domingo, fevereiro 12, 2012

Críticas da Semana

Breve resumo dos principais filmes visualizados esta semana:

. FINIS TERRAE
. ARAYA
. SOY CUBA

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. FINIS TERRAE (1929), de Jean Epstein



Na costa bretã de Bannec, dois jovens marinheiros dependem da recolha de algas para sobreviverem, as quais serão vendidas a fábricas de produtos químicos. Mas mesmo nesta rotina pacífica, há conflitos que podem alterar a vida de uma comunidade inteira.



Obrigatório e primordial exemplo de cinema etnográfico mesmo antes do género ter sido cunhado, Epstein distancia-se do documentário histórico sobre um local e actividade comercial agora extintas através da poesia que imprime nas suas imagens de cariz naturalista. Contrastando com a aridez da paisagem marítima de Bannec, encaramos o seu simbolismo visual — sobretudo na brilhante sequência inicial, a destacar uma garrafa de vinho estilhaçada ou uma roda de madeira que há muito não é usada — como correlação directa à pobreza e humildade das vidas aqui representadas.

Para as audiências modernas, FINIS TERRAE revelar-se-à como objecto cinematográfico surpreendentemente dinâmico, atestando a mestria técnica de Jean Epstein e, tendo em conta o debate recente suscitado por O ARTISTA, o poder visual e expressivo do cinema anterior ao aparecimento do filme sonoro. A câmara enfatiza a dureza das expressões e comportamentos das personagens — todas interpretadas por actores não-profissionais e oriundos daquela localidade —, numa espécie de neo-realismo que antecipa, em décadas, o trabalho de Rossellini e que, num argumento "escrito" por imagens, liberta o espectador para qualquer interpretação moral da história. Obrigatório.

. ARAYA (1959), de Margot Benacerraf



Documentário "ficcional", lírico e realista sobre a remota península de Araya, no norte da Venezuela, uma das regiões mais estéreis do mundo, onde a sobrevivência dos seus habitantes provém, apenas, do que o mar produz: sal e peixe.



Premiado em Cannes no seu ano de estreia, eis o assombroso registo de uma cultura e geografia singulares onde "tudo era desolação", refere o narrador no monólogo de introdução. E essa desolação surge, simultaneamente, bela e aterradora, como poucos alguma vez almejaram: o implacável sol — perfeitamente registado pelo director de fotografia Giuseppe Nisoli — que se abate sobre a região de Araya é capaz de deixar, literalmente, qualquer espectador sequioso; o isolamento do seu povo palpável; por vezes conseguimos mesmo "sentir" as feridas que o trabalho nas salinas causa à pele humana.

O microcosmos de rotina e ambições humanas mínimas, apresentado em ARAYA, constituirá objecto de estudo privilegiado para sociólogos — as comparações possíveis entre o contexto aqui filmado e as angústias do mundo industrializado são intermináveis —, mas Benacerraf parece mais interessada em mostrar o lado humano de um local único, quase nos antípodas do nosso. Mas onde também se ama, trabalha, sofre e (sobre)vive. De visualização recomendada, ainda para mais com a recente restauração que lhe foi devotada pela Milestone Films.

. SOY CUBA (1964), de Mikhail Kalatozov



Através de quatro narrativas, descreve-se a lenta evolução de Cuba desde o regime de Batista à revolução de Fidel Castro.



Fruto de um investimento propagandista soviético de proporções inusitadas para a sua época, com o intuito de "elevar os méritos da Revolução Cubana sobre os vícios da cultura norte-americana", é indubitavelmente mais interessante enquanto feito de perícia técnica do que eficaz na explanação de conteúdos políticos. SOY CUBA será, sempre, o documentário com dois dos planos-sequência mais fabulosos da história do Cinema: o ambiente de festa num hotel de Havana desde o seu terraço até à piscina e o funeral de um jovem revolucionário são peças de Cinema quase "impossível".

A estética ressoa no espectador, a composição narrativa nem tanto. SOY CUBA é um filme datado pela sua relação íntima a uma época e regime político específicos, pouco subtil nos dogmas que patrocina (os "maus" são imediatamente reconhecidos pelo aspecto físico) e o seu espírito político poderá já nem reflectir o de Cuba dos nossos dias. Todavia, o brilhantismo visual de Kalatozov continuará a maravilhar espectadores e influenciar todas as gerações de cineastas.

4 comentários:

Inês Moreira Santos disse...

Belos textos, como sempre, Sam.
Fiquei bastante curiosa para ver principalmente o Finis Terrae.

Cumprimentos cinéfilos,
Inês

Sam disse...

Obrigado Inês, e ainda bem que o texto suscitou-te curiosidade :)

Para mim, são obras semi-esquecidas que mereciam mais visionamento.

Cumps cinéfilos.

Paulo Soares disse...

Por acaso vi este fim de semana um documentário de que gostei muito do Mikhail Kalatozov, "Sol Svanetii" (1930).

Sam disse...

Paulo, já o tenho agendado para ver em breve; obrigado pela recomendação :)