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sábado, abril 20, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Dolls, de Takeshi Kitano




Perante o fracasso de BROTHER, a sua primeira incursão na realização cinematográfica nos Estados Unidos da América, Takeshi Kitano regressou ao seu Japão natal para desenvolver um filme que de certa forma marca uma ruptura em relação às suas obras cinematográficas mais mediáticas: DOLLS. Até então mais conhecido pelos seus filmes com temáticas maioritariamente ligadas à yakuza, recheadas de violência física e muita pancadaria, Kitano transporta essa violência para o plano dos sentimentos e dos afectos, numa obra com um delicioso trabalho de fotografia de Katsumi Yanagishima e um magnífico trabalho de guarda-roupa de Yohji Yamamoto.

Com uma melancólica banda sonora de um dos seus habituais colaboradores, Joe Hisahi, DOLLS apresenta-nos uma história recheada de símbolos e mensagens escondidas, onde o amor, a morte, a solidão e o pessimismo parecem estar sempre presentes. Dividido em três partes reunidas por um espectáculo de kabuki, DOLLS apresenta-nos a três histórias separadas que tanto têm em comum. Na primeira, temos a história de Matsumoto, um indivíduo que rejeita casar com Sawako para contrair matrimónio com a filha do seu chefe. Perante a notícia da tentativa de suicídio de Sawako e o seu estado de demência, Matsumoto decide largar tudo para uma solitária jornada onde procura resgatar um amor impossível de recuperar. No segundo segmento, o protagonista é Nukui, um indivíduo que decide ficar cego, após a estrela pop que admira ter ficado desfigurada. Na terceira parte temos uma figura querida para Kitano, um yakuza que procura recuperar uma paixão da sua juventude.

Recheado de silêncios arrasadores, amores perdidos e personagens quebrados pelo destino e pelos seus actos, DOLLS sobressai pela sua capacidade de nos tocar profundamente ao confrontar com temáticas nem sempre agradáveis e incrivelmente duras. Se POLÍCIA VIOLENTO (1989), SONATINA (1993), FOGO DE ARTIFÍCIO (1997), e mais tarde OUTRAGE (2010) sobressaem, em parte, pela violência física, DOLLS marca-nos pela sua violência no plano emocional, pela profunda melancolia, tristeza e até pessimismo que nos transmite. Com um conjunto de belos cenários, apresentados em diferentes estações do ano de forma a explorar algumas variações cromáticas e os sentimentos que as mesmas podem expor, DOLLS contrasta essa beleza imagética com a crueza da sua narrativa, onde o destino controla estes personagens como se fossem meras marionetas de bunraku.

Não deixa de ser curioso que DOLLS seja uma das obras mais violentas de Takeshi Kitano. Não estamos a falar da violência física, mas sim da emocional. Não faltam paixões destruídas, amores por viver, vidas arruinadas, enquanto o espectador é confrontado pela capacidade única detida pelo ser humano de se poder auto-destruir, mas tudo filmado de forma belíssima, quase cândida, deleitando a nossa vista ao mesmo tempo que arrasa com a nossa alma. Visualmente potente, esteticamente relevante, emocionalmente devastador, DOLLS é uma das obras mais ambiciosas, belas e tocantes de Takeshi Kitano, que marcou a sua filmografia e o cinema dos anos 2000.

por Aníbal Santiago (Rick's Cinema).

Elenco
. Miho Kanno (Sawako), Hidetoshi Nishijima (Matsumoto), Tsutomu Takeshige (Nukui), Kyôko Fukada (Haruna Yamaguchi), Tatsuya Mihashi (Hiro), Chieko Matsubara (Ryoko)


Sobre Takeshi Kitano

Para o Cinema Japonês, é considerado um dos principais "sucessores", em termos de êxito e fama internacional, de Akira Kurosawa. Contudo, o seu estilo próprio de filmar, o gosto por histórias dedicadas à yakuza (máfia japonesa) e a predominância de uma filosofia de vida inerte das suas personagens, granjeou-lhe reconhecimento. Da sua carreira, destacam-se POLÍCIA VIOLENTO (1989), SONATINA (1993), FOGO DE ARTIFÍCIO (1997) e ZATOICHI (2003). Sob o pseudónimo Beat Takeshi, possui uma longa filmografia como actor, tendo participado em filmes como FELIZ NATAL, MR. LAWRENCE (1983, Nagisa Oshima) e BATTLE ROYALE (2000, Kinji Fukasaku).



terça-feira, setembro 04, 2012

Festival de Veneza 2012 — Dias 6 e 7



Sexto e chuvoso dia de Festival...



