quinta-feira, agosto 27, 2009

BRÜNO (2009), de Larry Charles



Adaptando da televisão para o grande ecrã o seu terceiro alter ego Brüno, um auto-denominado "fashionista" austríaco, assumidamente homossexual e inconscientemente narcisista, ingénuo e muito desagradável para o mundo que o rodeia, o humorista Sacha Baron Cohen enfrentou, provavelmente, o maior desafio da sua carreia. Retomando a fórmula que permitiu o sucesso internacional de BORAT: APRENDER CULTURA DA AMÉRICA PARA FAZER BENEFÍCIO GLORIOSO À NAÇÃO DO CAZAQUISTÃO, levantava-se a questão de saber se Baron Cohen conseguiria elaborar um logro tão sofisticado como o do título supracitado e iludir famosos e anónimos com este novo disfarce.

Surpreendentemente, a farsa acontece novamente mas sem o mesmo efeito. Era expectável que a repetição do mesmo modelo apenas surtiria maior impacto junto daqueles que perderam BORAT — o que é uma pena, pois estes cairão na tentação de fazer comparações com BRÜNO e não o contrário — e a aposta num humor de choque (quase) sem limites ocasionará mais estupefacção e repulsa do que legítimas gargalhadas. Mas entre tanta escatologia e brejeirice, Baron Cohen encontra espaço para demonstrar a sua melhor qualidade cómica: a sátira corrosiva das sociedades modernas sem distorção da realidade.



A história (chamemos-lhe assim) é muito simples: Brüno cai em desgraça pública quando o seu programa de TV, Funkyzeit, é cancelado após uma desastrosa cobertura da Semana de Moda de Milão. Determinado em reconquistar o seu lugar na ribalta, Brüno viaja para os EUA onde, entre várias episódicas iniciativas, tenta impingir o seu próprio show televisivo a uma estação de Los Angeles (indignando um focus group nesse processo), adopta uma criança negra com o simples objectivo de "plagiar" Brad Pitt e Angelina Jolie, enfurece plateias afro-americanas de reality shows com "ignorantes" tiradas racistas, alista-se no exército para se tornar heterossexual (compondo a sua farda com écharpe e cinto D&G) e participa numa festa de «swingers» que, para o protagonista, descamba numa experiência de sado-masoquismo real e não consentido. Não me peçam explicações detalhadas, só vendo...

Neste pseudo-argumento, Baron Cohen espreme ao máximo as oportunidades que lhe são concedidas por quem ludibria, sabendo de antemão que esse trabalho é o equivalente de um trapézio sem rede: em todas as ocasiões, só existia uma e única chance de obter material útil. E a tarefa não poupa famosos, permitindo que testemunhemos o desconforto de Paula Abdul perante uma mobília de empregados mexicanos "alugada" por Brüno ou a ira do senador Ron Paul quando se vê objecto de engate. BRÜNO assume-se, em menos de noventa minutos, como o filme de 2009 menos recomendado para audiências conservadoras — até um pénis falante surge a certa altura — e que bem pode mexer com os nossos princípios de forma pujante.



Mas a coragem de Baron Cohen não se resume à extrapolação de estereótipos ou humor de surrealista "mau gosto". O filme alcança, aliás, píncaros de brilhantismo quando somos confrontados com a real natureza de certos seres humanos. Na sequência em que Brüno entrevista os pais de bebés candidatos a modelos fotográficos, questionando-os se não os incomodava que as crianças envergassem uniformes nazis ou fossem submetidas a lipoaspiração, é a visão da genuína concordância dos progenitores perante estas e outras absurdas solicitações que realmente desafia-nos enquanto espectadores. A revolta ou impassividade que possamos sentir face a esta insolente ânsia por dinheiro fácil obriga-nos, também, a demonstrar de que calibre é feito a nossa personalidade.

Embora BRÜNO não seja uma obra de referência ou um filme com a irreverência equilibrada de BORAT, não restam dúvidas de que Baron Cohen é um talento único de comédia e confesso a minha curiosidade em assistir ao que o actor tem reservado para o seu futuro. Com sotaque incluído ou não.

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