domingo, outubro 16, 2011

Iniciativas Conjuntas #6

Texto publicado no Edição Limitada- A convite do Diogo Lima, eis uma tentativa de expressar em palavras todas as sensações que a banda sonora de ESTRADA PERDIDA (David Lynch, 1997) é capaz de proporcionar.

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"Half the film is picture, the other half is sound. They've got to work together. I keep saying that there are ten sounds that will be correct and if you get one of them, you're there. But there are thousands that are incorrect, so you just have to keep on letting it talk to you and feel it. It's not an intellectual sort of thing." David Lynch

O Inferno pode ser terrestre e David Lynch provou-o, sonora e visualmente, em ESTRADA PERDIDA, filme de 1997 e, provavelmente, um dos objectos cinematográficos mais estranhos, envolventes e fascinantes (não necessariamente por esta ordem) daquela década. Longe de uma visão Boschiana ou Dantesca do pior destino que pode ser reservado a um pecador no sentido religioso do termo, Lynch oferece-nos a perspectiva bem mundana de uma dimensão simultaneamente caótica, ubíqua, labiríntica, traiçoeira, sinistra, lasciva e surreal situada numa pequena cidade do centro dos Estados Unidos da América, de onde não existe fuga possível — nem sequer através da metamorfose...

O sentido (isto no caso de possuir um...) é o menor dos encantos de ESTRADA PERDIDA, pois prova que o Cinema é, no seu estado bruto, uma experiência sensorial da qual se obtêm, ou não, estados emocionais. Tentar compreender a história revela-se exercício infrutífero, inútil e impeditivo da fruição completa deste ambiente humanamente diabólico congeminado por David Lynch, portanto não gastarei latim a elaborar teorias freudianas sobre o filme nem analisarei profusamente a (belíssima, diga-se de passagem) direcção de fotografia de Peter Deming. No Edição Limitada fala-se de música, a ela me limitarei.



Tão estranha e improvável quanto o filme, a banda sonora é um dos principais cartões-de-visita de ESTRADA PERDIDA. Luciferina colectânea de originais e temas célebres, reúne electrónica, acid jazz, heavy metal, industrial rock, dream pop e bossa nova nas mesmas duas horas de metragem — acredito que a sonoridade no Inferno não andará longe desta "algaraviada" de géneros musicais — e protagonizada por "almas atormentadas" que dão pelo nome de David Bowie, Marilyn Manson, Trent Reznor, Billy Corgan, Till Lindemann, Tom Jobim e Barry Adamson.

Ouvir as vinte e três faixas deste álbum é assimilar metade da experiência justaposta em ESTRADA PERDIDA, e não digo isto de forma pejorativa. Lynch sempre foi um cineasta preocupado com o sound design dos seus filmes (nunca há um momento de total silêncio, tudo emite ruído), a música e sua subversão são suportes fundamentais à atmosfera, as filmagens (coreografias?) são planeadas em função de temas previamente estabelecidos para cada sequência.

Se ESTRADA PERDIDA é o trunfo sensorial que acima referi, a sua banda sonora, inadvertidamente, contribuiu para o estatuto de culto que o filme hoje possui e, pela sua diversidade, afigurou-se como uma das melhores bandas sonoras não-instrumentais alguma vez concebidas. Mesmo que demonstre laivos de incoerente ou raie o hiper-comercial, é impossível não a ouvir e elogiar.

Não é verdade que o muito apetecível é sempre o que mais se afigura como pecado mortal?



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Obrigado, Diogo, pelo convite!

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