segunda-feira, abril 22, 2013

O Cinema dos Anos 2000: A Viagem de Morvern Callar, de Lynne Ramsay




A VIAGEM DE MORVERN CALLAR tem sido descrito como inteligível, mas acho possível que a origem dessa crítica venha de quem decide demasiado cedo se a personagem principal foi atingida pela mágoa ou pela raiva.

Ao acordar no dia de Natal e encontrar o corpo do namorado sem vida na sala, ela fica de tal forma dominada por sentimentos contraditórios, que tudo o que faz me parece tolerável, mesmo quando não é tão aceitável. São conceitos diferentes e o simples facto de não deixar a dúvida sobre a verdadeira razão que levou o homem que amava a cometer suicídio paralisá-la e, ao invés, permitir o seu instinto guiá-la para decisões muito repentinas é lindo. Essa incerteza mexeu comigo a um nível muito primitivo e torna a viagem física e emocional de Morvern fascinante de seguir, quando há muitas perguntas e nenhumas respostas ficamos a tactear no escuro, onde, tal como se torna impossível perceber o que ela sente, tudo se torna difícil de distinguir.

É aí que uma actriz como Samantha Morton marca toda a diferença, pega na sua personagem, que até nem tem muitos traços característicos à partida, que prima por passar despercebida em ambientes sociais, introvertida e pouco faladora, e obriga-nos a prestar atenção a tudo o que faz, a cada gesto ou tique, porque nunca se sabe quando vai denunciar algo. Tal como em Ratcatcher, Lynne Ramsay explora o trauma da morte, num estilo verdadeiramente enigmático. Uma experiência sensorial única.

por David Lourenço (O Narrador Subjectivo).

Elenco
. Samantha Morton (Morvern Callar), Kathleen McDermott (Lanna), Paul Popplewell (Cat in the Hat), Ruby Milton (Couris Jean), Dolly Wells (Susan)


Palmarés
. Festival de Cannes: Prémio da Juventude — Filme Estrangeiro (Lynne Ramsay)
. Festival Internacional de San Sebastián: Prémio FIPRESCI — Realizador do Ano (Lynne Ramsay)


O Cinema Independente Feminino dos anos 2000

Para além de Lynne Ramsay (a qual assinou, em 2011, TEMOS DE FALAR SOBRE KEVIN, impressionante filme independente), os anos 2000 assistiram ao surgimento de uma série de realizadoras capazes de aclamação crítica em produções distantes dos padrões de Hollywood. Entre os principais nomes dessa tendência, figuram Catherine Hardwicke (TREZE — INOCÊNCIA PERDIDA, 2003), Sofia Coppola (LOST IN TRANSLATION — O AMOR É UM LUGAR ESTRANHO, 2003), Patty Jenkins (MONSTRO, 2003), Mary Harron (THE NOTORIOUS BETTIE PAGE, 2005), Tamara Jenkins (OS SAVAGES, 2007), Courtney Hunt (FROZEN RIVER, 2008) e Debra Granik (DESPOJOS DE INVERNO, 2010).



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