... mas, em Veneza, o Cinema é sempre o melhor abrigo.

. OUTRAGE BEYOND, de Takeshi Kitano (Selecção Oficial)

Takeshi Kitano, a distribuir autógrafos, só é antipático nos seus filmes

«The Japanese action aesthete plays it cool and smooth in a picture that exerts a steadily tightening grip, though not until after a first hour of near-impenetrable gangster gab that may leave the uninitiated feeling stranded. »
Justin Chang, in Variety.

«A tough slog at first, Takeshi Kitano's latest yakuza crime spree should come with an explanatory manual, but the cumulative payoff of nasty humor, intrigue and visceral kill thrills is considerable.»
David Rooney, in The Hollywood Reporter.



. APRÈS MAI, de Olivier Assayas (Selecção Oficial)

Assayas, ao centro, com o elenco do seu novo filme

«Olivier Assayas has made a distinctive and nuanced film about the much-chronicled post-1968 years of radical European politics, as well as providing droll insight into his self-discovery as an artist.»
David Rooney, in The Hollywood Reporter.

«The press notes for the film talk of the present generation living in an 'eternal present', with no sense of history or purpose. This could well be the case, but on the evidence of his latest effort, it would appear that Assayas' nostalgia is misplaced - and, more importantly, cinematically uninteresting.»
John Bleasdale, in Cine-Vue.



. DISCONNECT, de Henry Alex Rubin (Fora de Competição)

O compositor Max Richter, Henry Alex Rubin e Lily Cole na sessão de gala

«Sleekly assembled and propelled by some strong performances, Henry-Alex Rubin's drama about the toll of technology on human connection says little that hasn't been said many times before.»
David Rooney, in The Hollywood Reporter.

Sétimo dia de Festival com importante presença portuguesa.

. PIETA, de Kim Ki-Duk (Selecção Oficial)

O realizador Kim Ki-duk com os actores Lee Jung-jin e Jo Min-soo

«As is often the case with Kim’s work, it’s far from an easy watch: repetitive, bruising and grim, set in a scuzzy part of the world, full of even scuzzier people. The filmmaking is unshowy and relatively matter-of-fact, yet the content is almost anything but.»
Oliver Lyttelton, in indieWIRE.

«Though the appreciable ending will be what festival juries remember when the prizes are being handed out — and female lead Cho Min-soo is bound to be a contender at Venice — it’s not an exaggeration to say there’s not a single pleasant moment in the film’s first half, and most Western audiences are going to find this very tough going.»
Deborah Young, in The Hollywood Reporter.



. LINHAS DE WELLINGTON, de Valeria Sarmiento (Selecção Oficial)

Valeria Sarmiento com o elenco feminino de LINHAS DE WELLINGTON

«Sarmiento sometimes risks spinning the film into a memorial special; an overstuffed revue show, pulling in too many directions. For all that, she delivers the tale with a gusto that would have made Ruiz proud.»
Xan Brooks, in The Guardian.

«Somewhat turgid, and hardly exceptional. But it’s also handsome, generally well acted when the performers stick to their first language, and a detailed and smart look at a point in history that’s likely little-known outside of Portugal.»
Oliver Lyttelton, in indieWIRE.



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[Fotos: AFP, Reuters e Getty Images.]
[Vídeos: Canal do YouTube do Festival.]

domingo, agosto 26, 2012

Festival de Veneza 2012 — Antevisão



Veneza prepara-se para acolher, a partir do próximo dia 29 e até 8 de Setembro, a 69ª edição de um dos principais festivais de cinema mundiais.

2012 assinala o primeiro ano de Alberto Barbera enquanto director artístico do Festival, e a mudança já se fez sentir — uma selecção oficial mais reduzida em comparação com as edições anteriores mas enorme em qualidade dos nomes reunidos e consequente expectativa gerada.

O júri internacional, presidido este ano pelo realizador Michael Mann, irá avaliar cerca de vinte obras para decidir qual será o galardoado com o Leão de Ouro para Melhor Filme, de uma selecção que o Keyzer Soze apresenta, de seguida, os seus destaques:

  • Em Competição

  • . THE MASTER, de Paul Thomas Anderson



    Um veterano da Marinha (Joaquin Phoenix) regressa a casa depois da Guerra perturbado e incerto relativamente ao seu futuro — até ao momento em que é aliciado para A Causa e pelo seu carismático líder (Philip Seymour Hoffman).

