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domingo, abril 07, 2013

O Cinema dos Anos 2000: O Homem Sem Passado, de Aki Kaurismäki




O HOMEM SEM PASSADO foi a definitiva afirmação do humor anárquico e surreal, centrado em personagens misteriosas, taciturnas e socialmente desfavorecidas, do realizador finlandês Aki Kaurismäki. Embora assumisse, há muito, presença fundamental no panorama europeu cinematográfico, Kaurismäki constrói aqui um dos mais eficazes retratos (nomeado, aliás, para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, tendo perdido para o menos interessante ALGURES EM ÁFRICA, de Caroline Link) da complexidade social dos anos 2000, contrapondo uma curiosa exposição, tanto visual como temática, do conceito de comunidade à incompetência política e insensibilidade humana dos nossos tempos.

Não surpreendentemente, como se para uma renovação da sociedade contemporânea fosse necessária a supressão da memória de acontecimentos passados, M, o protagonista de O HOMEM SEM PASSADO, começa o filme praticamente amnésico, vítima de um brutal espancamento por três assaltantes. Ensanguentado e perdido numa cidade que lhe é desconhecida — chega, inclusive, a ser declarado morto no hospital —, encontra ajuda não entre os membros mais qualificados e abastados daquela comunidade, mas sim nos inteiramente desprovidos. Em específico, um grupo de pessoas a residir em contentores num cais portuário, de quem se torna amigo. Ali, refaz a sua vida, revela os prazeres do rock n' roll aos habitantes daquela desolada localidade e até encontra o amor junto de uma trabalhadora do Exército da Salvação. Os pormenores da sua identidade anterior ressurgem subitamente.

A sua nostálgica paleta de cores, a prestar tributo ao Technicolor dos anos 50, confere-lhe o aspecto de um afável feel good movie. Contudo, e ao mesmo tempo, a mensagem e o ritmo aqui explanados por O HOMEM SEM PASSADO permitem a Kaurismäki dissecar a indiferença e crueldade humana no seio de uma sociedade "oficiosa", caracteristicamente fria e burocrata. Do médico que lhe passa a certidão de óbito, passando pelos polícias que o ameaçam com três meses de cadeia por não ter documentos até aos funcionários do centro de emprego, M é quase desprovido da sua humanidade por um mundo mais atento a números e a impressos.

E, na sua ausência de identidade, a amnésia do protagonista revela-se interessante mecanismo narrativo. A impossibilidade de revelar ao mundo o seu nome ou a sua origem transforma-se no argumento mais forte para Kaurismäki comprovar que apenas saberemos quem somos (a nossa identidade, individualidade e sentimento de pertença no mundo) quando encontrarmos o nosso lugar no seio de uma comunidade de pessoas.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Markku Peltola (M), Kati Outinen (Irma), Juhani Niemelä (Nieminen), Kaija Pakarinen (Kaisa Nieminen), Sakari Kuosmanen (Anttila)


Palmarés
. Festival de Cannes: Grande Prémio do Júri (Aki Kaurismäki), Melhor Actriz (Kati Outinen), Prémio do Juri Ecuménico
. Prémios da Academia Europeia: Prémio do Público (Aki Kaurismäki)
. Festival de San Sebastián: Prémio FIPRESCI (Aki Kaurismäki)


Sobre Aki Kaurismäki

Autor de excêntricas paródias e fábulas humanas, preenchidas por uma visão singular de cultura popular sem género predominante (road movie, film noir, comédia negra, musicais...), Kaurismäki distinguiu-se em filmes como ARIEL (1988), LENINGRAD COWBOYS GO AMERICA (1989), A RAPARIGA DA FÁBRICA DE FÓSFOROS (1990) e LE HAVRE (2011).



domingo, março 25, 2012

Críticas da Semana

Breve resumo dos principais filmes visualizados esta semana:

. LE HAVRE
. HAYWIRE
. THIS MUST BE THE PLACE
. O SONHO DE CASSANDRA

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. LE HAVRE (2011), de Aki Kaurismäki



Marcel Marx (André Wilms), antigo escritor e boémio famoso, exilou-se voluntariamente na cidade portuária do Havre, onde abandonou a sua ambição literária e leva uma vida satisfatória dentro do triângulo constituído pelo bar do canto, o seu trabalho de engraxador de sapatos e a sua mulher Arletty (Kati Outinen), quando o destino põe, bruscamente no seu caminho, uma criança (Blondin Miguel) imigrada oriunda da África negra.



