domingo, março 11, 2012

Críticas da Semana

Breve resumo dos principais filmes visualizados esta semana:

. SALT FOR SVANETIA
. A QUEDA DA CASA DE USHER
. MEGHE DHAKA TARA [THE CLOUD-CAPPED STAR]

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. SALT FOR SVANETIA (1930), de Mikhail Kalatozov



Documentário sobre as duras condições de vida dos habitantes na isolada região montanhosa de Svanetia.



Muitas décadas antes de maravilhar plateias e críticos com os fabulosos QUANDO VOAM AS CEGONHAS (1957) e SOY CUBA (1964, recentemente analisado aqui), Mikhail Kalatozov desenvolvia puro dinamismo documental no âmbito dos primeiros passos do Cinema Soviético. Que não restem dúvidas: SALT FOR SVANETIA, enquanto documentário, é teoria cinematográfica no seu estado mais elementar, quase "primitivo", reunindo peças do imaginário infantil do cineasta (a República da Geórgia) com os eixos doutrinários do Socialismo.

Outro título obrigatório para uma compreensão exaustiva do filme etnográfico, nomeadamente por descrever a sobrevivência rural do povo de Svanetia, a sua crítica ao feudalismo supersticioso e celebração da modernização proporcionada pelos anos embrionários da União Soviética revelam-se secundárias face às impressionantes opções estéticas do filme, claramente influenciadas pelos ensinamentos de Eisenstein mas já evidenciadores da sensibilidade distintiva que Kalatozov explanaria (sobretudo) em SOY CUBA, tais como a obliquidade da objectiva ou perspectivas invulgares sobre os sujeitos filmados. Em suma, o documentário que deveria ter colocado, desde muito cedo, o seu realizador no mapa da História da Sétima Arte.

. A QUEDA DA CASA DE USHER (1928), de Jean Epstein



Allan (Charles Lamy) decide visitar a casa de Usher, supostamente assombrada, onde o seu amigo Roderick (Jean Debucourt) se dedica à pintura de um retrato da esposa Madeline (Marguerite Gance). Mas cada pincelada parece retirar forças à sua mulher...



Na sua hipnótica fotografia que ultrapassa a "oposição cromática" do chiaroscuro e infunde as imagens de um permanente cinzento nebuloso, no experimentalismo da câmara lenta e dos travellings e na expressividade de um então semi-desconhecido Jean Debucourt, Epstein descarta, quase por completo, o memorável texto de Edgar Allan Poe (um "arrojo" que levou à divergência com e posterior demissão durante as filmagens de Luis Buñuel, então assistente de realização) para conceber uma obra de singular melancolia, que equilibra um sugestivo horror nos seus primeiros minutos com o romantismo insano do clímax.

Do ponto de vista narrativo, nem tudo é adequadamente encenado ou devidamente resolvido, tornando-se óbvio constatar que essa trata-se da maior fragilidade de A QUEDA DA CASA DE USHER. Contudo, a sua subtileza visual irrepreensível, que captura as personagens como se estas estivessem literalmente presas nos fotogramas, atesta a magia que só o filme realmente mudo consegue proporcionar.

. MEGHE DHAKA TARA [THE CLOUD-CAPPED STAR] (1960), de Ritwik Ghatak



A trágica história de Nita (Supriya Choudhury), filha de refugiados oriundos do Paquistão, que sacrifica felicidade, dinheiro e saúde pela sua família sem conseguir obter reconhecimento pelos seus feitos pessoais.



Seguindo a boa tradição do Cinema Indiano, o melodrama cobre este filme de uma ponta à outra. No entanto, este relato visualmente sublime, provocante e íntimo sobre miséria, desencanto e exílio surpreende (e continua a ser fantástico encontrar um objecto cinematográfico com essa virtude...) pela experiência única e sensorial que Ghatak alcança, recorrendo aos estados de espírito da protagonista para inspirar a formalidade de enquadramentos, à vez, surreais, depressivos e alegóricos, sempre "banhados" por um luminoso (de utópica esperança?) preto-e-branco.

De modo quase inesperado, MEGHE DHAKA TARA é, também, uma obra de profundos contornos políticos, pois a degradação dos valores morais da família de Nita pode ser interpretada como uma metáfora para a Índia da época, levada à ruína por interesses egoístas e divisões partidárias nacionais. Essa mensagem garante ao filme inegável cariz universal, merecedor não só de descoberta desta iminente obra-prima, como também da carreira de Ghatak, cuja consagração internacional está logo "atrás" do brilhantismo poético de Satyajit Ray.

2 comentários:

Bruno Cunha disse...

Eu tinha algum interesse em ver a obra de Epstein mas depois de saber que este descartara o texto de Poe...


Abraço
Frank and Hall's Stuff

Sam disse...

Bruno, existem outros motivos de (muito!) interesse para se querer continuar a ver a adaptação de Epstein :)

Cumps cinéfilos.