quarta-feira, março 21, 2012

O Direito ao Contraditório

#2: CASABLANCA



Celebram-se hoje os 70 anos da estreia de um dos filmes — a par de clássicos como O FEITICEIRO DE OZ (1939) ou E TUDO O VENTO LEVOU (1939) — mais estimados da História do Cinema. É, actualmente, dos títulos que mais esforços move nos Estados Unidos em prol da sua preservação (foi seleccionado pelo National Film Registry, logo no ano da sua fundação, como obra cultural, histórica e esteticamente relevante). Arrecadou três Oscars da Academia, incluindo o de Melhor Filme, em 1943. Nele, constam temas musicais considerados ícones do Século XX. Detém o maior número de citações memoráveis por metro de película. Foi-lhe dedicado uma invejável e luxuosa edição em DVD. Vai conhecer, nesta Quarta-Feira, exibições simultâneas um pouco por todo o território norte-americano.

Resumindo, o fascínio que CASABLANCA provoca é indescritível, infinito e intergeracional.

Como explicar, e sobretudo justificar, o "ódio de estimação" que o Keyzer Soze nutre pelo romance impossível entre Rick (Humphrey Bogart) e Ilsa (Ingrid Bergman)? Existirão argumentos possíveis de sustentar uma opinião — totalmente inalterada dezoito anos e seis visualizações depois do meu primeiro contacto com o filme — em absoluta antítese à notabilidade popular de CASABLANCA?



Numa análise fria, esta percepção — e volto a salientar a índole pessoal da mesma — assenta em três aspectos que o filme não conjuga eficazmente e dos quais nunca fui capaz de me abstrair:

. a sua artificialidade emocional, ou como se assiste a um turbilhão de sentimentos amorosos do casal protagonista sem contexto (amor à primeira vista em Paris é o mínimo que nos é permitido) nem "recompensa" que sustentem a importância que lhe é dada pelo argumento — e que o passar dos anos encarregou-se de glorificar;

. a rigidez unidimensional das personagens, arquétipos (para não dizer estereótipos) de previsibilidade: o sempre atormentado anti-herói, o passivo interesse romântico, o vilão ainda mais vilão por ser nazi, etc. — e a teoria de Umberto Eco em torno dos benefícios do "paradoxo da estereotipação" em CASABLANCA arrisca descredibilizar o significado de "teoria";

. e um apelo propagandístico à intervenção dos EUA na II Guerra Mundial, bem engendrado mas muito atenuado pelos (es)forçados contornos românticos da narrativa (retoma-se, portanto, o primeiro aspecto acima destacado).



Há alguns meses, um conhecido meu abordou esta discussão com «é preciso possuir uma certa experiência de vida para realmente se apreciar CASABLANCA». Talvez pelo conteúdo ambíguo e vago desta afirmação, não fiquei convencido — e a contribuir para esse estado de coisas, estão alguns amigos cinéfilos mais novos que eu e devotos absolutos do filme de Michael Curtiz. Os quais também têm dificuldade em esclarecer a paixão que lhe dedicam, colocando, na maioria das vezes, adjectivos (novamente, ambíguos e vagos) como "encantador" e "poético" à cabeça dos seus discursos. Numa breve associação de ideias, venerar ou contrariar CASABLANCA é opção de complicada legitimação.

O seu maior mérito? Sem dúvida, o enorme consenso popular e cultural que uma obra tão insípida quanto esta conseguiu reunir. Merecedora de espanto pessoal e deste contraditório extremamente pessoal, quem sabe até controverso.

Dificilmente surgirá o dia em que olhe para CASABLANCA como um filme, no mínimo, mediano. No meu caso pessoal, e entre nós, caro leitor, será sempre 'we'll never have Paris'.

P.S.: confesso a minha particular estima por outra célebre frase deste filme, a saber 'round up the usual suspects'; inspirou o título de OS SUSPEITOS DO COSTUME (1995, Bryan Singer), thriller onde "pululava" um tal de Keyzer Soze...

2 comentários:

João Lameira disse...

Oh meu deus, não tens coração. Podia pôr-me elencar as qualidades do "Casablanca" — já agora: o soberbo HB, a belíssima Bergman, a tristeza da renúncia, o herói que é tão herói que disfarça (o melhor falso cínico de sempre), as manobras políticas, a candonga dos vistos, a roleta que salva aquele casal simpático, o "what watch?" "ten watch" "such much?", a Marselhesa (quando até a puta canta), a incrível galeria de secundários (Dalio, Veidt, Lorre, Greenstreet) —, mas prefiro elogiar a tua rubrica. Também tinha ideia de escrever sobre ódios de estimação, cheguei a escrever uma entrada, a ver se volto a pegar nisso.

Sam disse...

São qualidades, 'alright', mas nenhuma delas tocou no meu coração — sim, ele existe! :) — cinéfilo.

É sempre bom, quase catártico, falar sobre os nossos ódios de estimação. Ficarei atento a desenvolvimentos Numa Paragem do 28...

Cumps cinéfilos.