Para quem aprecia a visão inexpressiva mas empática do mundo de Kaurismäki, os sentimentos em relação a este seu último filme possuirão a mesma quota de satisfação e desapontamento. Se por um lado encontramos os diálogos acolhedores e personagens delicadas habituais no cineasta finlandês, por outro percebemos, desde muito cedo, que o mesmo também já se revelou mais ousado (THE MATCH FACTORY GIRL, 1990) e mais entendedor da condição humana (O HOMEM SEM PASSADO, 2002).

Explorando cabalmente os exteriores da cidade portuária onde a acção decorre, com uma sentimentalidade de fábula humana e irresistível, LE HAVRE revela-se uma obra simpática mas inconsequente na (se é que tal intenção existia) análise sobre dilemas de imigração ilegal ou sentimentos gerais da classe média da Europa Moderna. Em suma, puro Kaurismäki sem argumentos para surpreender mas impossível de desiludir.

. HAYWIRE (2011), de Steven Soderbergh



Uma agente secreta (Gina Carano) procura, a todo o custo, vingar-se dos responsáveis pela traição de que foi vítima durante uma missão.



Será difícil que os anos vindouros registem HAYWIRE como título obrigatório para a compreensão da filmografia de Steven Soderbergh. Contudo, na sua simplicidade — alguns dirão "simplista" — narrativa e exigência formal tornada simples, é possível observar uma abordagem autoral rara no cinema de acção. Será esse o único mas muito categórico legado de um filme que aposta na impressionante presença física da sua protagonista, na elaboração de sequências onde o dinamismo provém do que se move diante da objectiva (e não do frenesim arquitectado numa sala de montagem) e num adequado respeito catedrático (não existem aqui ritmos nem raccords fora do sítio...) pelas regras da mise-en-scène para esbater as distâncias entre o comercial e o iconoclasta que Soderbergh tem perfilhado em duas décadas de actividade.

As personagens acabam por sofrer de um argumento parcamente desenvolvido, impossibilitando a simpatia ou antipatia por qualquer uma delas e Gina Carano, com um pouco mais de profundidade psicológica, poderia converter-se numa figura feminina emblemática do género. Contudo, HAYWIRE já é o melhor actioner dos últimos tempos, e só por uma sequência de luta entre Carano e Michael Fassbender, que alia violência e erotismo de forma "criminalmente" eficaz, vale a pena o preço de admissão...

. THIS MUST BE THE PLACE (2011), de Paolo Sorrentino



Uma estrela rock aposentada (Sean Penn) inicia uma viagem nos EUA em busca de um oficial e ex-criminoso de guerra nazi, que aprisionou e torturou o seu pai num campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.



Através de toda a maquilhagem carregada e maneirismos extremos do seu protagonista (uma mistura de Robert Smith com Ozzy Osbourne) e para lá do virtuosismo da câmara do realizador, não custa encontrar um profundo estudo de personalidade, que transcende fantasmas pessoais e almeja reflectir estados de alma colectivos. É este o grande mérito de THIS MUST BE THE PLACE, obra que aparenta caminhar, num futuro próximo e a passos largos, para o "limbo da subvalorização" mas dominada por uma mensagem de transformação individual genuína e naturalmente emocional — característica cinematográfica tão rara nos dias que correm...

