domingo, janeiro 16, 2011

Críticas da Semana

Breve resumo dos filmes visualizados esta semana.

127 HOURS (2010), de Danny Boyle



Em 2003, Aron Ralston aventurou-se, sozinho, pelos canyons do deserto Moab para uma excursão de fim-de-semana. Subitamente, enfrenta o maior desafio da sua vida, quando fica preso por uma rocha que lhe esmaga o braço direito numa ravina localizada a muitos quilómetros de qualquer ajuda. Durante as horas seguintes, Ralston recorda amigos, amantes, família e as duas caminhantes que conheceu antes do acidente, até encontrar uma solução verdadeiramamente radical para a sua contrariedade.

Não sendo do melhor que Danny Boyle já apresentou, 127 HOURS oferece-nos, contudo, uma história de sobrevivência extrema sem dramatismos sofríveis nem lamentações previsíveis. Uma mise-en-scène cinética, que se desenrola em função do argumento, e um James Franco acima do razoável transformam este filme numa experiência cinematográfica eficaz e com capacidade de perdurar na memória do espectador durante dias.

BAL (2010), de Semih Kaplanoğlu



O pequeno e introvertido Yusuf é incapaz de ler em voz alta na sala de aula, os incentivos da mãe são respondidos apenas com olhares e só consegue conversar com o pai sussurrando. Esta vivência de silêncio — que o filme não decifra nem resolve — é contraposta aos perigos da profissão do pai, um apicultor que, para aumentar os seus rendimentos, viaja para uma localidade vizinha e não deixa rasto do seu paradeiro.

Vencedor do Urso de Ouro no último Festival de Berlim, trata-se de uma excelente amostra do cinema turco contemporâneo. À realista captação dos hábitos e tradições da Turquia adjacente ao Mar Negro, Kaplanoğlu injecta BAL com o onirismo do jovem protagonista, cujos sonhos e ansiedades tornam-se, aparentemente, quase proféticos. A sua fotografia ofegante e montagem de som assombrosa provam como a palavra, em Cinema, pode mesmo ser acessória.

TRUE GRIT (2010), de Joel e Ethan Coen



Mattie Ross, uma adolescente de catorze anos mas com afoiteza de quarenta, está disposta a tudo para vingar o homicídio do pai às mãos de Tom Chaney, até mesmo a contratar o Marshall Rooster Cogburn, veterano da Guerra Civil Americana e com o pior registo, nas redondezas, de vítimas mortais para um funcionário da lei. Juntamente com o Ranger LaBoeuf, que busca Chaney em proveito próprio, os três embrenham-se no deserto do Novo México e verão o seu carácter resiliente testado.

As paisagens do Texas vibram com este típico filme dos Coen inserido num Western com sabor clássico, devido às electrizantes performances de Jeff Bridges e, sobretudo, de uma revelação chamada Hailee Steinfeld, digna sucessora para Holly Hunter e Frances McDormand (duas habituées dos Coen) com futuro bastante promissor. Ostenta impecáveis registos técnicos, com destaque para a direcção de fotografia de Roger Deakins (será desta que recebe o Óscar?) e a épica banda sonora de Carter Burwell.

THE MOST DANGEROUS MAN IN AMERICA: DANIEL ELLSBERG AND THE PENTAGON PAPERS (2009), de Judith Ehrlich e Rick Goldsmith



Daniel Ellsberg foi, durante anos, um dos mais fiéis e dedicados colaboradores norte-americanos na tarefa de "travar a ameaça comunista de alastrar pelo mundo". Isto até ao dia em que testemunhou, pessoalmente, o desenrolar e consequências da Guerra do Vietname. Movido por um activismo que lhe era desconhecido, decide fornecer à imprensa um delicado estudo da CIA que denunciava as mentiras e decepções dos vários presidentes (Truman, Kennedy e Johnson) envolvidos naquele conflito do sueste asiático.

Numa época em que a actividade de Julian Assange e do Wikileaks está na ordem do dia, os factos aqui expostos revelam-se muito actuais. Com a única diferença de que a "fuga" partiu de um homem (o próprio narrador, tornando o filme ainda mais íntimo) que conheceu, e bem de perto, o sistema que denunciou. O fenomenal recurso a imagens e sons de arquivo atestam a defesa da parte que sai "lesada" neste documentário importante para compreender aquele (e o nosso?) tempo.

EXAM (2009), de Stuart Hazeldine



Oito talentosos candidatos chegam à etapa final do processo de recrutamento para uma poderosa e misteriosa empresa. Colocados numa sala sem janelas, o Vigilante informa-lhes que possuem oitenta minutos para enunciarem a resposta de uma simples questão. Enquanto o relógio entra em contagem decrescente, os candidatos descobrem os vários passados e motivos dos que foram ali reunidos, enquanto a tensão sobe na descoberta do que cada um é capaz para conquistar um "emprego de sonho".

Com uma premissa interessante e original — e inesperada metáfora sobre a actual crise de emprego —, EXAM demonstra argumentos cabais para nos manter entretidos e expectantes acerca do seu desenlace (a escolha de actores virtualmente desconhecidos contribui para essa sensação). Infelizmente, não consegue um final — o twist é muito rebuscado — à altura das altas expectativas que gera.

CATFISH (2010), de Henry Joost e Ariel Schulman



Nev, um jovem fotógrafo nova-iorquino, inicia uma estranha mas animada série de contactos on-line com Abby, uma menina de oito anos com talento precoce para a pintura. Através de e-mails, Facebook, telemóveis e demais meios virtuais, o protagonista conhece a mãe e, especialmente, a irmã mais velha de Abby, com quem inicia uma relação amorosa "à distância". Quando surgem os primeiros indícios de que nem tudo o que os monitores de computador mostram será realidade, os cineastas viverão o mês mais inesperado das suas vidas.

Contar mais é estragar o prazer de ser surpreendido por CATFISH, o melhor documentário (falso ou não, o debate prossegue...) sobre as aparências e sentimentos da nossa relação quotidiana com os veículos de relacionamento pela Internet, e o filme produzido em 2010 que realmente soube olhar para o socialnetworking e de lá extrair uma mensagem genuína sobre os tempos modernos (sim, David Fincher, esta é para ti!). Muito recomendado.

1 comentário:

Tiago Ramos disse...

127 HOURS_ Um daqueles fenómenos que não percebo. É um filme medonho, cliché, oportunista. Mesmo à Danny Boyle. Aquela realização é intragável, com todos aqueles lugares comuns e split screens totalmente acessórios e irritantes. Mais uma suposta história de coragem e superação, já não há pachorra. E também não acho que o James Franco esteja assim tão bem. Querem um one man show a sério? BURIED.


EXAM_ Pode não ser perfeito, mas adorei. Cliché ou não, com um final demasiado rebuscado ou não, a verdade é que o ambiente e cenário do filme, aliado aos desempenhos competentes e a toda a tensão gerada, faz deste filme uma agradável surpresa.