terça-feira, abril 23, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Embriagado de Amor, de Paul Thomas Anderson




Depois de elevar a fasquia com os notáveis BOOGIE NIGHTS — JOGOS DE PRAZER (1997) e MAGNOLIA (1999), e tornar-se numa espécie de wunderkind do cinema norte-americano, Paul Thomas Anderson, num argumento brilhantemente escrito pelo próprio, torna uma das mais criativas histórias de amor da última década numa imaculada fábula contemporânea.

Deliciosamente excêntrico, PUNCH-DRUNK LOVE — EMBRIAGADO DE AMOR é, como qualquer outra obra do cineasta, um cerebral retrato de uma vida em mudança, uma desconstrução de maneirismos e neuroses, sejam eles expressados através do hábil trabalho de câmara ou via diálogos tão imprevisíveis quanto politicamente sarcásticos. Paul Thomas Anderson faz do seu mundo, todo ele um caos controlado no limiar da ebulição, um peculiar cubo de Rubik cujas peças vão ganhando forma e cor a cada novo comportamento. E quando estas dinâmicas são pautadas por uma inquietante composição de Jon Brion e uma narrativa em constante morfose, um ideal de realismo vai-se desvanecendo numa enternecedora nostalgia. O cineasta, também um tremendo escolar, usa, em todo o seu arrojo e latitude, as ferramentas cinemáticas que lhe estão disponíveis para oferecer às suas audiências uma experiência sensorial única. Auxiliando a sua visão, Adam Sandler dá vida, num registo impressionante, a um Barry Egan no limiar da insanidade, tornando-se, a par do incontornável Philip Seymour Hoffman, na força motriz da narrativa.

EMBRIAGADO DE AMOR é talvez a película menos explosiva da filmografia de Paul Thomas Anderson, mas certamente a mais intimista, um filme como poucos fazem, uma história que se preocupa menos com adornos visuais (não tirando mérito a um trabalho imaculado de Robert Elswitt), e mais com a especificidade do humanismo. Numa década infestada pela incessante estrutura formulaica no espectro da dita "comédia-romântica", são filmes como este que redefinem uma era e separam o artesão do emulador.

por Filipe Coutinho (Cinema is my Life).

Elenco
. Adam Sandler (Barry Egan), Emily Watson (Lena Leonard), Philip Seymour Hoffman (Dean Trumbell), Mary Lynn Rajskub (Elizabeth), Luis Guzmán (Lance), Robert Smigel (Walter)


Palmarés
. Festival de Cannes: Melhor Realizador (Paul Thomas Anderson)
. Festival Internacional de Gijón: Melhor Actor (Adam Sandler), Melhor Argumento (Paul Thomas Anderson)


Sobre Paul Thomas Anderson

Destemido, inovador e artisticamente comprometido, PTA consegue, simultaneamente, quebrar as convenções e homenagear o cinema clássico norte-americano em cada filme seu. Considerado como um dos melhores realizadores da sua geração, a sua filmografia já abordou a indústria do cinema pornográfico (BOOGIE NIGHTS — JOGOS DE PRAZER, 1997), o drama mosaico (MAGNOLIA, 1999), a ganância económica (HAVERÁ SANGUE, 2007) e o épico histórico filmado em 70mm (O MENTOR, 2012).



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