sábado, abril 28, 2012

Antes de Tarkovsky...

... há Mikhail Kalatozov (1903 — 1973). E não se trata de mero pormenor cronológico.



Urge conhecer, mais e melhor, este cineasta de origem georgiana. Estudante aplicado da Escola de Montagem Soviética nos anos 20 e 30, artífice por excelência na propagação da mentalidade política do Premier Nikita Khrushchev nos anos 50 e 60, a obra cinematográfica de Kalatozov assume-se como uma das mais fascinantes, irrepreensíveis e, de modo virtual e paradoxal, desconhecidas — mesmo para algumas "elites" — do Século XX.

De natureza vincadamente propagandística, a filmografia de Mikhail Kalatozov demarca-se da maioria pela diligência e habilidade técnicas utilizadas, sem desviar o espectador, tanto no documentário como na ficção, da condição humana que define o cerne dos seus filmes: os dramas são profundamente pessoais para as personagens, as narrativas mais emocionais do que comoventes (embora essa característica seja, por vezes, encontrada), a busca de redenção está sempre presente. Apetrechados de planos fulgurantes atrás de planos fulgurantes, expressivos movimentos de câmara e inspiradas direcções de montagem e fotografia, cada título testemunha, individualmente, a carreira visionária e singular do realizador.

A breve experiência de Kalatozov como montador e operador de câmara nos estúdios de cinema de Tbilissi é evidente nos três principais filmes que constituem o seu início de carreira, os quais situam-no — assim o devemos e temos de considerar — enquanto nome tão fundamental para a compreensão da teoria da montagem soviética como os de Eisenstein, Kuleshov, Vertov ou Pudovkin.

MATI SAMEPO/THEIR EMPIRE (1928), documentário constituído por fragmentos de actualidades noticiosas e cujo paradeiro só foi parcialmente redescoberto em 20081, critica a ineficácia e o cinismo do estilo de vida burguês georgiano face aos progressos alcançados pelo regime comunista. A futura marca de Kalatozov já é reconhecível nos segmentos finais do filme, repletos de uma sátira capaz de extrapolar os métodos do Agitprop.

Um dos melhores exemplos do cinema dito etnográfico (género que prima, como poucos, pela apresentação estética da ou duma realidade) pertence, desde muito cedo, a Kalatozov com o impressionante JIM SHVANTE/SALT FOR SVANETIA (1930) — uma representação da dura vida rural do povo de Svanetia, na Geórgia, vergado por um feudalismo supersticioso e obsoleto que só será libertado pelo estabelecimento no Cáucaso da "nova União Soviética" —, já evidencia a sensibilidade visual que Kalatozov explanaria mais tarde, tais como a obliquidade da objectiva ou perspectivas invulgares sobre os sujeitos filmados.



E, neste período, a ficção do cineasta em prol da propaganda socialista atinge o seu auge técnico e narrativo em LURSMANI CHEQMASHI/NAIL IN THE BOOT (1931), obra banida pelos censores estalinistas por "o argumento ser ideologicamente confuso para as plateias"2 mas portadora de um sentido de puro cinema visual: magnífica iluminação, arrojados ângulos de câmara, notável montagem.



Mikhail Kalatozov empreendeu uma "travessia do deserto" que durou mais de uma década, apenas assinando durante esse período alguns títulos, dedicados a propaganda de guerra, que a História regista parcamente e cuja visualização é, de momento, extremamente difícil.

É preciso esperar pelo ano de 1957 para a Sétima Arte assistir ao ressurgimento definitivo de Kalatozov. QUANDO VOAM AS CEGONHAS, drama romântico toldado pela Segunda Guerra Mundial, Palma de Ouro no Festival de Cannes, "a indiscutível primeira obra-prima do cinema pós-Estaline"3 e a estreia da colaboração do realizador com o director de fotografia Sergei Urusevsky, com o qual conceberá as mais notáveis e assombrosas imagens alguma vez registadas em película.