Apesar dos aspectos políticos e históricos do seu argumento, o filme "mergulha" num inspirado universo de referências pop — até David Byrne, autor da maioria dos temas que compõem a banda sonora, tem direito a um memorável cameo —, traçando um contraste entre o passado e presente de paradigmas musicais, tendências artísticas e percepção popular dos mesmos que poderia muito bem ser interpretado como uma pertinente e original análise dos nossos tempos. Destaque final para as interpretações de Sean Penn, Judd Hirsch e, sobretudo, Eve Hewson (nem mais nem menos do que a filha de Bono Vox), jovem actriz de auspicioso porvir.

. O SONHO DE CASSANDRA (2007), de Woody Allen



Ian (Ewan McGregor) e Terry (Colin Farrell) enfrentam graves problemas financeiros. Quando um tio afastado (Tom Wilkinson) dos dois pede-lhes um favor, em troca da resolução daquelas dificuldades, as suas vidas ficarão enredadas numa sinistra situação com intensos e infelizes resultados.



História amarga, de lento desenvolvimento e com um sentido muito Allenesco de crime, culpa e castigo (poderia muito bem pertencer a uma trilogia onde também figurassem CRIMES E ESCAPADELAS e MATCH POINT), retoma as habituais obsessões, e já autênticas marcas de autor, do cineasta nova-iorquino pelas temáticas de fidelidade, honra e peso psicológico em seio familiar.

É notório, desde os seus primeiros minutos, que não estamos perante o produto de um bom momento de forma criativa de Woody Allen. A "reciclagem" narrativa e de propósitos aqui concebida apenas confirmam a sensação de que este filme já foi por ele realizado antes, mas com melhores interpretações (McGregor e Farrell raramente conseguem ultrapassar uma performance tolhida, Wilkinson destaca-se mas surge poucas vezes), circunstâncias mais verossímeis e diálogos realmente acutilantes. De visualização agradável mas nunca obrigatória. Nem mesmo para os fãs mais acérrimos do "cânone" Woody Allen.

segunda-feira, março 19, 2012

Agenda Cinematográfica

:: 9500 CINECLUBE DE PONTA DELGADA ::

LE HAVRE (2011), de Aki Kaurismäki



Cansado da sua pouca sorte como escritor, Marcel Marx deixa a sua vida para trás e parte com a mulher Arletty para Le Havre, uma pequena cidade portuária da Normandia, França. Ali, num recomeço incomum, ele torna-se engraxador de sapatos, algo que faz alegremente e sem perder o optimismo nem a dignidade que lhe é característica. É então que conhece Idrissa, uma criança africana refugiada, que planeia chegar a Londres onde encontrará a família. Sem saber o que fazer àquela criança, decide levá-la consigo para casa e tornar-se seu protector. Porém, mesmo contra o cinismo da sociedade, dos problemas que acabam por surgir com a polícia e da doença que ameaça a vida de Arletty, ele não desiste da sua luta por um mundo melhor.

Realizado pelo finlandês Aki Kaurismäki e estreado na última edição do festival de Cannes, onde foi aplaudido pelo público e pela crítica, "Le Havre" ganhou o Fipresci — Prémio da Crítica Internacional e o Prémio Louis Delluc, um dos mais prestigiantes galardões franceses.



Hoje, pelas 21h30, no Cine Solmar.

domingo, maio 22, 2011

Festival de Cannes 2011 — Os Prémios



Robert De Niro e restantes membros do Júri do 64º Festival de Cannes anunciaram, há poucas horas e durante a Cerimónia de Encerramento, os galardoados nas diversas categorias em Competição.



Confirmando a notoriedade que lhe foi granjeada antes e durante o Festival, a atribuição da Palma de Ouro a THE TREE OF LIFE permite que o nome de Terrence Malick fique indelevelmente marcado à edição deste ano.

O palmarés da edição de 2011 ficou assim estabelecido:

  • EM COMPETIÇÃO — LONGA-METRAGEM


Palma de Ouro
THE TREE OF LIFE (EUA), de Terrence Malick.

Bill Pohlad e Dede Gardner, ao lado de Jane Fonda, aceitaram a Palma de Ouro em nome do ausente Terrence Malick.

