sexta-feira, dezembro 09, 2011

O Fim da Película: O Fim da Cinefilia?

«One must save everything and buy everything. Never assume you know what's of value.» Henri Langlois, fundador da Cinemateca Francesa.



No passado mês de Novembro, o IHS Screen Digest Cinema Intelligence Service publicou um extenso estudo com uma única e principal conclusão: a projecção de cinema em película render-se-à, irremediável e definitivamente, aos formatos digitais em 2015.

De acordo com a mesma fonte, o principal "responsável" por esta alteração foi AVATAR, de James Cameron, cujo tremendo sucesso comercial, aquando da sua estreia em 2009, acelerou o processo de transição para a projecção digital. Já no próximo ano, estima-se que o número de salas apetrechadas dessa tecnologia ultrapasse as de projecção em 35mm, até ao seu domínio absoluto em 2015, relegando a película para um formato de quase nicho de mercado (isto é, reservada a instituições museológicas e exibidores privados):



De entre as inúmeras dúvidas e consequências que advirão desta "revolução tecnológica", é impossível não encontrar mais vantagens do que fragilidades: redução de custos na produção, transporte e recursos humanos para manuseamento de filmes em 35mm, progressivo incremento na qualidade de imagem e som das projecções e, para estúdios e exibidores, perspectivas de maiores receitas de bilheteiras geradas a partir de títulos em 3D. Por outras palavras, e numa época em que a rentabilidade financeira determina todas as decisões inerentes a qualquer sector de actividade, o digital assume-se como opção privilegiada.

Contudo, numa análise atenta às especificidades técnicas da projecção digital, outras sombras de especulação, parcamente abordadas pelos media, formam-se no que diz respeito à fiabilidade económica e logística do formato, a maioria das quais semelhantes e derivadas dos mesmos moldes que regem o mercado da informática. Apontam-se, de seguida, apenas algumas das contrariedades já salientadas, por projeccionistas e proprietários de sala de exibição1, relativamente aos "prodígios" da exibição digital:

  • multiplicação de fabricantes de projectores digitais, dos quais alguns exigem agressivos contratos de exclusividade com as redes de distribuição comercial;

  • existência de dois formatos de compressão de imagem [2K (resolução de imagem de 2048 por 1080 pixels) e 4K (4096 por 2160 pixels)] e, hoje em dia, instalam-se projectores incompatíveis com compressão a 2K;

  • acelerada obsolescência e/ou descontinuação de fabrico dos equipamentos de projectores digitais, implicando elevados custos de actualização e novas aquisições por parte dos exibidores;

  • para o espectador, a ameaça de projecções mal configuradas no que se refere a luminosidade e cor, caso não seja efectuada a calibragem necessária durante o processo de instalação do equipamento... algo que nem sempre é feito: por exemplo, em França, calcula-se que 80% das salas não cumpre este requisito.




Mas o principal objectivo do presente texto não é a elencagem dos defeitos inerentes à projecção em digital. No cenário actual, a forma como se assiste a um filme constituirá a menor das preocupações para um cinéfilo. A verdadeira apreensão reside nos efeitos do predomínio do cinema digital relativamente à preservação da actual produção digital cinematográfica para as gerações futuras.



Segundo o referido estudo do IHS — que, em nenhum parágrafo, aborda a questão da preservação cinematográfica —, e juntamente com a padronização do digital enquanto meio privilegiado de produção cinematográfica, a procura de cópias em 35mm para exibição sofrerá, já no próximo ano, drástica redução. Tal facto conduzirá, obrigatoriamente, a uma menor necessidade de fabrico de película em celulose e, talvez, à adopção de técnicas de armazenamento informático do património audiovisual recente. Actualmente, essa migração tecnológica encontra-se, e citando François Ede (restaurador da Cinemateca Francesa), num «buraco negro digital».

The Digital Dilemma2, documento elaborado pelo Conselho de Ciência e Tecnologia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos EUA que recolheu os pareceres de arquivistas, técnicos e responsáveis pela preservação de imagens em movimento norte-americanos, concluía, já em 2007 (data da sua divulgação) que «a acentuada aceleração no uso de sistemas digitais não estava sendo acompanhada pelo planeamento adequado, ou mesmo em alguns casos por um entendimento completo do impacto potencial da revolução digital»3 na conservação de património cinematográfico e que «uma mudança para o digital, ainda que seja totalmente consciente e comprometida, não garante o acesso a conteúdos cinematográficos a longo prazo»4.

