quarta-feira, abril 25, 2007

A Dália Negra (2006), de Brian De Palma



James Ellroy, autor do livro que baseou a realização deste A DÁLIA NEGRA, é imediatamente reconhecível pela intrincada narrativa dos seus romances (L.A. CONFIDENCIAL, também com versão filmada), obras cujo ambiente infundido de mistério, crime, perversão e camuflagem servem o desejo do romancista em revelar o lado sombrio da fábrica de sonhos que é Los Angeles. Simultaneamente, os seus livros requerem uma atenção redobrada às personagens e situações - por outras palavras, o desenlace nunca está na última página, mas sempre naquele capítulo que, a princípio, se aparentou mais inconsequente.

O mesmo acontece com a adaptação cinematográfica de A DÁLIA NEGRA, a cargo de Brian De Palma. Impecavelmente fotografado e representado, este é o feliz encontro dos cenários noir de Ellroy com a mestria visual do cineasta. Na verdade, atrevo-me a dizer que não existia material literário mais adequado ao virtuosismo de De Palma desde CARRIE (1976).



A DÁLIA NEGRA é a versão semi-ficcionada do mediático (e não solucionado) homicídio de Betty Short, desconhecida aspirante a actriz, na Los Angeles dos anos 40. Bucky Bleichert (Josh Hartnett) e Lee Blanchard (Aaron Eckhart), dois antigos pugilistas e detectives da polícia de LA, são chamados para investigar o brutal assassínio da "Dália Negra" (Mia Kirshner) — tal como ficou conhecida ao longo dos anos. Para além do denso mistério do caso, o filme apresenta as relações de Blanchard com Kay Lake (Scarlett Johansson) e de Bleichert com Madeleine Linscott (Hillary Swank), dois envolvimentos emocionais com maior relevância para o desfecho do que a início se imaginaria.

O grande motor do filme é, indiscutivelmente, a reprodução fiel dos organismos cinematográficos do cinema noir dos anos 50: o esquema cromático, dominado pelos tons de sépia e o intenso jogo de sombras; a banda sonora invocativa dos solos de saxofone tão característicos do género; a voz-off de um detective-narrador desencantado com o mundo que o rodeia; as personagens, mais do que estereótipos de um certo tipo de películas, são puras consagrações das figuras construídas por Humphrey Bogart, Lauren Bacall, Robert Mitchum, Veronica Lake, entre outros. Não escapamos, sequer, ao inevitável crédito "The End".



Apesar de ter gostado, o filme não está isento de defeitos. A sua principal falha reside, infelizmente, no argumento. O facto de ser baseado num romance de extrema complexidade não perdoa esta constatação, contudo explica o indisfarçável sentimento de incoerência narrativa de que o filme sofre, sobretudo no seu quarto de hora final. Exemplificativo disto mesmo é a elucidação do crime, numa sequência com tanta informação debitada que poderá dificultar a sua "digestão", tornando-a parcialmente insatisfatória e ilógica para o espectador.

Entre os actores, o realce vai, sobretudo, para Aaron Eckhart e Hillary Swank, perfeita no arquétipo da definitiva femme fatale. Josh Hartnett não possui, apesar do visível esforço, presença para incorporar o detective que descobre os podres da pior maneira possível — um papel à medida de actores com currículo no género, como Bogart, Mitchum, Jack Nicholson ou Russell Crowe. Johansson, embora bem inserida no "período cinematográfico" aqui reclamado, não tem hipóteses de soltar-se da mulher motivada por sentimentos demasiadamente recalcados.

A reconstrução do film noir é, volto a frisar, o maior prazer deste A DÁLIA NEGRA. Desde a direcção de fotografia de Vilmos Zsigmond (nomeada para Óscar) até à direcção artística do sempre eficaz Dante Ferretti, somos transportados para a Los Angeles da década de 1940, e embrulhados em toda a sua corrupção e malícia. Sensações amplificadas pelo toque de génio visual de Brian De Palma.

1 comentário:

RJ/KritiCinema disse...

Por acaso é um filme que me escapou, mas li o livro e gostei.

Verei o filme em breve...