quarta-feira, fevereiro 06, 2013

O MENTOR (2012), de Paul Thomas Anderson



Nos anos 50, um intelectual carismático (Philip Seymour Hoffman) lança uma nova organização religiosa — A Causa. Conhecido como "O Mestre", transforma um jovem vagabundo (Joaquin Phoenix) no seu braço direito. Mas à medida que a igreja começa a ganhar seguidores e peso nos EUA, o jovem começa a questionar a crença que abraçou e a duvidar do seu mentor. — filmspot.pt



Pelo assombro da sua imagética, qualquer análise a O MENTOR deve transcender a mera crítica fenomenológica e sublinhar, no argumento e estética aqui aplicados por Paul Thomas Anderson, a profunda metáfora histórica dos Estados Unidos da América, a subversiva versão da Alegoria da Caverna que patenteia e, num plano não necessariamente secundário, o tomar de pulso à indústria cinematográfica contemporânea.

Ao longo desta história em torno da educação e "esclarecimento" do "animal humano" encarnado (de forma brilhante, diga-se de passagem) por Joaquin Phoenix, sobressai como Anderson descreve uma América pré e pós-Segunda Guerra Mundial em pormenores, os quais são ditados não apenas pelo design de produção de época nem pela recriação de um determinado momento histórico (ou seja, A Causa, supostamente inspirada na fundação da Cientologia), mas pelas subtilezas físicas e psicológicas conferidas às personagens. Nesse processo, toda a ideologia subjacente à década retratada, da mais pacífica à mais imaterial, acaba por ser reflectida na expressiva e tecnicamente surpreendente direcção de fotografia de Mihai Malaimare, Jr. ou na aparente desordem musical da banda sonora de Jonny Greenwood (a quem lhes foi, de modo absurdo, negada as nomeações ao Oscars das suas categorias).







Da América social e oculta, que, por exemplo, o desempenho de Philip Seymour Hoffman simboliza com destreza e fulgor, passamos ao elogio de um cinema norte-americano que há muito cessou de existir. Tal como é feito ao protagonista, Anderson abre-nos a visão aos ambientes do stress pós-traumático de LET THERE BE LIGHT (1946, John Huston), aos grandiosos desertos filmados em 70mm de LAWRENCE DA ARÁBIA (1962, David Lean), à privativa demonstração de poder em O MUNDO A SEUS PÉS (1941, Orson Welles) e aos ambíguos heróis dos filmes pessimistas dos anos 50.

Esta acepção releva para a imediata e obrigatória compreensão de O MENTOR como a obra fílmica norte-americana esteticamente mais fulgurante e desafiadora dos últimos anos: as ideias são sugeridas em vez de frontalmente apresentadas, cuja descodificação é um exercício no qual o espectador engrena rapidamente; e o fascínio das imagens — impossível não destacar a profundidade e dimensão alcançadas, inclusive nas sequências de interiores — causa prazer sensorial, um autêntico convite à interpretação dos temas (identidade social, realização pessoal, libertinagem versus repressão sexual, conservadorismo político, fama controversa e pujança económica) encerrados no argumento.

Narrativamente, O MENTOR até poderá apresentar-se deficitário. Todavia, tal acontece sobretudo por o poder da imagem "agigantar-se" (e não só pelo mencionado recurso ao formato do 70mm) ao da palavra. Porque se, para muitos, Paul Thomas Anderson é o cineasta contemporâneo que melhor herda o legado de Stanley Kubrick em Hollywood, então O MENTOR demonstra ser enfático para a confirmação desse estatuto.

Um filme de culto instantâneo e de qualidade inegável.

4 comentários:

O Narrador Subjectivo disse...

TENHO de ver isto. Gostei das referências (Kubrick e Huston já se notava no anterior).

Inês Moreira Santos disse...

Excelente crítica a um grande filme. Fazes o tão merecido destaque que a componente visual merece. Belíssimo!

Cumprimentos cinéfilos :*

Rafael Santos disse...

Grande crítica de facto. Quanto ao filme propriamente dito, desiludiu-me bastante. Reconheço-lhe muitas qualidades, mas não me consegui maravilhar com o argumento. Devo ter criado demasiadas expectativas depois do colossal There Will Be Blood.

Cumprimentos,
Rafael Santos
Memento Mori

César Paulo Salema disse...

Definitivamente, não é um filme fácil.
Mas é o melhor filme do ano.
Adulto, comprometido, acre, profundo, insuportavelmente perdido...
«O Mentor» é o sonho vivo e materializado do eterno estudante de Cinema, e uma adição meritória ao cânone formidável de Anderson sobre as falhas da natureza Humana.
Phoenix, insuperável (mesmo por Day Lewis).
Hoffman, o dito vulcão.
Adams, admirável.
A cena em que ele parte numa motorizada rumo ao infinito para nuna mais voltar é antológica.
A tempo de curar as feridas do passado e as promessas do futuro, num presente exangue, volúvel e inconsistente.
Num mundo em que alguém tem sempre um dono, em que alguém comanda sempre alguém...
MAGNÍFICO!