Ao longo das suas 86 páginas, são mencionados os múltiplos problemas que o trabalho de preservação enfrenta nos tempos vindouros devido à completa adopção, pela indústria, de formatos digitais de produção e exibição cinematográfica. Dos tecnicamente complexos aos inteiramente dependentes da "competência" humana, os itens abaixo salientados ainda não encontraram, quatro anos após a redacção de The Digital Dillema, resolução iminente:

  • inexistência, a curto ou longo prazo, de concepção de software que armazene um objecto digital por várias décadas, invulnerável a elementos naturais e a campos electromagnéticos, livre de sofrer erros de processamento ou de comunicação e sem o risco de se tornar, em pouco tempo, tecnologicamente obsoleto;

  • a preservação digital sujeita-se a limitações e práticas comerciais ambíguas, tais como a incapacidade de garantir espaço de armazenamento ou características de durabilidade inferiores às anunciadas pelos fabricantes;

  • a decisão do que deve ou não ser armazenado poderá ficar a cargo dos próprios estúdios, em detrimento da preservação total de materiais (conforme defendido por cinematecas e fundações museológicas de imagens em movimento);

  • ameaças económicas (perda de financiamento de sistemas de preservação digital, os quais ainda requerem manutenção, substituição, mão-de-obra e energia);

  • ameaças técnicas (falhas comuns na integridade de dados, vulnerabilidade a vírus informáticos, armazenamento num único lugar, obsolescência, compressão inadequada de ficheiros, extravio de passwords);

  • ameaças humanas (erros do operador, acções mal-intencionadas, possível facilitação de pirataria informática).


E os custos inerentes à preservação digital revelam-se substancialmente superiores quando comparados com os da conservação em película (dados relativos a 2007):

5

Toda esta "aglomeração" de dados bibliográficos e económicos parecem reduzir a importância e magia associadas à experiência de ver Cinema tal como pretendido desde a sua invenção em 1895. No entanto, os factos aparentam querer corroborar essa realidade, tendo em conta que a maioria dos estúdios já não procede à cópia de novos títulos, filmados com equipamento digital, em película e, inclusive, existe a ameaça de essas mesmas corporações "blindarem" os seus acervos à exibição em 35mm.

Mas mais do que "como ver um filme", a cinefilia também passa por ansiar que um título, independentemente do modo como foi produzido (35mm, 16mm, digital, Super 8, etc.), seja competente e responsavelmente preservado. Nesse âmbito, e por mais DVDs, Blu-Rays e torrents (formatos com menor "esperança de vida" do que se poderia supor) que existam, não há dúvidas que a cópia física é, e será por muito tempo, a opção mais fiável para esse fim.

Se, como eu, forem saudosistas da película, sempre podem assinar esta petição on-line iniciada pelo New Beverly Cinema, em Los Angeles, com o intuito de impedir o fim da distribuição de filmes em 35mm. Ou esperar que certos lobbys, como os de Steven Spielberg ou de Quentin Tarantino, promova uma coexistência ideal entre o analógico e o digital:



Notas:
1 Cahiers du Cinèma, n.º 672, Bientôt sur vos écrans, pp. 9 a 12.

2 a Cinemateca Brasileira disponibiliza, mediante registo, uma versão traduzida deste estudo.

3 The Digital Dilemma, versão portuguesa, p. 8.

4 The Digital Dilemma, versão portuguesa, p. 9.

5 The Digital Dilemma, versão portuguesa, p. 44.

2 comentários:

Andreia Mandim disse...

Tenho pena de viver para ver este dia chegar. É triste quando se começa a confundir termos como "evolução" e "perda", principalmente vindo de pessoas que fazem cinema e sem a película, provavelmente esta arte não existia. Para mim é como substituir a pintura pela arte ou vice-versa. São coisas distintas e não se deveriam extinguir ou, pelo menos, substituir de modo tão radical.
E a isto acrescento o digital em substituição do papel; outro medo que está cada vez mais próximo.

Cumprimentos,
cinemaschallenge.blogspot.com

Loot disse...

Não estou tão dentro do assunto como tu Samuel, mas gostava também de ver uma existência mútua de ambos.

Infelizmente acho que todos nós já sabíamos com o surgimento do digital que a película podia bem ter os dias contados só que até acontecer nunca nos preocupamos com isso.

abraço