domingo, dezembro 18, 2011

Críticas da Semana

Breve resumo dos principais filmes visualizados esta semana:

. THE FUTURE
. BLUE VALENTINE — SÓ TU E EU
. CONTÁGIO
. HABEMUS PAPA — TEMOS PAPA
. ISTO NÃO É UM FILME

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. THE FUTURE (2011), de Miranda July



Quando um casal (Miranda July e Hamish Linklater) decide adoptar um gato, a sua perspectiva de vida muda radicalmente, culminando numa literal alteração do curso normal do tempo e espaço.



Quando Miranda July estreou EU, TU E TODOS OS QUE CONHECEMOS, em 2005, não haviam dúvidas que — permitam-me a piada — o "futuro" da jovem realizadora afigurava-se interessante. A sua vontade em inovar a narrativa cinematográfica era revigorante e palpável. No entanto, esse talento parece, agora, resultar num descalabro de maneirismos irreconhecíveis em seres humanos e na atitude estanque de concordar, simultaneamente, com tudo e com nada como se daí fosse possível enunciar qualquer filosofia útil de vida.

Se o referido intuito de trazer algo de novo ao cinema independente norte-americano até poderia ser benéfico, o paradoxo de THE FUTURE reside em sofrer dessa ânsia: injecta surrealismo no quotidiano de personagens — felinos incluídos — que perseguem, voluntariamente, o pessimismo e a melancolia, busca em desespero aquilo que alguns apelidam de 'quirky' e, quando consegue exibir algum momento inspirado, regressa novamente ao vazio emocional e de ideias onde nos situa durante todo o filme. A evitar.

. BLUE VALENTINE — SÓ TU E EU (2010), de Derek Cianfrance



Dean (Ryan Gosling) e Cindy (Michelle Williams) tentam salvar o seu casamento. Justapostos com cenas lúdicas que traçam o seu namoro romântico de seis anos, o casal viaja através do desgosto brutal de promessas quebradas e de um amor que está perto do fim.



Mais do que o retrato do colapso de um matrimónio, esta é uma visão desencantada e áspera da classe média norte-americana — será por acaso que a separação do casal protagonista ocorre durante as celebrações do 4 de Julho? — unida ao realismo cínico e segurança narrativa de Cianfrance. E, apesar do sofrimento e crescente desdém conjugal a que assistimos, é impossível não nos identificarmos com o desenrolar de BLUE VALENTINE, de não pensarmos (e, quiçá, lamentarmos) em todos os planos e decisões tomadas no passado e que influenciam o nosso presente.

Se as razões da degradação do casamento de Dean e Cindy estão em profundo contraste com os primeiros dias de felicidade (observados em flashback), tal deve-se ao impressionante trabalho de Ryan Gosling e Michelle Williams, dois case studies de violência psicológica e desonestidade humana fomentada pela ausência de comunicação perante os que mais estimamos. E realismo cinematográfico, quando não exposto através de documentário, é isto. De visualização obrigatória.

. CONTÁGIO (2011), de Steven Soderbergh



À medida que um vírus desconhecido se espalha a uma velocidade nunca vista no mundo contemporâneo, os aspectos menos lisonjeiros da humanidade vão-se revelando.



Pouco recomendado a germofóbicos e cinéfilos em geral, CONTÁGIO é uma mera checklist dos dramas que associamos a este sub-género do filme-catástrofe: do pânico urbano até aos interesses políticos que se delineiam nos bastidores e a (suposta) luta de quem pretende denunciar toda a verdade, sem recorrer a uma montagem especialmente habilidosa nem se centrando numa personagem ou situação em particular.

Não é novidade que Soderbergh se distingue pela variedade de registos, que vão do experimental (SCHIZOPOLIS, 1996) ao entretenimento pointless (OCEAN'S ELEVEN — FAÇAM AS VOSSAS APOSTAS, 2001) com o mesmo à-vontade. Todavia, em CONTÁGIO, o cineasta aparenta somar mais um item à sua carreira — o de "tarefeiro", que reúne uma série de actores consagrados na concepção de uma obra que, só a espaços, revela-se minimamente interessante.

. HABEMUS PAPA — TEMOS PAPA (2011), de Nanni Moretti



O novo papa eleito (Michel Piccoli) sofre um ataque de pânico no momento em que é suposto aparecer na varanda da Praça de São Pedro para saudar os fiéis. Os seus conselheiros, incapazes de o convencer de que ele é o homem certo para o cargo, procuram a ajuda de um conhecido psicanalista (Nanni Moretti).



Apesar de não ser dos meus cineastas de eleição, sempre admirei a coesão que Nanni Moretti ostenta quando aborda a "sátira humanista". E o cenário de um Papa recém-eleito mas acossado por ataques de ansiedade prometia mais do que é aqui concretizado. Ou seja, nem sátira nem paródia, muito longe de se assumir como visão crítica do Vaticano, que falha parcialmente nos momentos deliberadamente construídos como humorísticos mas certeiro na observação das crises de identidade que podem atingir qualquer um de nós.

É nesse aspecto que HABEMUS PAPAM se demonstra um óptimo filme, nomeadamente porque tem a seu favor o rosto e talento de Michel Piccoli e em quem toda a narrativa deveria centrar-se. No fim, o psiquiatra (interpretado pelo próprio Moretti) não chega ao estatuto de caricatura, há uma diversidade de sub-plots cujas intenções nunca são devidamente justificadas e a verdadeira mensagem do filme — a redescoberta do indivíduo — quase passa despercebida. Vale mesmo pelo protagonismo de Piccoli.

. ISTO NÃO É UM FILME (2011), de Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb



Jafar Panahi — cujas obras examinam de forma crítica a realizade social do Irão —, condenado a prisão domiciliária e proibido de filmar durante os próximos 20 anos, decide "contar" um filme em vez de o "fazer".



"Isto Não É Um Filme" porque nele não reencontramos o charme e a elegância que caracterizam a carreira cinematográfica de Panahi. Aqui, o cineasta iraniano é um indivíduo quase amedrontado, obviamente frustrado e sedento de expressão criativa. As "encenações" do filme que o impedem de materializar — uma história de amor com um ligeiro toque à Chekhov — representam as alturas mais dinâmicas da vida de um artista obrigado a reaprender os moldes mais básicos de interacção social.

Apresentado clandestinamente no estrangeiro, é um tributo à liberdade de expressão, cujos ideais serão (têm de ser!) estudados no futuro. Muito recomendado.

2 comentários:

Inês Moreira Santos disse...

Quanto a O FUTURO, ainda bem que me avisaste a tempo. :) BLUE VALENTINE é um dos filmes que me são mais queridos e as tuas palavras sobre ele são muito apropriadas. Um filme doloroso e bem real. Quanto a CONTÁGIO, desde os primeiros momentos em que comecei a ouvir falar dele que quase o excluí da minha lista "a ver". Pelas tuas palavras, acho que irá continuar assim. Já HABEMUS PAPAM é um filme que me agradou bastante, a par de ISTO NÃO É UM FILME.

Excelentes textos, como sempre.
Cumprimentos cinéfilos :*

Sam disse...

Inês, se os dois filmes a que dei má nota não te seduzem, também não consigo encontrar razões para te convencer a vê-los :P

Quanto ao BLUE VALENTINE, sim, conheço a tua predilecção pela obra e lembro-me que a vi por tua influência. Aquelas palavras, sobre o filme, não se modificaram.

Obrigado pelo comentário.
Cumps cinéfilos :*