sexta-feira, novembro 02, 2012

SR. NINGUÉM (2009), de Jaco Van Dormael



Nemo Nobody (Jared Leto) leva uma vida normal ao lado da mulher, Elise, e dos três filhos de ambos. Até ao dia em que acorda como um velho em 2092. Aos 120 anos, o Sr. Nobody é o homem mais velho do mundo e o último espécime mortal de uma humanidade em que já ninguém morre. No entanto, nada disso parece preocupá-lo. O que lhe importa, realmente, é saber se viveu da forma mais correcta, se amou a mulher que era suposto amar e se teve os filhos que era suposto ter. O seu único objectivo de vida, naquele momento, é descobrir a resposta para estas questões. — filmSPOT.pt



Comovente mas longe do exageradamente sentimental, virtuoso mas sem cariz de visualmente sufocante, complexo mas nunca pretensioso nem confuso, SR. NINGUÉM é uma refrescante abordagem ao eterno tema (no cinema, na literatura, na música...) da importância das escolhas em determinados momentos da nossa vida.

Pelas interpretações — destaque obrigatório para Jared Leto, definitivamente um dos melhores actores da sua geração com "défice" de reconhecimento na Sétima Arte — e, sobretudo, através da sua assombrosa estética não-linear, simbólica e ultra dimensional, SR. NINGUÉM demarca-se de outros títulos através de fulgurantes decisões de montagem (os planos alternativos da narrativa, por mais distantes que estejam espacial e geograficamente, apresentam uma fluída mas arriscada firmeza) e por uma resoluta atenção aos pormenores que, por si só, poderiam contar este argumento inteligente.

Nesse âmbito, a narrativa de SR. NINGUÉM, repleta de intricadas referências especulativas (como, por exemplo, o uso da Teoria do Caos ou do Efeito Borboleta na determinação dos vários rumos assumidos pelo protagonista) e de múltiplos registos (drama familiar, ficção-científica, cinema surreal), é coadjuvada por uma direcção de fotografia soberba, expansiva e experimental — tal e qual como a memória, factor determinante para a mensagem final do filme.







Óptima adição, na forma e no conteúdo, a títulos como VANILLA SKY (2001, Cameron Crowe), O DESPERTAR DA MENTE (2004, Michel Gondry) e, se quisermos ser muito ambiciosos nas comparações, LA JETÉE (1962, Chris Marker) ou 2001: ODISSEIA NO ESPAÇO (1968, Stanley Kubrick), Jaco Van Dormael compõe uma obra total e imersiva, exigente mas acessível nos seus propósitos — não tenham dúvidas, qualquer público-alvo apreenderá as morais aqui trabalhadas — e, apesar da sensação de que o filme não sofreria com a resolução mais célere de uma ou outra sequência, totalmente satisfatória.

Foi preciso esperar três anos para que estreasse no nosso país. Agora que cá está, vale a pena ir conhecer SR. NINGUÉM.

2 comentários:

Inês Moreira Santos disse...

Excelente filme e excelente texto, como sempre.
Este Sr. Ninguém é fascinante tanto argumentativa como visualmente.

Cumprimentos cinéfilos :*

Sam disse...

Obrigado pelas palavras, Inês.

E sim: tal como disseste, SR. NINGUÉM é mesmo uma agradável e positiva surpresa :)

Cumps cinéfilos :*