quinta-feira, dezembro 06, 2012

AMOR (2012), de Michael Haneke



Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva) são um casal de octagenários, pessoas cultas, professores de música reformados. A filha de ambos, igualmente artista, vive no estrangeiro com a família. Um dia, Anne tem um acidente que a deixa debilitada e o amor que une este casal sofre uma rude prova. — filmspot.pt



O vencedor mais recente da Palma de Ouro em Cannes é, para nosso gáudio, tudo aquilo que se poderia esperar do "cânone" Michael Haneke: a devastação sentimental e incondicional, o nunca gratuito melodrama do sofrimento humano, a desvirtuação do lugar da família no Cinema. Com AMOR, o ditado "na saúde e na doença" assume uma daquelas raras instâncias em que a abordagem emocional é profunda, humanamente intensa e genuína, e a dor não pertence só aos protagonistas.

Nesse âmbito, AMOR apresenta-nos duas das performances mais poderosas do ano. O "renascido" Jean-Louis Trintignant — repentino e enigmático retrato, quase extremo, de dedicação matrimonial — e a majestosa Emmanuelle Riva (se existisse justiça nesse campo, todos os prémios de interpretação feminina pertencer-lhe-iam), que domina todo o filme, mesmo quando a sua presença resume-se à enfermidade acamada e silenciosa .





Será quase redundante afirmar o quão desconfortável, elementar e cínico o filme pode ser, por vezes incomportável, nunca irónico mas pleno de amor do princípio ao fim — porque é uma certeza, o amor, o verdadeiro, dependente e irrestrito amor está espelhado ao longo dos seus 127 minutos de duração. O amor que complementa e reconforta, que faz verter a lágrima nos bons e maus momentos, onde a felicidade é partilhada e a distância, temporária ou permanente, quase ensandecedora.

Mas há que não (nunca!) esquecer o facto de estarmos face a um filme de Michael Haneke e, em parte, à particular e "gélida" mensagem que só o realizador conseguiria formular. Ou seja, a de que o amor pode conferir significado à morte, mas não a torna menos insuportável.

Depois de ver AMOR, nada ficará igual na nossa "alma" cinéfila, poderá mesmo ficar irremediavelmente arrasada. Pelo Cinema que mexe com o âmago das nossas convicções, é um dos melhores filmes do ano.

2 comentários:

Arm Paulo Fer disse...

Não tenho palavras para descrever tão acertada, concisa e excelente critica ao devastador "Amour". Nunca diria nada melhor do que o que aqui está exemplarmente escrito.
Well done, Samuel!

Sam disse...

Arm Paulo Fer, e este foi um daqueles textos saídos mesmo das "entranhas".

Passado este tempo, e sempre que me lembro do filme, ainda me sinto devastado.

Obrigado pelas tuas palavras!

Cumps cinéfilos.