Grande Prémio do Júri
ONCE UPON A TIME IN ANATOLIA (Bósnia-Herzegovina / Turquia), de Nuri Bilge Ceylan.



ex-aequo

LE GAMIN AU VÉLO (Bélgica / França / Itália), de Jean-Pierre e Luc Dardenne.



Prémio de Realização
Nicolas Winding Refn, por DRIVE (EUA).

Nicolas Winding Refn e o seu prémio

Prémio do Júri
POLISSE (França), de Maïwenn.

A realizadora Maïwenn agradece o Prémio do Júri

Prémio de Interpretação Masculina
Jean Dujardin, por THE ARTIST (França), de Michel Hazanavicius.

Dujardin posa junto de Catherine Deneuve

Prémio de Interpretação Feminina
Kirsten Dunst, por MELANCHOLIA, (Alemanha / Dinamarca / França / Suécia) de Lars von Trier.

Kirsten Dunst, pouco depois de ser galardoada Melhor Actriz

Prémio de Argumento
Joseph Cedar, por HEARAT SHULAYIM (Israel).

Palma de Ouro - Curta Metragem
CROSS-COUNTRY, (França / Ucrânia), de Maryna Vroda.



Caméra d'Or
LAS ACACIAS (Argentina / Espanha), de Pablo Giorgelli.



Prémio FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema)
LE HAVRE (Alemanha / Finlândia / França), de Aki Kaurismäki.

Prémio Ecuménico do Júri
THIS MUST BE THE PLACE (França / Irlanda / Itália), de Paolo Sorrentino.

  • UN CERTAIN REGARD


Prémio Un Certain Regard
ARIRANG (Coreia do Sul), de Kim Ki-duk.

ex-aequo

HALT AUF FREIER STRECKE (Alemanha), de Andreas Dresen.



Prémio do Júri
ELENA (Rússia), de Andrey Zvyagintsev.

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A lista completa dos laureados pode ser consultada aqui.

[Crédito de imagens: Site Oficial do Festival e Associated Press.]

quarta-feira, maio 18, 2011

Festival de Cannes 2011 — Dia 7



Sétimo dia de Festival marcado pela presença de Aki Kaurismäki, onde apresentou a concurso LE HAVRE, comédia surreal sobre imigração ilegal e com um escritor que inicia carreira como engraxador de sapatos no centro da narrativa.

Kaurismäki, alheio às leis anti-tabaco em recintos fechados

Uma espécie de «conto de fadas influenciado pelo cinema clássico», captura com «extrema humanidade, calor e humor» a imagem do imigrante foragido na Europa, um tema recorrente em muitos cineastas do "Velho Continente". No cômputo geral, LE HAVRE constitui forte aposta para a Palma de Ouro do Festival deste ano — galardão nunca arrecadado por Kaurismäki...

Alain Cavalier, outro 'habituée' de Cannes, realiza e protagoniza PATER, uma farsa sobre dois foliões (o segundo a cargo de Vincent Lindon) que vivem e representam uma espécie de reportagem a dois motivada por gostos gastronómicos.

Alain Cavalier e Vincent Lindon, ao centro

Projecto curioso, tanto na sinopse como na sua concretização, «cativa pela sua capacidade de deixar o espectador rejubilante e atónito», levando-nos a «pensar e repensar o que vemos e ouvimos».

O resumo do dia fica marcado pela exibição de um dos títulos mais sonantes fora de competição: THE BEAVER, de Jodie Foster. Assinalando o regresso de Mel Gibson, após as muitas polémicas que envolveram o seu nome nos últimos tempos, narra o dilema de um executivo a sofrer de depressão e que encontra cura numa marioneta em forma de castor.

Jodie Foster durante a conferência de imprensa de THE BEAVER

Mel Gibson e Jodie Foster saúdam o público

Apesar de não concorrer a qualquer prémio, já detém a honra de ser o filme mais ovacionado, até ao momento, do Festival: nada mais, nada menos, do que dez minutos de efusivos aplausos. E, de acordo com Jodie Foster, é a presença de Mel Gibson que converte THE BEAVER em algo de especial: «Se fosse outro actor, teria enveredado por uma direcção diferente. Para Mel, era importantíssimo fazer este filme, e sei que ele está muito orgulhoso dele».

