domingo, dezembro 19, 2010

Críticas da Semana

Breve resumo dos filmes visualizados esta semana.

A CIDADE (2010), de Ben Affleck



Mais uma prova de que Ben Affleck é, definitivamente, melhor realizador que actor, A CIDADE é um thriller que surpreende pela sua abordagem, privilegiando os elementos humanos da narrativa — romance, confiança e traição — em detrimento das dinâmicas sequências de acção. Jeremy Renner rouba (nos vários sentidos da palavra) todas as cenas em que aparece e Pete Postlethwaite, embora secundaríssimo, é indelével para o espectador.

RABBIT HOLE (2010), de John Cameron Mitchell



O título mais depressivo de 2010? Muito provavelmente, mas tal não é sinónimo de deprimente. Este é um teste perfeito à condição interpretativa de Nicole Kidman e Aaron Eckhart (sobretudo este, embora os prémios e a crítica destaquem a actriz) que, no papel de um casal em luto pela trágica morte do filho, compõem dois "cacos emocionais" aparentemente irremediáveis. A subtileza na realização de Mitchell, evitando a manipulação sentimental que tantas vezes aflige este género de filme, é outro ponto forte de um melodrama obrigatório.

ENTER THE VOID (2009), de Gaspar Noé



Provocador e extremo, somos convidados a uma viagem post-mortem, por uma Tóquio alucinogénica, do espírito do protagonista que observa as consequências da sua própria morte. Gaspar Noé é mais "técnico" do que contador de histórias mas, nesse aspecto, é dos melhores e mais inovadores a trabalhar hoje em dia, fazendo-nos crer que Cinema é, acima de qualquer dúvida, uma arte visual. Não recomendado para epilépticos nem cinéfilos "preguiçosos".

A TETA ASSUSTADA (2009), de Claudia Llosa



O vencedor do Urso de Ouro, no Festival de Berlim 2009, revela-se exemplo pragmático de filme que se torna melhor a cada nova visualização. Impregnado do realismo mágico e simbolismo apegado à natureza tão característico do cinema sul-americano hispânico, a sua exigência formal poderá impedir a apreensão da sua reflexão histórica do Perú e a contínua observação social impele a observá-lo como drama de costumes. Qualquer uma dessas leituras não é incorrecta, mas limitadora de aprazimento completo.

6 comentários:

O Regedor disse...

destaco ainda o detective do The Town. Muito boa interpretação também.
Quanto à Teta, estava à espera de muito mais. Contudo, a tradição do cinema peruano, ao contrário do argentino, é nenhuma...

Cumprimentos

Sam disse...

Este filme também me deixou dividido. E cumpre a tradição do Festival de Berlim em premiar obras "ambíguas".

Mas pode representar o ponto de viragem para o desenvolvimento do cinema peruano nos próximos tempos.

Jorge Rodrigues disse...

Interessante semana de filmes que tiveste.

RABBIT HOLE é um bom filme, nada de extraordinário, com uma excelente interpretação de Nicole Kidman. Tendo lido a peça, tenho a dizer que John Cameron Mitchell fez um grande trabalho ao transportar para o ecrã, anulando a sua frieza em palco e dando-lhe calor humano, que muito necessitava.

ENTER THE VOID tenho mesmo que ver. Já vi coisas muito más e muito boas escritas do filme. É um Gaspar Noé. Isso basta para se perceber a reacção.

LA TETA ASUSTADA já tinha visto o ano passado. Não percebo metade dos elogios que recebeu, porque para mim é um filme algo vulgar. Curioso e bom nalgumas partes, mas maioritariamente mediano.


E THE TOWN... Creio que fui dos poucos que gostou bastante do filme. Ainda bem que tu também gostaste dele. Acho que merece todos os elogios que lhe deram nos EUA.

Cumprimentos,

Jorge Rodrigues

Sam disse...

Uma semana sem filmes não é semana que se preze! :D

Sim, o La Teta Asustada foi o filme mais ambíguo dos aqui analisados, contudo beneficia, claramente, de uma segunda visualização.

O The Town também não me desagradou, acho-o um thriller bem competente e alguns lugares acima da média.

Desconheço o texto da peça do Rabbit Hole, e por isso fico contente em saber que se trata de uma adaptação competente.

Obrigado pelas tuas análises complementares!

diogo disse...

fazendo crer que o cinema é muito mais que a mera fotografia

Sam disse...

Diogo,

Não o é, obviamente. A montagem consegue ser mais importante que a "mera fotografia" para tornar o Cinema numa arte visual (ou figurativa).

Obrigado pelo comentário, volta sempre!