    . APRÈS MAI, de Olivier Assayas



    Paris, início dos anos 70. Gilles (Clement Metayer) é um estudante secundário completamente embrenhado na efervescência política e criativa do seu tempo, oscilando, tal como os seus colegas, entre o compromisso radical e as aspirações pessoais. Das primeiras experiências sexuais até às revelações artísticas durante uma viagem que termina em Londres, Gilles e os seus amigos terão de fazer escolhas cruciais de forma a encontrarem o seu rumo.

    . BELLA ADDORMENTATA, de Marco Bellocchio



    A história dos últimos seis dias de Eluana Englaro (cujo falecimento nunca ficou totalmente esclarecido) e a sua interacção com uma série de personagens fictícias de diferentes credos e ideologias.

    . PASSION, de Brian De Palma



    Christine (Rachel McAdams) retira prazer do controlo que exerce sobre a jovem e ingénua Isabelle (Noomi Rapace), conduzindo-a cada vez mais longe num jogo de manipulação e sedução, domínio e humilhação. Mas quando Isabelle dorme com um dos amantes de Christine, a guerra instala-se. Na noite do homicídio, Isabelle foi assistir a um bailado, enquanto Christine recebe um convite sedutor. De quem? Ela adora surpresas e dirige-se nua para o quarto onde o amante misterioso a aguarda...

    . PIETA, de Kim Ki-duk



    Contratado por prestamistas, um homem (Jo Min-soo) vive da tarefa, ameaçadora e brutal, de cobrar dívidas a várias pessoas. Sem família nem nada a perder, leva a cabo o seu trabalho independentemente da dor que causa a uma série de famílias. Até ao dia em que uma mulher (Lee Jung-jin) afirma ser a sua mãe. Rejeitando-a friamente à primeira, o homem aceita-a, gradualmente, na sua vida.

    . OUTRAGE BEYOND, de Takeshi Kitano



    A família criminosa Sanno subiu ao estatuto de enorme organização, expandindo o seu poder junto das esferas políticas e das grandes empresas legítimas. Os altos quadros da família Sanno são agora ocupados por jovem executivos, relegando os membros mais velhos para um patamar secundário. Essa fragilidade na hierarquia dos Sanno é exactamente o que detective Kataoka procurava, num momento em que a polícia se prepara para levar a cabo uma rusga a larga escala.

    . SPRING BREAKERS, de Harmony Korine



    Durante uma operação stop, quatro universitárias são detidas pela polícia por posse de estupefacientes. Durante a sua audição em tribunal, a fiança das raparigas é inesperadamente paga por Alien (James Franco), um infame bandido local de coração doce, que lhes proporcionará uma louca viagem de férias.

    . TO THE WONDER, de Terrence Malick



    Após visitarem o Mont Saint-Michel — em tempos denominado pelos franceses como "A Maravilha" (the Wonder) — no auge da sua paixão, Marina (Olga Kurylenko) e Neil (Ben Affleck) mudam-se para o Oklahoma, onde os problemas não tardam em surgir. Marina faz amizade com um padre (Javier Bardem) a atravessar uma crise de fé, e Neil renova os laços com uma amiga de infância, Jane (Rachel McAdams).

    . SINAPUPUNAN, de Brillante Mendoza



    Após sofrer o seu terceiro aborto espontâneo, Shaleha agoniza por não conseguir conceber uma criança. Sentindo que o seu marido Bangas An deseja ser pai, ela decide arranjar-lhe uma companheira mais nova. Dia e noite, Shaleha e o marido procuram nas comunidades vizinhas por uma mulher fértil para Bangas An.

    . LINHAS DE WELLINGTON, de Valeria Sarmiento



    Depois das tentativas comandadas por Junot (1807) e Soult (1809), Napoleão Bonaparte envia um novo e poderoso exército, comandando pelo Marechal Massena, para invadir Portugal em 1810. Os franceses alcançam, facilmente, o centro do país, mas o exército Anglo-Português, liderado pelo General Wellington (John Malkovich), aguarda-os...

    . PARADIES: GLAUBE, de Ulrich Seidl



    Para Annamaria, uma técnica de raios-x, o paraíso reside em dedicar as férias a trabalho missionário. Na sua peregrinação diária em Viena, ela vai de porta em porta transportando uma estátua da Virgem Maria. Um dia, depois de vários anos sem dar notícias, o seu marido, um muçulmano egípcio confinado a uma cadeira de rodas, regressa a casa. Os cânticos e as orações de Annamaria confundem-se com quezílias.

