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terça-feira, junho 19, 2012

Iniciativas Conjuntas #11

Sem hesitação nem pretensiosismo, afirmo que a comunidade blogger cinéfila é uma das mais dinâmicas em Portugal. Segue um exemplo.

A convite do Cine31, fui desafiado a elaborar uma lista de "ódios de estimação" muito especial, realçando filmes comummente considerados como bons mas que eu não aprecio. Como resposta, ficou esta reflexão:

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. CASABLANCA (1942, Michael Curtiz)

Fama: rating de 8.7 no IMDB; 97% de apreciação crítica no Rotten Tomatoes; três Óscares da Academia (incluíndo Melhor Filme); considerado como obra de relevância cultural e histórica; detentor de um fascínio cinéfilo indescritível, infinito e intergeracional.

Ódio: gerado por três aspectos que, normalmente, estão associados a filmes rotulados de menores: pejado de artificialidade emocional, a rigidez unidimensional das personagens (autênticos arquétipos, para não dizer estereótipos, de previsibilidade) e não é mais do que um esforçado apelo propagandístico à intervenção dos EUA na II Guerra Mundial.

. O NOVO MUNDO (2005, Terrence Malick)

Fama: rating de 6.8 no IMDB; 61% de apreciação crítica no Rotten Tomatoes; pertence à curta mas qualitativamente robusta carreira de um dos cineastas a quem o adjectivo "visionário" parece assentar que nem uma luva; galardoado por diversas associações de críticos norte-americanos.

Ódio: a direcção de fotografia é, de facto, muito bonita, mas assistimos ao típico exemplo de "feitiço virado contra o feiticeiro": a habitual poesia narrativa de Malick nunca consegue despontar, afigurando-se sempre mecânica e desordenada; com a excepção de Christian Bale num papel secundário, o filme é um caso sério de miscastings.

. MÚSICA NO CORAÇÃO (1965, Robert Wise)

Fama: rating de 7.9 no IMDB; 84% de apreciação crítica no Rotten Tomatoes; quatro Óscares da Academia (incluíndo Melhor Filme); omnipresente nas listas, efectuadas por diversas publicações, de melhores filmes de todos os tempos, sobretudo no género dos musicais; todos sabem traulitar, no mínimo, o refrão do seu tema principal.

Ódio: não há, para mim, pior decisão artística do que impor ao espectador, e ao pormenor, quando este deve rir, chorar e enternecer-se, ou qual o destino de férias que terá de escolher para as próximas férias de Natal (o filme fez maravilhas pelo turismo da Áustria...); o pormenor da paixão entre uma jovem religiosa e um capitão da marinha nazi daria, só por si, pano para mangas junto de quem aprecia o politicamente correcto...

. O NOME DA ROSA (1986, Jean-Jacques Annaud)

Fama: rating de 7.8 no IMDB; 76% de apreciação crítica no Rotten Tomatoes; alguns prémios europeus, nomeadamente um BAFTA de Melhor Actor para Sean Connery; impulsionado pelo romance de Umberto Eco em que se inspira, a impressão geral é de que se trata de "um bom filme".

Ódio: ao "despir" o argumento dos elementos narrativos do romance para apostar na história de mistério num convento medieval, acaba por ser uma manta de retalhos cinematográfica de personagens mal definidas, suspeitas que nunca chegam ao estatuto de red herrings e acontecimentos mal sugeridos e/ou resolvidos; Umberto Eco não é "infilmável", apenas requereria mais "tacto" na sua adaptação.

. MOULIN ROUGE (2001, Baz Luhrmann)

Fama: rating de 7.6 no IMDB; 76% de apreciação crítica no Rotten Tomatoes; vencedor de três Globos de Ouro (incluíndo Melhor Filme — Musical ou Comédia) e dois Óscares da Academia; desde a sua estreia, é presença assídua nas listas de melhores musicais de todos os tempos.

Ódio: muito movimento, muita cor, muito efeito sonoro mas nenhuma alma; o frenesim, criado sobretudo na sala de montagem, tenta compensar a total ausência de originalidade do filme: a banda sonora é uma colectânea de covers, a temática romântica plagia descaradamente Shakespeare e as interpretações não merecem sequer o adjectivo overacting (Nicole Kidman incluída); tudo isto e ainda a dor de cabeça, proveniente dos cortes incessantes entre planos de meio segundo, que a sua visualização me proporciona.

