece positiva admiração.

. ASSIM É O AMOR (2011), de Mike Mills



Alguns meses depois do falecimento do seu pai Hal (Christopher Plummer), Oliver (Ewan McGregor) conhece a irreverente e imprevisível Anna (Mélanie Laurent). Este novo amor inunda Oliver de memórias do seu pai que, a seguir à morte da sua mulher e já com 75 anos, resolve assumir a sua homossexualidade.



De sabor inconfundivelmente indie (Mills, para além de ter assinado o aclamado THUMBSUCKER em 2005, é casado com Miranda July), a sua premissa simples é-nos apresentada com dinamismo, humor e, sobretudo, uma montagem inteligente que, alternando presente e passado, salda-se num equilibrado conjunto emocional. Para tal, muito contribui a segurança do elenco, onde se destacam Christopher Plummer (já se fala em prémios...), Ewan McGregor e a quase desconhecida Mary Page Keller, naquele registo scene-stealer que se lamenta não ter conhecido mais expansão.

O grande handicap de ASSIM É O AMOR está em ser um filme demasiado pessoal (o argumento é inspirado na relação de Mike Mills com o próprio pai) "encaixado" numa produção de óbvio apelo comercial, perdendo, assim, definição no seu registo (comédia romântica ou drama familiar?) e no público-alvo a que se dirige. De visualização agradável, com os seus momentos pungentes, o espectador ávido pelo cinema independente norte-americano encontrará aqui imensos focos de atracção, mas está longe de ser obrigatório.

2 comentários:

ψ Psimento ψ disse...

Concordo com tudo relativamente ao ASSIM É O AMOR, só não entendi qual é o "público alvo a que se dirige"...

Sam disse...

Caro Psimento, nem eu. Daí a referência ao desequilibrado registo do filme.