  • Fora de Competição

  • . ENZO AVITABILE MUSIC LIFE, de Jonathan Demme



    Filme sobre Enzo Avitabile, a sua música e Nápoles, que surge da estima recíproca entre dois artistas — Jonatham Demme é, há muito, fã do trabalho de Enzo, conhecido no mundo musical como um apaixonado pela pesquisa e experimentação artística.

    . LULLABY TO MY FATHER, de Amos Gitai



    Amos Gitai narra a história do seu pai, Munio Weinraub, estudante na escola de design e arquitectura Bauhaus, na cidade de Dessau, até ao seu encerramento por Hitler em 1933. Em Maio do mesmo ano, Weinraub é acusado de "traição contra o povo alemão", aprisionado e expulso da Alemanha.

    . BAD 25, de Spike Lee



    Documentário comemorativo do 25º aniversário do álbum 'Bad' de Michael Jackson.

    . THE RELUCTANT FUNDAMENTALIST, de Mira Nair



    Demonstrações estudantis grassam por Lahore, enquanto o jovem professor paquistanês Changez Khan (Riz Ahmed) revela ao jornalista Bobby Lincoln (Liev Schreiber) o seu passado como brilhante analista financeiro em Wall Street, o futuro promissor que tinha à sua frente e de como o iria partilhar com a sofisticada Erica (Kate Hudson). Mas o 11 de Setembro alterou todos os seus planos.

    . O GEBO E A SOMBRA, de Manoel de Oliveira



    Apesar da idade e do cansaço, Gebo (Michael Lonsdale) persegue a sua actividade de contabilista para sustentar a família. Vive com a mulher, Doroteia (Claudia Cardinale), e a nora, Sofia (Leonor Silveira), mas é a ausência do filho, João (Ricardo Trêpa), que os preocupa. Gebo parece esconder algo em relação a isso, em particular a Doroteia, que vive na espera ansiosa de rever o seu filho. Sofia, do seu lado, espera também o regresso do marido, ao mesmo tempo que o teme. Subitamente, João aparece e tudo muda.

    . THE COMPANY YOU KEEP, de Robert Redford



    Jim Grant (Robert Redford) é um advogado dos direitos civis e pai solteiro que educa a filha nos tranquilos subúrbios de Albany. A sua vida muda completamente quando um jovem jornalista, Ben Shepard (Shia LaBeouf), expõe a verdadeira identidade de Grant: um fugitivo radical e anti-guerra que, nos anos 70, foi procurado por homicídio.

    O programa completo, incluindo as secções secundárias, pode ser consultado no site oficial do Festival.

    [Fotos: Cine.gr, CINeol, Movieplayer e Screenweek.]

    domingo, maio 15, 2011

    Críticas da Semana

    Breve resumo dos principais filmes visualizados esta semana.

    ELEGIA (2008), de Isabel Coixet



    David Kepesh (Ben Kingsley), carismático professor universitário, prefere manter o seu relacionamento com mulheres apenas a um nível carnal, nunca afectivo. Porém, quando Consuela Castillo (Penélope Cruz) entra na sua sala de aula, tudo muda: ela será muito mais do que mero objecto de prazer.

    Drama passional sobre envelhecimento, obsessão e de semi-louvor às vantagens do sexo sem compromisso, é dominado pela voz-off monocórdica e postura austera de Ben Kingsley, virtualmente presente em todas as cenas. Da narrativa, embora disposta de modo elegante, pouco se acolhe de original ou relevante — facto desanimador para uma história adaptada de um romance de Philip Roth.

    MONSTERS — ZONA INTERDITA (2010), de Gareth Edwards



    Seis anos depois de uma sonda da NASA, transportando provas de vida alienígena, se ter despenhado sobre o México e "infectado" uma extensa região na América Central, um jornalista norte-americano (Andrew Kaulder) aceita acompanhar a filha (Samantha Wynden) do seu patrão na viagem de regresso aos EUA. As circunstâncias força-os a uma travessia pela zona onde se decretou quarentena à presença de qualquer ser humano.