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Obrigado, David, Sofia e Bruno pelo convite!

quarta-feira, março 21, 2012

O Direito ao Contraditório

#2: CASABLANCA



Celebram-se hoje os 70 anos da estreia de um dos filmes — a par de clássicos como O FEITICEIRO DE OZ (1939) ou E TUDO O VENTO LEVOU (1939) — mais estimados da História do Cinema. É, actualmente, dos títulos que mais esforços move nos Estados Unidos em prol da sua preservação (foi seleccionado pelo National Film Registry, logo no ano da sua fundação, como obra cultural, histórica e esteticamente relevante). Arrecadou três Oscars da Academia, incluindo o de Melhor Filme, em 1943. Nele, constam temas musicais considerados ícones do Século XX. Detém o maior número de citações memoráveis por metro de película. Foi-lhe dedicado uma invejável e luxuosa edição em DVD. Vai conhecer, nesta Quarta-Feira, exibições simultâneas um pouco por todo o território norte-americano.

Resumindo, o fascínio que CASABLANCA provoca é indescritível, infinito e intergeracional.

Como explicar, e sobretudo justificar, o "ódio de estimação" que o Keyzer Soze nutre pelo romance impossível entre Rick (Humphrey Bogart) e Ilsa (Ingrid Bergman)? Existirão argumentos possíveis de sustentar uma opinião — totalmente inalterada dezoito anos e seis visualizações depois do meu primeiro contacto com o filme — em absoluta antítese à notabilidade popular de CASABLANCA?



Numa análise fria, esta percepção — e volto a salientar a índole pessoal da mesma — assenta em três aspectos que o filme não conjuga eficazmente e dos quais nunca fui capaz de me abstrair:

. a sua artificialidade emocional, ou como se assiste a um turbilhão de sentimentos amorosos do casal protagonista sem contexto (amor à primeira vista em Paris é o mínimo que nos é permitido) nem "recompensa" que sustentem a importância que lhe é dada pelo argumento — e que o passar dos anos encarregou-se de glorificar;

. a rigidez unidimensional das personagens, arquétipos (para não dizer estereótipos) de previsibilidade: o sempre atormentado anti-herói, o passivo interesse romântico, o vilão ainda mais vilão por ser nazi, etc. — e a teoria de Umberto Eco em torno dos benefícios do "paradoxo da estereotipação" em CASABLANCA arrisca descredibilizar o significado de "teoria";

. e um apelo propagandístico à intervenção dos EUA na II Guerra Mundial, bem engendrado mas muito atenuado pelos (es)forçados contornos românticos da narrativa (retoma-se, portanto, o primeiro aspecto acima destacado).



Há alguns meses, um conhecido meu abordou esta discussão com «é preciso possuir uma certa experiência de vida para realmente se apreciar CASABLANCA». Talvez pelo conteúdo ambíguo e vago desta afirmação, não fiquei convencido — e a contribuir para esse estado de coisas, estão alguns amigos cinéfilos mais novos que eu e devotos absolutos do filme de Michael Curtiz. Os quais também têm dificuldade em esclarecer a paixão que lhe dedicam, colocando, na maioria das vezes, adjectivos (novamente, ambíguos e vagos) como "encantador" e "poético" à cabeça dos seus discursos. Numa breve associação de ideias, venerar ou contrariar CASABLANCA é opção de complicada legitimação.

O seu maior mérito? Sem dúvida, o enorme consenso popular e cultural que uma obra tão insípida quanto esta conseguiu reunir. Merecedora de espanto pessoal e deste contraditório extremamente pessoal, quem sabe até controverso.

Dificilmente surgirá o dia em que olhe para CASABLANCA como um filme, no mínimo, mediano. No meu caso pessoal, e entre nós, caro leitor, será sempre 'we'll never have Paris'.