Orgulhoso ou não, Mel Gibson esteve igual a si próprio e brindou-nos com uma das imagens mais memoráveis (ou a esquecer rapidamente?) desta edição do Festival:



[Crédito de imagens: EPA, Site Oficial do Festival, AFP e E!Online]

terça-feira, maio 10, 2011

Festival de Cannes 2011 — Antevisão



Começa amanhã, e prolongando-se até 22 do corrente mês, a 64ª edição do Festival de Cannes. Palco de cerimónias cuidadosamente planeadas e ferozes disputas artísticas, o certame iniciar-se-à com a ligeireza cómico-romântica de Woody Allen mas rapidamente assumirá faceta "sombria": desde a clandestina presença e à última da hora de Jafar Panahi (realizador iraniano detido pelo regime de Ahmadinejad), passando pelo auspício de momentos desconfortáveis "oferecidos" por Almodóvar, von Trier e Dumont, até aos potenciais arrepios que as primeiras obras de Julia Leigh e Sean Durkin poderão causar, apenas uma certeza existe: vão ser os onze dias de cinema mais electrizantes do ano.

Não se adivinha tarefa fácil para o júri, este ano presidido por Robert De Niro, atribuir a Palma de Ouro. O muito aguardado regresso de Terrence Malick, a habitual "pressão" dos irmãos Dardenne ou a presença de Bilge Ceylan e Kaurismäki na Selecção Oficial prometem incerteza até ao derradeiro minuto.

Como já é tradição, o Keyzer Soze's Place acompanhará o Festival com o relato dos melhores momentos de cada dia. Por agora, segue o destaque dos principais títulos a serem exibidos na Croisette:

  • Em Competição

  • . LA PIEL QUE HABITO, de Pedro Almodóvar



    Baseado num romance de Thierry Jonquet, narra a vingança de um cirurgião plástico (Antonio Banderas) que, após a morte da esposa num acidente de viação, procura conceber uma espécie de pele humana que proteja uma pessoa de qualquer agressão.

    . HEARAT SHULAYIM, de Joseph Cedar



    A história de uma insana rivalidade entre pai e filho, ambos excêntricos professores numa Universidade Hebraica de Jerusalém. O filho é um sedento oportunista, apenas interessado nos louvores atribuídos por aquela instituição; o pai é um obstinado purista mas, secretamente, anseia pelo reconhecimento público do seu trabalho. O concurso para o prémio mais prestigiante de Israel levará os dois a um amargo confronto final.

    . ONCE UPON A TIME IN ANATOLIA, de Nuri Bilge Ceylan



    A vida numa pequena cidade é semelhante à experiência de caminhar no meio das estepes: o sentimento de que "algo novo e diferente" irá aparecer por trás de cada monte numa paisagem que se demonstra sempre igual e a estrada persistentemente monótona...

    . LE GAMIN AU VÉLO, de Jean-Pierre e Luc Dardenne



    Cyril (Thomas Doret), prestes a completar doze anos, tem apenas um plano: encontrar o pai que o abandonou num infantário. Conhece, por acaso, Samantha (Cécile de France), a gerente de um salão de cabeleireiros que o deixa ficar com ela nos fins-de-semana. Cyril é incapaz de reconhecer a empatia que Samantha sente por ele; contudo, só esse amor poderá acalmar a ira que cresce dentro do rapaz.

    . LE HAVRE, de Aki Kaurismäki



    Comédia dramática sobre um desiludido escritor (André Wilms) que decide iniciar uma respeitável, mas pouco lucrativa, carreira de engraxador de sapatos. Com o sonho de triunfar na literatura finalmente enterrado e feliz por viver junto de amigos e da esposa Arletty, o destino obriga-o a ajudar um jovem refugiado africano (Blondin Miguel).