    Semi-apocalíptico, a invocar títulos como NOME DE CÓDIGO: CLOVERFIELD (2008, Matt Reeves) ou DISTRITO 9 (2009, Neill Blomkamp), foge da ficção-científica a que Hollywood nos tem habituado, sendo essa a sua principal qualidade. O drama é superior à raramente vislumbrada ameaça, existe mais romance do que terror e ensaia uma tímida denúncia social. Contudo, queda-se na divagação entre esses elementos e a incerteza, em cinema, é mais fatal do que a "morte do protagonista"...

    GLORY TO THE FILMMAKER! (2007), de Takeshi Kitano



    Takeshi Kitano interpreta uma versão de si próprio, personificando o conflito de um realizador de cinema que experimenta uma série de géneros diferentes até encontrar aquele que permita criar a sua próxima obra-prima.

    Comédia nostálgica e surreal, prova que Kitano obtém êxito artístico mesmo quando escapa às histórias sobre a yakuza (parodiando, inclusive, esse género que tanta aclamação lhe granjeou). Sem pejo nem desconforto na abordagem aos mais variados registos num único filme (tanto homenageia os dramas sobre família e intimidade de Yasujiro Ozu como o delírio visual dos irmãos Wachowski), elabora uma reflexão pessoal e mordaz sobre o estado contemporâneo da Sétima Arte não só no Japão, como internacionalmente.

    ESSENTIAL KILLING (2010), de Jerzy Skolimowski



    Um muçulmano (Vincent Gallo), talvez soldado talibã, é detido pelo exército norte-americano no Afeganistão e transferido para uma base secreta algures na Europa de Leste. Na sequência de um acidente de viação, converte-se em fugitivo e procura sobreviver no ambiente extremo das florestas geladas de um país nunca referido.

    Retrato cru de sobrevivência e desespero humanos, alcança a incrível "proeza" de deixar sentimentos divididos no espectador como há muito não tenho memória. A sua interessante premissa está recheada de sequências desnecessárias; possui uma notável fotografia que, por vezes, revela-se aparato a mais; Vincent Gallo (Melhor Actor na última edição do Festival de Veneza) está irrepreensível mas constitui surpresa ver Emmanuelle Seigner num papel tão insípido. No final, a opinião de que ESSENTIAL KILLING vence mas não convence é quase frustrante.

    segunda-feira, março 28, 2011

    Críticas da Semana

    Breve resumo dos filmes visualizados esta semana.

    IN A BETTER WORLD (2010), de Susanne Bier



    Anton é um médico sueco dividido entre a residência que fixou na Dinamarca e o seu trabalho num campo de refugiados no Sudão. Contudo, são os problemas em casa que mais dominam a sua consciência: o casamento encontra-se num impasse e o filho mais velho, Elias, é vítima de bullying na escola. Entretanto, o jovem Christian, ainda em luto pela morte da mãe, cria amizade com Elias, a qual fomentará nos dois sentimentos de vingança com potenciais consequências trágicas.

    Quando uma criança desequilibrada demonstra tendências para "brincar" com pólvora, a tragédia é iminente e previsível. E este último adjectivo é o ideal para descrever o vencedor menos consensual de um Óscar para Filme Estrangeiro dos últimos anos. Um enorme lugar-comum do princípio ao fim, que nem na sua bonita direcção de fotografia encontra remissão.

    OUTRAGE (2010), de Takeshi Kitano



    No auge do "processo de modernização" da máfia japonesa, Ototomo (o próprio Kitano) é figura principal numa família criminosa e apercebe-se de que uma aliança pouco desejada, inclusive perigosa para a sua vida, está a ser forjada entre a família Murase e o Presidente da yakuza. A sua retaliação desencadeará numa "orgia" de homicídios, invasões de território e ajustes de contas que as corruptas forças da lei nem se atrevem a deter.

    O regresso de Takeshi Kitano às histórias de poder e crime da yakuza não traz novidades, excepto na infusão de um constante sentido de humor negro que é quase indistinguível de sadismo pueril. A anos-luz do fabuloso SONATINA (1993), mas uma prova de que, actualmente, ninguém encena melhor vigorosos murros ou climáticos banhos de sangue como Kitano.

    CONFESSIONS (2010), de Tetsuya Nakashima



    Uma professora de liceu anuncia à turma não só a sua demissão, como também os responsáveis pela morte da filha: dois estudantes daquela mesma turma. A partir desta acusação, somos testemunhas dos pensamentos mais íntimos de quem esteve envolvido naquele acontecimento. Entretanto, a professora delineia uma arguta vingança...

