domingo, abril 29, 2012

Críticas da Semana

Breve resumo dos principais filmes visualizados esta semana:

. ARMADILLO
. LINHA VERMELHA
. HORS SATAN
. POULET AUX PRUNES
. PUNK'S NOT DEAD

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. ARMADILLO (2010), de Janus Metz Pedersen



Durante seis meses, uma equipa de filmagem acompanha o quotidiano de um grupo de soldados dinamarqueses em Armadillo, uma base militar instalada na província afegã de Helmand.



Durante a visualização de ARMADILLO, e por diversas vezes, recordei outro documentário de guerra recente, RESTREPO (anteriormente revisto aqui). Ambos partilham a abordagem crua e em primeira mão de conceber cinema em plena linha de fogo, possuem o mesmo cenário de guerra — Afeganistão — e revelam-se politicamente "agnósticos" na celebração/condenação de um conflito armado. A grande diferença no método de Metz Pedersen é a delineação de backgrounds sociais e psicológicos dos intervenientes, criando a automática simpatia do espectador pelos seus destinos.

Apesar desta semi-ficcionalização, há feridas físicas, esgares de choque e a apresentação do horror e da desordem inerentes à guerra que só a realidade consegue evidenciar. E ARMADILLO, correndo o risco de ser, a espaços, pouco ético, concretiza-o na perfeição. De visualização obrigatória para apreciadores deste género documental.

. LINHA VERMELHA (2011), de José Filipe Costa



Em 1975, Thomas Harlan realiza TORRE BELA, documentário sobre a ocupação de uma grande herdade no Ribatejo no Portugal do pós-25 de Abril. 37 anos depois, José Filipe Costa revisita esse filme emblemático, e procurando descobrir a influência da presença da câmara nos acontecimentos e o paradeiro actual dos seus protagonistas.



Mais do que a observação em torno da rodagem, empreendida em circunstâncias históricas particularmente "confusas" e com contornos duvidosos, de um documentário, José Filipe Costa constrói um fabuloso trabalho sobre manipulação da realidade em cinema, do poder, seja ele provocado ou espontâneo, da câmara de filmar e da sinceridade que registos cinematográficos e fonográficos podem transmitir para a compreensão de um determinado contexto.

A partir dessa concepção, LINHA VERMELHA efectua, igualmente, uma singular análise da percepção da nossa própria História, sobretudo a relacionada com o 25 de Abril de 1974 — período onde tanto parece estar por descobrir, realçar e partilhar. São urgentes mais documentários assim no Cinema Português.

. HORS SATAN (2011), de Bruno Dumont



Nas margens do Canal da Mancha, perto de uma pequena vila, vive um estranho homem (David Dewaele) que vegeta, caça furtivamente, reza e faz fogueiras. Uma rapariga local (Alexandra Lemâtre) conta dele e alimenta-o. Passam tempo juntos na grande área de dunas e bosques recolhendo-se misteriosamente na margem de charcos onde vagueia o demónio...



A espiritualidade é uma presença constante no cinema de Bruno Dumont, realizador de cenários morais tão ambíguos quanto a natureza do protagonista de HORS SATAN, uma "reencarnação" contemporânea de Cristo, ou anjo da guarda, propenso a esporádicos acessos de violência e comportamentos directamente inspirados no Novo Testamento (justiça semi-divina, curas, exorcismos), sem que exista, nem por uma única instância, espaço a argumentos ou julgamentos éticos que expliquem a sua origem e intenções.

Uma opção narrativa tremendamente eficaz em manter o espectador num permanente estado de incerteza — eis a principal concretização de HORS SATAN —, potenciada pela atmosfera hipnótica da direcção de fotografia, exímia em capturar a paisagem natural de Côte d’Opale. Todavia, o estilo de Dumont, por mais tematicamente estimulante que continue a apresentar-se numa carreira que compreende apenas seis títulos, já demonstra alguma "fadiga" — e refiro-me, também, à minha experiência como espectador...

. POULET AUX PRUNES (2011), de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud



Nasser-Ali (Mathieu Amalric), um violinista talentoso, decide morrer após partir o seu violino durante uma discussão com a mulher (Maria de Medeiros). Enquanto espera pelo seu derradeiro suspiro, recorda os momentos mais felizes do seu passado.



A capacidade de Satrapi e Paronnaud, autores do magnífico PERSEPOLIS (2007), de transformarem o delicodoce em algo de cinematograficamente admirável e qualitativo está plenamente exposto aqui. Embora não alcance os níveis daquele predecessor — e a fasquia das expectativas tinha de ser colocada alta —, POULET AUX PRUNES é um inegável festim visual, ancorado num soberbo trabalho de direcção artística e de fotografia (são vinhetas de banda desenhada recriadas em imagem real) e na segura interpretação de Mathieu Amalric.

O principal handicap do filme está no seu cariz episódico, inconstante no registo (oscila entre a comédia romântica e o drama sobrenatural de forma algo descurada) e no foco do argumento. Contudo, há aqui magia e momentos inesquecíveis — um curioso segmento animado, centrado na figura de Azrael, o Arcanjo da Morte na cultura islâmica, está particularmente bem conseguido — para o elevar a título obrigatório de 2012 dentro do género do fantástico.

. PUNK'S NOT DEAD (2007), de Susan Dynner



Pela ocasião do 30º aniversário do punk rock, este documentário conduz-nos a clubes clandestinos, festas ilegais, estúdios pioneiros e — sim — centros comerciais para ilustrar as origens do género musical e respectiva influência na cultura popular.



É raro encontrar um documentário que consiga combinar o seu ritmo com o do tema abordado como PUNK’S NOT DEAD, filme cujo principal mérito está na exibição de um trabalho de montagem tão inconstante, anárquico e espirituoso quanto o estilo musical documentado. No conteúdo, não se revela tão bem conseguido: Susan Dynner aposta num formato mais enciclopédico do que analítico do movimento punk, referindo praticamente todos os conjuntos que constituem a sua história (dos Sex Pistols aos The Offspring, dos Dead Kennedys a Green Day, de DOA até Bad Religion) numa interessante compilação de imagens de arquivo, recolhendo a opinião de diversos protagonistas de peso, mas sem nunca aludir, convincentemente, às origens e influências — e de como se tornou influente para a cultura popular contemporânea — do género.

Obrigatório para os principiantes, peculiar para fãs temporal e geograficamente distantes, pouco interessante junto de quem viveu os "anos dourados" do punk, salda-se num documentário de extremos qualitativos. Mas a rebeldia formal que transpira da visualização de PUNK’S NOT DEAD é irresistível.

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