    . SLEEPING BEAUTY, de Julia Leigh



    Conto de fadas erótico sobre Lucy (Emily Browning), jovem estudante universitária atraída para um misterioso mundo de beleza e desejo. De forma a conseguir pagar as despesas, aceita um emprego na mansão de Clara (Rachael Blake) como objecto sexual de clientes que só encontram satisfação na literal passividade de Lucy.

    . THE TREE OF LIFE, de Terrence Malick



    Jack (Sean Penn), uma alma perdida no mundo moderno, procura reconciliar-se com a sua juventude, marcada pela relação conflituosa com o pai (Brad Pitt), e entender a mais importante regra da vida que nunca poderá ser alterada: o eterno esquema de que todos fazemos parte.

    . LA SOURCE DES FEMMES, de Radu Mihaileanu



    Numa pequena aldeia entre o Norte de África e o Médio Oriente, o trabalho de subir ao alto da montanha para recolher água de uma fonte sempre esteve reservado às mulheres. Um dia, a jovem Leila (Leïla Bekhti) exorta as restantes mulheres a entrarem numa greve particular: não haverá amor nem sexo até os homens assumirem a tarefa de ir buscar a água para a aldeia.

    . ICHIMEI, de Takashi Miike



    O samurai Hanshiro (Ebizo Ichikawa) solicita licença para cometer hara-kiri no pátio da casa do senhor feudal Kageyu (Koji Yakusho). Este, relutante em aceitar essa defesa de honra, recorda a trágica história de um pedido semelhante feito por um jovem ronin chamado Motome. Mas nas costas do arrogante Kageyu, um laço vingativo formou-se entre Hanshiro e Motome...

    . HABEMUS PAPAM, de Nanni Moretti



    Após a morte do Papa, reúne-se um conclave para decidir o sucessor. O cardeal escolhido (Michel Piccoli) parece incapaz de suportar o peso de tal responsabilidade. Será ansiedade? Depressão? Simples inadaptação? Enquanto os fiéis aguardam na Praça de São Pedro pelo anúncio do novo pontífice, o Vaticano recorre a métodos pouco ortodoxos para solucionar a crise.

    . THIS MUST BE THE PLACE, de Paolo Sorrentino



    A estreia de Paolo Sorrentino (IL DIVO — A VIDA ESPECTACULAR DE GIULIO ANDREOTTI, 2008) ao leme de uma produção norte-americana centra-se em Cheyenne (Sean Penn), um próspero e reformado cantor de rock, que regressa a Nova Iorque após receber notícias da morte do pai. Descobrindo a humilhação que o falecido suportou às mãos de um oficial das SS em Auschwitz, Cheyenne percorre os Estados Unidos para enfrentar Muller, vingar o pai e redescobrir a sua própria identidade.

    . MELANCHOLIA, de Lars von Trier



    Justine e Michael (Kirsten Dunst e Alexander Skaarsgård) celebram o seu casamento com a realização de uma sumptuosa festa na casa da irmã (Charlotte Gainsbourg) da noiva. Entretanto, um planeta desconhecido ameaça destruir a Terra...

    . DRIVE, de Nicolas Winding Refn



    Duplo em Hollywood durante o dia e motorista de criminosos durante à noite, um homem solitário (Ryan Gosling) vê-se perseguido pelo homem mais perigoso de Los Angeles quando um trabalho falha redondamente. Para sobreviver, terá de se exceder naquilo que melhor sabe fazer: conduzir.

  • Un Certain Regard

  • . RESTLESS, de Gus Van Sant



    Annabel (Mia Wasikowska), a padecer de um cancro terminal, e Enoch (Henry Hopper), a recuperar da trágica morte dos pais, conhecem-se por acaso num funeral e rapidamente percebem que possuem diversos e inesperados pontos em comum. Juntos, serão capazes de conceber as suas próprias regras para enfrentar as amarguras da vida.

    . HORS SATAN, de Bruno Dumont



    Na Côte d'Opale, perto de um rio, vive um estranho homem que é ajudado por uma rapariga natural daquela região. Juntos encetarão uma série de súplicas privadas, perto de lagoas onde o diabo passeia...