    Melodrama juvenil com elementos de thriller psicológico, as atenções vão, obrigatoriamente, para o seu realizador, Tetsuya Nakashima. Exibe um primoroso mas abusivo virtuosismo em cada cena (com o slow-motion em destaque), as suas homenagens vão de Yasujiro Ozu a Sofia Coppola e constrói um argumento fragmentado que nunca perde a sua coesão. Em suma, um mistério cinematográfico... de obrigatória visualização.

    INCENDIES (2010), de Denis Villeneuve



    O testamento da mãe dos gémeos Jeanne e Simon Marwan obriga-os a uma viagem até ao coração do Médio Oriente numa busca pelas suas raízes. Aos poucos, vão desenterrando o turbulento passado da mãe, repleto de sofrimento, guerra e resistência.

    Uma história de surpreendente redescoberta pessoal, funcionando totalmente como conto moralista sobre os horrores e coincidências da guerra, seja ela nos intermináveis conflitos do Médio Oriente ou noutra localidade do planeta. Contudo, a sua austera concepção formal suscita no espectador uma impassividade tal que nem o interessante twist final consegue esbater. É pena: INCENDIES poderia ter sido um dos grandes filmes da presenta década.

    I SAW THE DEVIL (2010), de Kim Jee-woon



    Kyung-chul, um obstinado serial killer que mata por prazer, escolhe como vítima a filha de um inspector policial reformado. O noivo dela, um agente secreto, decide perseguir e castigar o assassino, numa vingança que se revelará inumana e sanguinária.

    Vencedor da secção Orient Express na mais recente edição do Fantasporto, prova que se a vingança serve-se fria, então o gore deverá surgir em doses generosas e da forma mais criativa possível. Outra coisa não seria de esperar de Kim Jee-woon (A TALE OF TWO SISTERS), sem receio de enfrentar os aspectos incongruentes do argumento com um conjunto de sequências impecavelmente filmadas. E o inspirado Choi Min-sik, cada vez mais à vontade na pele de "desajustados sociais" (lembram-se dele em OLDBOY — VELHO AMIGO?), confirma-se como um dos melhores actores asiáticos da actualidade.

    terça-feira, maio 18, 2010

    Festival de Cannes 2010 — Dia 6



    Foi um fantástico dia para os apreciadores do denominado Cinema de Autor. Três filmes concebidos por três eclécticos e díspares cineastas marcaram presença na Croisette.

    Na "corrida" pela Palma de Ouro, foi exibido BIUTIFUL, de Alejandro Gonzalez Iñárritu, centrado na figura de Uxbal (Javier Bardem), dividido entre o futuro dos seus filhos e a sobrevivência no gueto em que está inserido:



    Construindo, pela primeira vez na sua carreira, uma história linear, mas sem deixar de analisar os efeitos da globalização junto dos que vivem no limiar da miséria, BIUTIFUL não foi, contudo, recebido unanimemente pela crítica especializada, dividida entre os que o consideram como «um eminente candidato à Palma de Ouro» ou, do outro lado da "barricada", descrito como «um filme de fugir» no sentido literal da expressão. Opiniões à parte, Iñarritu enunciou, durante a conferência de imprensa, a mensagem que o motivou nesta obra: «Embora as trevas pareçam estar em todo o lado, BIUTIFUL oferece imensas perspectivas de esperança. Atrevo-me a dizer que este é o meu filme mais optimista». Argumentos ao critério do júri presidido por Tim Burton...

    Javier Bardem e Alejandro Gonzalez Iñarritu

    Maricel Alvarez observa Iñarritu durante a conferência de imprensa

    Também em Competição, foi exibida a nova obra de Takeshi Kitano dedicada à Yakuza, OUTRAGE:



    Dez anos depois de BROTHER, o regresso de Kitano ao crime organizado nipónico caracteriza-se pela predominância da violência verbal e psicológica, relegando os tiroteios e derramamento de sangue para segundo plano. «Se repetisse os mesmos métodos, seria monótono. Quis demonstrar algo evoluído. Por isso, incluí mais sequências de diálogos».

    Takeshi Kitano a almejar uma futura carreira como fotógrafo?

    Jean-Luc Godard, um dos "pais" da Nouvelle Vague, está de regresso e apresentou, na secção «Un Certain Regard», a sua mais recente "experiência cinematográfica", FILM SOCIALISME:



    O filme — 100 minutos de imagética caleidoscópica acompanhada por textos em estilo SMS — esteve presente, mas o cineasta não. Godard cancelou a sua agendada conferência de imprensa por "problemas de foro Grego": a verdadeira "essência" desta justificação ainda está por explicar. Quanto a FILM SOCIALISME, foi recebido com calorosos aplausos da crítica, embora tenha encontrado maior frieza por parte do público.

    quinta-feira, abril 15, 2010

    Festival de Cannes 2010



    Foram apresentados hoje de manhã, em conferência de imprensa, os títulos que marcarão a 63ª edição do Festival de Cannes.

