domingo, abril 03, 2011

Críticas da Semana

Breve resumo dos filmes visualizados esta semana.

DOS HOMENS E DOS DEUSES (2010), de Xavier Beauvois



No auge de uma guerra civil, e perante a ameaça de terroristas fundamentalistas, oito monges católicos franceses, radicados num mosteiro na Argélia, ponderam abandonar o país ou ficar e encarar possíveis consequências trágicas.

Com uma mise-en-scène tão contida e serena quanto a vida de um mosteiro católico, Beauvois apresenta um autêntico tratado sobre fé e entrega total de um grupo de homens à vocação (ou "amor", como a certa altura um deles a apelida) que abraçaram, tornando desnecessário concentrar a atenção nos motivos que conduziram à sua morte. E, acima de tudo, convence o espectador da validade desse martírio — algo quase inédito em Cinema...

SENNA (2010), de Asif Kapadia



Documentário sobre o tri-campeão mundial de Fórmula 1 Ayrton Senna na sua intimidade, nas suas crenças pessoais, na sua ascensão fulgurante num dos desportos motorizados mais mediáticos, nas suas lendárias manobras ao volante e no cunho indelével que deixou em milhões de pessoas.

Quantas vezes um documentário faz-nos sentir em constante excitação e ansiedade durante toda a sua duração? Se a própria figura de Ayrton Senna já era propícia a sentimentos dessa natureza, o realizador Asif Kapadia incrementa-os através da sua inspirada "narração" em forma de épico trágico, onde não faltam ideais heróicos (a luta pela pureza na Fórmula 1), vilões (as mediáticas rivalidades contra Alain Prost e a Federação Internacional de Automobilismo), alguns interesses românticos e a total devoção do povo brasileiro ao ícone. O pormenor que o difere de um épico trágico? É que esta é uma história verdadeira.

JOGO LIMPO (2010), de Doug Liman



Em 2003, Valerie Plame, agente operativa da CIA, vê a sua identidade exposta publicamente como retaliação às declarações feitas pelo seu marido, num artigo no New York Times, contra a intervenção norte-americana no Iraque. A descoberto e com uma série de contactos internacionais debilitados, Valerie lutará para salvar a sua reputação, carreira e casamento.

Thriller político mediano, falha redondamente na sua mensagem a favor da liberdade de expressão como na tímida e inespecífica crítica que faz à invasão do Iraque promovida por George W. Bush. Realização competente, boas interpretações de Naomi Watts e Sean Penn e pouco mais. Porque um filme nunca consegue deixar grandes marcas quando recorre a obrigatórias imagens de arquivo para acompanhar o genérico final, como se tivesse de "comprovar" que esta é uma história verídica...

SUCKER PUNCH — MUNDO SURREAL (2011), de Zack Snyder



Babydoll é internada numa instituição psiquiátrica feminina após ter ameaçado o padrasto com uma pistola resultando na morte acidental da irmã mais nova. Juntamente com outras quatro reclusas, delineia uma fuga que, pela força da sua imaginação, envolverá dragões, zombies e robôs.

Exemplo claro da necessidade de Zack Snyder em encontrar um argumentista "peso-pesado" que faça justiça ao seu inegável talento técnico. Puro delírio visual, preenche o ecrã com um valioso desejo de fabricar algo de novo e que, irremediavelmente, influenciará o futuro da Sétima Arte. A sua narrativa demasiado desconexa e ausência de um sólido núcleo emocional, mesmo para um filme de acção, impede-o de ser um dos eventos cinematográficos do ano.

2 comentários:

Ricardo Lopes Moura disse...

Sam, a tua crítica é muito académica, não se percebe bem se te emocionaste com o filme :)

Sam disse...

Ricardo, eu nunca faço críticas "emocionadas" :) Contudo, acho que não escondi o entusiasmo que SENNA me proporcionou e tentei, em breves palavras, definir aquele que já é, para mim, um dos melhores filmes estrados em 2011.