    . MARTHA MARCY MAY MARLENE, de Sean Durkin



    Assombrada por dolorosas memórias e sofrendo de ansiedade crescente, Martha (Elizabeth Olsen) escapa ao controlo de uma seita abusiva e regressa a casa para viver com a irmã Lucy (Sarah Paulson). Contudo, os constantes pesadelos causados pela coerção psicológica daquele culto impedem uma vida normal e Martha acaba por cair num irremediável estado de pânico permanente.

    . THE DAY HE ARRIVES, de Sang-soo Hong



    Sang-Joon (Yu Jun-Sang), professor de Cinema numa universidade de província, viaja até Seul para se encontrar com o crítico Young-Ho (Kim Sang-Jung). Durante essa estadia de três dias, Sang-Joon trava uma série de encontros com a sua ex-namorada, cuja omnipresença torna-se quase intolerável.

    . ARIRANG, de Ki-duk Kim



    Filme íntimo e pessoal de Kim Ki-duk, no qual aborda o seu "desaparecimento" nos últimos três anos, durante os quais enfrentou diversos problemas de saúde.

    . ET MAINTENANT, ON VA OÙ?, de Nadine Labaki



    Situado num país devastado pela guerra, esta é a história da determinação de um grupo de mulheres em proteger a sua comunidade das forças divisoras que ameaçam ruir aquela união. Mas quando os eventos assumem contornos trágicos, até onde irão estas mulheres para evitar um sangrento tumulto?

    . LOVERBOY, de Catalin Mitulescu



    Luca (George Pistereanu) tem 20 anos, reside numa pequena cidade junto ao Danúbio e seduz mulheres para depois vendê-las a uma rede de tráfico humano que opera no Mar Negro. Quando conhece e apaixona-se por Veli (Ada Condeescu), Luca decide rever o seu estilo de vida.

    . TRABALHAR CANSA, de Marco Dutra e Juliana Rojas



    Helena (Helena Albergaria), jovem dona de casa, decide abrir a sua própria mercearia. Para dedicar-se ao negócio, contrata Paula (Naloana Lima) para tomar conta da filha. Mas quando o seu marido Otávio (Marat Descartes) é subitamente demitido, as relações entre estas três personagens alteram-se e acontecimentos perturbadores ameaçam a rentabilidade do estabelecimento.

  • Fora de Competição

  • . MIDNIGHT IN PARIS, de Woody Allen



    Comédia romântica sobre uma família americana que viaja em negócios para Paris. Aí, um jovem casal (Owen Wilson e Rachel McAdams) é forçado a testar a ilusão de que uma vida diferente é sempre melhor que a actual.

    . THE BEAVER, de Jodie Foster



    Atormentado pelos seus "demónios interiores", Walter Black (Mel Gibson), em tempos um chefe de família e executivo bem sucedido, cai numa profunda depressão. Por mais que se esforce, Walter parece não ser capaz de se reencontrar... até que a marioneta de um castor entra na sua vida.

    . PIRATES OF THE CARIBBEAN: ON STRANGER TIDES, de Rob Marshall



    A enigmática Angelica (Penélope Cruz) obriga o Capitão Jack Sparrow (Johnny Depp) a embarcar numa imprevisível viagem em busca da Fonte de Juventude.

    . IN FILM NIST, de Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb



    Um dia na vida do cineasta Jafar Panahi, antes da celebração do Novo Ano Iraniano.

    . LES BIEN-AIMES, de Christophe Honoré



    Da Paris dos anos 60 até à Londres do Século XXI, Madeleine (Catherine Deneuve) e a sua filha Vera (Chiara Mastroianni) entram e saem da vida dos homens que amam. Mas nem todas as épocas permitem sentir o amor com a mesma ligeireza. Como resistir ao tempo que corrói os nossos sentimentos mais profundos?

    --//--

    O programa completo do Festival, nas suas várias secções, pode ser consultado aqui.

    [Fontes: sinopses traduzidas a partir da informação disponível no site oficial do Festival; imagens retiradas do Mubi.]