É exemplo disso a forma como, neste excerto, a câmara segue, apaixonada e freneticamente, o rosto de Tatyana Samojlova, a principal vedeta do grande ecrã soviético daquele período...



... ou a fulgurante e hipnótica cena inicial de NEOTPRAVLENNOYE PISMO/LETTER NEVER SENT (1959)...



... e é obrigatório ver e rever este plano sequência de SOY CUBA! (1964), onde sobressaem pormenores que quase poderiam ser apelidados de "cinema impossível":



Feita esta "análise formal e visual", impõe-se sublinhar a influência e o legado estético de Mikhail Kalatozov na obra e carreira de Andrei Tarkovsky (daí o título deste post), detectável em todos os filmes, sem excepção, do cineasta soviético mais celebrizado da segunda metade do século passado. Nomeadamente, A INFÂNCIA DE IVAN (1962), flagrante descendente da "morfologia" de NEOTPRAVLENNOYE PISMO/LETTER NEVER SENT — e são vários os autores a corroborar essa perspectiva4.

Por outras palavras, considero Kalatozov um percursor e inovador como poucos na História da Sétima Arte e que, no seu estudo, tem sido permanentemente sonegado pelos constrangimentos políticos que a sua vida pessoal e profissional conheceu. Um autor capaz de sugerir, poética e visualmente, ideologias políticas mas permitindo a liberdade emocional dos intervenientes humanos das narrativas. Um cineasta de simultâneo apelo popular, filosofia íntima e valor artístico.

Para mim, e embora não o assuma de ânimo leve, Kalatozov está um grau acima de Andrei Tarkovsky — outro autor de inegável brilhantismo e qualidade mas sem a carga política do primeiro. Mas há convicções pessoais que, por mais controversas e incrédulas que sejam, têm de ser partilhadas.

Contudo, num aspecto não hesito: procurem conhecer a obra de Mikhail Kalatozov. O Cinema também reserva fulgor nos autores menos óbvios.

Notas:
. 1 in Antti Alanen: Film Diary.
. 2 in Antti Alanen: Film Diary.
. 3 in The Cranes Are Flying by Chris Fujiwara.
. 4 in Letter Never Sent: Refining Fire by Dina Iordanova

8 comentários:

Inês Moreira Santos disse...

Excelente artigo, Sam. Deixaste-nos com uma bela "carta de recomendação" de Mikhail Kalatozov.
Deixaste-me, definitivamente, curiosa acerca deste realizador, que, como imaginas, desconhecia. Convenceste-me totalmente com o exemplo que deste do SOY CUBA!. Fantástico!

Cumprimentos cinéfilos e continuação de óptimas recomendações, como esta. :) :*

Sam disse...

Obrigado, Inês, pelo comentário e pelas palavras.

Ainda bem que estás convencida. A possibilidade de dar a conhecer um cineasta cuja obra ganha, cada vez mais, apreço pelo Keyzer Soze :)

Cumps cinéfilos :*

rf. disse...

"quando voam as cegonhas" é um filme arrebatador. depois de ler o teu artigo só meu apetece voltar a ve-lo.

O Narrador Subjectivo disse...

Um grande realizador, sem dúvida, ainda bem que se fala do Soy Cuba. Cumprimentos!

Loot disse...

Descobri Tarkovsky graças a um blog também. Conheci-o à pouco e após três filmes vistos vejo que foi uma grande descoberta :)

Isto para dizer que o melhor da blogoesfera é precisamente esta partilha e agora Kalatozov mais um cineasta a descobrir.

abraço e obrigado ;)

Sam disse...

rf., tenho sempre vontade de rever os filmes de Kalatozov! :)

Cumps cinéfilos.

Sam disse...

O Narrador, nunca me cansarei de promover os filmes deste cineasta :)

Sam disse...

Loot, desejo-te uma óptima descoberta :)

E concordo em absoluto contigo quando dizes que a partilha é o melhor da blogosfera, e espero que esse espírito nunca acabe nem abrande!

Obrigado eu pelas tuas palavras.
Abraço!