    O Keyzer Soze's Place partilha a sua selecção (numa programação ainda incompleta) dos filmes mais sonantes. Primeira nota: num ano em que, muito provavelmente, apenas um filme norte-americano concorrerá à Palma de Ouro, é grande a expectativa quanto à revelação dos vencedores, que decorrerá no dia 23 de Maio. Até lá, temos a certeza de que qualidade não estará ausente do certame.

  • Em Competição


  • . HORS LA LOI, de Rachid Bouchareb



    Sequela "não-oficial" de INDIGÈNES (2006), também assinado por Bouchareb, é uma retrospectiva sobre a luta pela independência da Argélia durante os anos 40 e 50, vista pelos olhos de três irmãos que participam na revolta contra o exército do colonizador francês. Destaque para o protagonismo de Jamel Debbouze (O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE e ANGEL-A).

    . BIUTIFUL, de Alejandro González Iñarritu



    Um homem (Javier Bardem), envolvido no transporte ilegal de emigrantes, é perseguido pelo seu melhor amigo de infância, que agora é agente da polícia. Co-produzido por Guillermo del Toro e Alfonso Cuaron, e ostentando uma equipa técnica de luxo (Rodrigo Prieto na direcção de fotografia, Stephen Mirrione na montagem e banda sonora composta pelo oscarizado Gustavo Santaolalla), assinala o regresso de Iñarritu a um filme totalmente falado em espanhol desde a sua estreia em AMOR CÃO (2000).

    . COPIE CONFORME, de Abbas Kiarostami



    Durante uma viagem a Itália para promover o seu último romance, um escritor inglês de meia-idade trava conhecimento com uma negociante de arte francesa, a qual propõe-lhe um estranho divertimento: fingir que é o marido dela. Um jogo onde realidade e fantasia misturam-se de forma perigosa. O novo filme do cineasta iraniano mais aclamado da actualidade, protagonizado por Juliette Binoche (a "cara" do 63º Festival de Cannes).

    . AUTOREIJI / OUTRAGE, de Takeshi Kitano



    Tóquio está em chamas devido a uma luta mortal entre gangs Yakuza rivais, na qual se distingue Otomo, um operacional a quem é pedido que faça a maior parte do trabalho sujo nesta guerra urbana. O regresso do "multitasked" Takeshi Kitano às narrativas centradas na máfia japonesa desde o aclamado BROTHER (2000).

    . ANOTHER YEAR, de Mike Leigh



    Não obstante a pouca informação existente sobre este projecto, é garantido que se assistirá ao estilo de improvisação e realismo social que bem caracteriza a filmografia de Leigh, tal como ficou provado em NU (1993), SEGREDOS E MENTIRAS (1996, Palma de Ouro no Festival daquele ano) e VERA DRAKE (2004).

    . FAIR GAME, de Doug Liman



    A única presença norte-americana entre os filmes elegíveis à Palma de Ouro, debruça-se sobre a ex-agente da CIA Valerie Plame, cuja actividade no seio dos Serviços de Inteligência norte-americanos foi publicamente revelada em consequência de um crítico artigo no New York Times, sobre as opções políticas de George W. Bush no Iraque, publicado pelo seu próprio marido. O elenco é liderado por Naomi Watts e Sean Penn, naquele que será o título de teor mais mainstream em "concurso".

    . UTOMLYONNYE SOLNTSEM 2, de Nikita Mikhalkov



    Dezasseis anos após o sucesso de O SOL ENGANADOR, Mikhalkov reencarna a personagem Sergei Kotov, desta vez a liderar o seu exército na frente russa durante a Segunda Guerra Mundial. De assinalar o radical afastamento do drama íntimo patenteado no primeiro filme, visto trata-se de um épico bélico avaliado em 55 milhões de dólares — o mais caro de sempre na história do cinema russo.

