segunda-feira, março 25, 2013

O Cinema dos Anos 2000: R Xmas — Nosso Natal, de Abel Ferrara




Por estes lados, o pai ou a mãe Natal chama-se Drea de Matteo. É ela que tem em mãos a missão de entregar "a prenda" não ao menino bem comportado, mas... Ei ei! Pára tudo! Vamos lá ver, não há e não pode haver meninos bem comportados aqui... Estamos num filme de Ferrara! E que história é essa de Matteo ser o pai ou a mãe Natal? E que eufemismo foleiro é esse da "prenda"? Não, Ferrara chamou ao filme R XMAS — NOSSO NATAL, como se grafitasse no título a inscrição urbana, corrompida e vandalizada dessa noite que — e não estou a ser paranóico — toca a todos, até aos meninos maus, até "entre" meninos maus.

O espírito aqui é pouco natalício e o que a destemida mulher de um traficante de droga tem de fazer, para continuar a ter marido, é entregar um cabaz — e eu a dar nos eufemismos... — de dólares ao "anjo negro", o raptor interpretado por Ice-T. O vilão, ou melhor, este vilão mostra a sua face cristã — ou não estaríamos num filme de Ferrara — quando exige mais uma coisa, para além do "green": a redenção do traficante, isto é, a garantia de que este não voltará a traficar "white" (como é mesmo? Ah, isso: "I’m dreaming of a white Christmas...").

Eis a versão chunga de A Christmas Carol, com um vilão a tentar passar mais um Natal tranquilo, muito bem financiado pela desgraça alheia, e outro vilão que procura tornar significativa (boa?) a sua (má?) acção. A moral deste último será: se vamos estragar o Natal a fulano, então que o façamos da maneira mais cristã possível. Merry motherfuckin’ Xmas to you all!

por Luís Mendonça, (CINEdrio e À Pala de Walsh, organizador do ciclo de cinema Década dos Zeros).

Elenco
. Drea de Matteo (A Esposa), Lillo Brancato, Jr. (O Marido), Lisa Valens (Lisa, a Filha), Ice-T (O Raptor, Victor Argo (Louie), Denia Brache (Esposa de Louie), Gloria Irizarry (A Tia)


Sobre Abel Ferrara

Numa carreira com mais de quarenta anos, recheada de protagonistas anti-heróis e (quase) sempre na raia da ilegalidade jurídica e comportamental, Abel Ferrara espalhou crime, perturbação social e inquietação pessoal em títulos como VINGANÇA DE UMA MULHER (1981), O REI DE NOVA IORQUE (1990), POLÍCIA SEM LEI (1992) e HISTÓRIAS DE CABARET (2007).



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