segunda-feira, agosto 17, 2009

UP — ALTAMENTE (2009), de Pete Docter e Bob Peterson



Walt Disney afirmou uma vez, numa espécie de legado aos futuros colaboradores do seu estúdio de animação, que "sem personalidade, uma personagem pode fazer ou dizer interessantes conceitos, mas se a audiência não se identificar com essa personagem, as suas acções tornam-se irrelevantes. E sem personalidade, a história nunca encontrará ressonância junto dos espectadores". Décadas depois do seu desaparecimento, a citação acima referida parece, cada vez mais, ter encontrado os intérpretes ideiais nos responsáveis da Pixar, a proeminente colaboradora da casa-mãe Disney.

Elaborar um digno sucessor do fenomenal WALL-E (2008) não se afigurava tarefa fácil mas, para a Pixar, nem o céu é limite (garanto que o recurso a esta figura de estilo é propositada) no que toca à concepção de longas-metragens que superem êxitos totalmente frescos na memória de milhões de espectadores. UP — ALTAMENTE é o mais recente filão criativo da parceria Disney - Pixar, sendo o equivalente, em termos de maturidade narrativa e dimensão psicológica dos personagens, da mestria tecnológica alcançada em WALL-E.



UP — ALTAMENTE traça o percurso de Carl Fredricksen, um septuagenário cuja viuvez e solidão petrificaram as suas emoções. A ameaça da desenfreada especulação imobiliária instalada à porta da casa onde, durante décadas, viveu os melhores anos da sua existência — atente-se ao fabuloso prólogo que serve de explicação biográfica do protagonista, assinalando o maior pico emocional do filme antes deste completar meia hora de metragem — leva Fredricksen a fugir da frieza sentimental que o rodeia e a embarcar (com a preciosa ajuda de uns milhares de balões atados à sua moradia...) na aventura de materializar um incumprido desejo da sua falecida esposa. Uma "cruzada" inesperadamente partilhada com Russell, bonacheirão escuteiro empenhado na conquista da importante medalha de mérito por «ajudar velhinhos», mas que (cedo nos apercebemos desse facto) também enfrenta um período de défice afectivo resultante da constante ausência da sua figura paternal.

Estabelecido este improvável duo de "sidekicks", UP — ALTAMENTE não perde tempo em pôr em prática o ritmo desenfreado e de timing perfeito de sequências que já constitui imagem de marca da Pixar, assim como o rol de secundários inesquecíveis — destaque para Dug, o cão-falante, para o qual não é má ideia desenvolver um spin-off —, paisagens exóticas que atestam a maturidade técnica do estúdio e o inevitável supra vilão, cujas acções, neste contexto, são também motivadas por um desejo vitalício nunca realizado.



Pouco adianta, na minha opinião, relçar o brilhantismo estético que a Pixar consegue sempre almejar através da manipulação de uns quantos gigabytes para criar uma narrativa de animação; WALL-E, volto a frisar, será, por muito tempo, obra de análise imprescindível para todos os que pretendam singrar neste ramo da indústria. O que mais salienta da visualização de UP — ALTAMENTE é a venerada obediência da Pixar face ao dogma expresso por Walt Disney e que é citado na introdução deste texto. Aquele ideal é o pilar do sucesso crítico e financeiro deste filme, o qual, antes da sua distribuição comercial, gozou de honras de abertura do último Festival de Cannes e, não esqueçamos, a recente decisão da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas em nomear, já na próxima edição, dez títulos para a categoria de Melhor Filme, possibilitará a sua quase garantida inclusão naquele lote.

A sorte protege os audazes — e a audácia do ancião Carl Fredricksen "clama" por um honroso reconhecimento.

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