domingo, abril 07, 2013

O Cinema dos Anos 2000: O Homem Sem Passado, de Aki Kaurismäki




O HOMEM SEM PASSADO foi a definitiva afirmação do humor anárquico e surreal, centrado em personagens misteriosas, taciturnas e socialmente desfavorecidas, do realizador finlandês Aki Kaurismäki. Embora assumisse, há muito, presença fundamental no panorama europeu cinematográfico, Kaurismäki constrói aqui um dos mais eficazes retratos (nomeado, aliás, para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, tendo perdido para o menos interessante ALGURES EM ÁFRICA, de Caroline Link) da complexidade social dos anos 2000, contrapondo uma curiosa exposição, tanto visual como temática, do conceito de comunidade à incompetência política e insensibilidade humana dos nossos tempos.

Não surpreendentemente, como se para uma renovação da sociedade contemporânea fosse necessária a supressão da memória de acontecimentos passados, M, o protagonista de O HOMEM SEM PASSADO, começa o filme praticamente amnésico, vítima de um brutal espancamento por três assaltantes. Ensanguentado e perdido numa cidade que lhe é desconhecida — chega, inclusive, a ser declarado morto no hospital —, encontra ajuda não entre os membros mais qualificados e abastados daquela comunidade, mas sim nos inteiramente desprovidos. Em específico, um grupo de pessoas a residir em contentores num cais portuário, de quem se torna amigo. Ali, refaz a sua vida, revela os prazeres do rock n' roll aos habitantes daquela desolada localidade e até encontra o amor junto de uma trabalhadora do Exército da Salvação. Os pormenores da sua identidade anterior ressurgem subitamente.

A sua nostálgica paleta de cores, a prestar tributo ao Technicolor dos anos 50, confere-lhe o aspecto de um afável feel good movie. Contudo, e ao mesmo tempo, a mensagem e o ritmo aqui explanados por O HOMEM SEM PASSADO permitem a Kaurismäki dissecar a indiferença e crueldade humana no seio de uma sociedade "oficiosa", caracteristicamente fria e burocrata. Do médico que lhe passa a certidão de óbito, passando pelos polícias que o ameaçam com três meses de cadeia por não ter documentos até aos funcionários do centro de emprego, M é quase desprovido da sua humanidade por um mundo mais atento a números e a impressos.

E, na sua ausência de identidade, a amnésia do protagonista revela-se interessante mecanismo narrativo. A impossibilidade de revelar ao mundo o seu nome ou a sua origem transforma-se no argumento mais forte para Kaurismäki comprovar que apenas saberemos quem somos (a nossa identidade, individualidade e sentimento de pertença no mundo) quando encontrarmos o nosso lugar no seio de uma comunidade de pessoas.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Markku Peltola (M), Kati Outinen (Irma), Juhani Niemelä (Nieminen), Kaija Pakarinen (Kaisa Nieminen), Sakari Kuosmanen (Anttila)


Palmarés
. Festival de Cannes: Grande Prémio do Júri (Aki Kaurismäki), Melhor Actriz (Kati Outinen), Prémio do Juri Ecuménico
. Prémios da Academia Europeia: Prémio do Público (Aki Kaurismäki)
. Festival de San Sebastián: Prémio FIPRESCI (Aki Kaurismäki)


Sobre Aki Kaurismäki

Autor de excêntricas paródias e fábulas humanas, preenchidas por uma visão singular de cultura popular sem género predominante (road movie, film noir, comédia negra, musicais...), Kaurismäki distinguiu-se em filmes como ARIEL (1988), LENINGRAD COWBOYS GO AMERICA (1989), A RAPARIGA DA FÁBRICA DE FÓSFOROS (1990) e LE HAVRE (2011).



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