    . LA PRINCESSE DE MONTPENSIER, de Bertrand Tavernier



    Depois da "aventura" americana que IN THE ELECTRIC MIST representou, Tavernier regressa ao seu país natal para filmar o conto publicado em 1662 por Madame de La Fayette, sobre o romance entre o Duque de Guise e a Mademoiselle Mézières, forçada a um casamento de conveniência com o Príncipe de Montpensier. Destaque para o elenco, onde figuram Mélanie Thierry, Gaspard Ulliel e Lambert Wilson.

    . UNCLE BOONMEE WHO CAN RECALL HIS PAST LIVES, de Apichatpong Weerasethakul



    Nas suas últimas horas de vida, Boonmee recebe a visita dos fantasmas de parentes há muito desaparecidos, que o obrigam a revisitar os episódios mais marcantes da sua juventude. Uma original abordagem às temáticas da efemeridade humana, o cineasta tailandês mais conceituado internacionalmente regressa a Cannes, após ter arrecadado o Grande Prémio do Júri, em 2004, com TROPICAL MALADY.

  • Un Certain Regard


  • . O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA, de Manoel de Oliveira



    Situado nos anos 50, narra a história de um fotógrafo hospedado num pequeno hotel e que é subitamente acordado durante a noite pelos proprietários, para que vá tirar uma foto à filha acabada de falecer. Aos 101 anos, Manoel de Oliveira estreia novo filme em Cannes, que há muito se rendeu ao mais decano dos cineastas internacionais.

    . FILM SOCIALISME, de Jean-Luc Godard



    Um cruzeiro atravessa o Mediterrâneo. A bordo, seguem um criminoso de guerra com a sua neta, um francês, um oficial russo, a embaixadora da Palestina, Alain Badiou e Patti Smith. A interacção entre estes "personagens" originará uma série de diálogos em diferentes idiomas e sobre diferentes temas. Assinado por vários cineastas, sob a supervisão de Godard, é um dos projectos cinematográficos mais aguardados de 2010.

    . CHATROOM, de Hideo Nakata



    Quando quatro adolescentes conhecem William numa sala de chat, são imediatamente atraídos pelo seu "cibernético carisma". Mas William não é o que aparenta: manipulador e calculista, enceta um aterrorizante jogo de perseguição que, em breve, sairá do mundo virtual para se converter numa ameaça bem real. Nakata, um dos "fundadores" do J-Horror, investe novamente no terror a partir de tecnologia quotidiana.

    . AURORA, de Cristi Puiu



    Um dos principais nomes da "nova vaga" de cineastas romenos regressa a Cannes depois de A MORTE DO SR. LAZARESCU (2005) ter arrecadado o prémio da Secção Un Certain Regard. O próprio Puiu protagoniza este drama sobre um homem com dois filhos, divorciado e que se demite do emprego para embarcar na mais radical mudança de vida.

  • Fora de Competição


  • . ROBIN HOOD, de Ridley Scott



    Nova incursão cinematográfica dedicada ao lendário herói das florestas de Nottingham, protagonizado por Russell Crowe e Cate Blanchett, tem honras de abertura do 63º Festival de Cannes.

    . YOU WILL MEET A TALL DARK STRANGER, de Woody Allen



    Romance, sexo, traição e também algumas gargalhadas. As vidas de um grupo de pessoas cujas paixões, ambições e ansiedades forçam-nas a enfrentar todo o género de problemas, que vão do burlesco ao ameaçador. A sinopse não engana: estamos perante puro Woody Allen...

    . TAMARA DREWE, de Stephen Frears



    Drewe é uma jovem e sexy jornalista que retorna à sua terra natal para impedir a venda da casa onde nasceu. Entre os locais, a sua chegada incitará novas e velhas paixões duvidosas. Adaptado da excêntrica banda desenhada de Posy Simmonds, a expectativa em torno deste filme tem sido enorme, sobretudo por ser realizado pelo veterano Frears (LIGAÇÕES PERIGOSAS, A RAINHA) e protagonizado por Gemma Arterton, a nova sex-symbol britânica.

    . WALL STREET — MONEY NEVER SLEEPS, de Oliver Stone



    Enquanto a economia mundial está à beira do abismo, um jovem corretor de Wall Street (Shia LaBeouf) une-se com o "ressuscitado" Gordon Gekko (Michael Douglas) para uma dupla missão: descobrir quem assassinou o mentor do jovem executivo e possibilitar que Gekko reconquiste a confiança da sua filha (Carey Mulligan). Oliver Stone volta a explorar os meandros do insider trading, numa obra que não poderia ser mais actual.

    N.B.: A lista detalhada dos filmes a exibir em Cannes pode ser consultada aqui.

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