P.S.: confesso a minha particular estima por outra célebre frase deste filme, a saber 'round up the usual suspects'; inspirou o título de OS SUSPEITOS DO COSTUME (1995, Bryan Singer), thriller onde "pululava" um tal de Keyzer Soze...

quinta-feira, dezembro 01, 2011

#31



... segundo as palavras do Pedro Afonso, do blog Laxante Cultural:

Uma pequena introdução para explicar o critério de selecção destes filmes. Para mim, a criação de uma lista deste tipo serve apenas para definir o autor da escolha. Não são necessariamente os melhores filmes que eu já vi, mas são aqueles que mais me marcaram, por uma razão ou outra, no meu crescimento enquanto amante de cinema e posteriormente cinéfilo. Provavelmente estão aqui estes apenas porque os vi na altura certa, mas isso não invalida o facto de ser uma lista que acaba por definir a minha identidade enquanto cinéfilo, e, porque não, enquanto ser humano. Todos (excepto o último, já vão perceber porquê) são filmes a que volto de vez em quando, quanto mais não seja para reviver os momentos de descoberta de aspectos do cinema que todos eles me proporcionaram. Eis a lista...

1. REBECCA
(1940, Rebecca, Alfred Hitchcock)



Este filme (a par com CASSANDRA CROSSING de George P. Cosmatos, 1976) é a memória mais antiga que eu tenho de um momento em que um filme foi para mim a coisa mais importante do mundo. Saber como acabava, era tão urgente para mim como o ar que respirava, devorando cada cena do filme como uma pista, sentado na ponta da cadeira e deixando-me aprisionar pelo suspense. Deveria ter entre os 7 e os 9 anos quando os vi, nas sessões de cinema da RTP Açores, e nunca mais me esqueci das sensações que me despertaram. Está aqui este, porque dos dois é aquele que revi muitas vezes ao longo dos anos, descobrindo sempre novos pormenores que fundamentavam aquelas sensações. Quanto ao outro, hei-de voltar a ele um dia.

2. VEIO DO OUTRO MUNDO
(1982, The Thing, John Carpenter)



Foi o filme que (a par com AN AMERICAN WEREWOLF IN LONDON de John Landis, 1981) complementou aquelas sensações com outra ainda mais profunda: o medo. Foram ambos vistos poucos anos mais tarde nas mesmas circunstâncias, mas recordo como se fosse hoje o desafio de não querer perder nenhum segundo, lutando contra mim próprio para não desviar os olhos da televisão. Esse desafio, de me testar a ver cinema, é uma das bases da minha paixão por esta arte. Com o passar dos anos, o filme do Carpenter foi ganhando mais importância (principalmente com o aparecimento da versão de coleccionador em DVD, cujo making of é um dos melhores de sempre) por me aprofundar o interesse pelos aspectos técnicos por trás de um filme.

3. CASABLANCA
(1942, Casablanca, Michael Curtiz)



Não me lembro exactamente de quando o vi, mas este é um filme a que volto inúmeras vezes e que não perdeu a frescura da primeira. É um dos filmes que me definiu como um romântico, e cujo desfecho me despertou para o sacrifício que o amor implica. Além disso, é um filme perfeito em todos os aspectos, o que me dá um prazer enorme quando a ele volto.

4. A MOSCA
(1986, The Fly, David Cronenberg)



Foi o filme que me abriu os olhos para o conceito de autor. Vi-o no cinema com 13 ou 14 anos (nesta altura os filmes demoravam algum tempo a chegar a Angra do Heroísmo), e fez-me muita confusão ver um filme de terror que, mais do que me assustar, me inquietou. Querer perceber porque é que este era um filme de terror diferente de todos os que já tinha visto, foi o ponto de partida para uma viagem de descoberta que só acabará quando morrer. Além disso é uma estória de amor bizarra, em que o amor dá lugar à loucura. É sem dúvida o mais importante dos filmes desta lista para mim, e constará certamente de todas as listas que eu possa vir a fazer.

5. ASSALTO AO ARRANHA-CÉUS
(1988, Die Hard, John McTierman)



Só quem viu este filme no cinema, na altura da sua estreia, pode perceber a sua importância. Sendo um profundo conhecedor do cinema de acção da altura (de todos os Rambos e Comandos e afins), não estava preparado para a pedrada no charco que foi o ASSALTO AO ARRANHA-CÉUS. A cena da morte do Takagi abalou todos aqueles que procuravam divertimento num filme de acção e fez com que, no género, deixasse de haver personagens a salvo. Mais do que isso, este filme é perfeito em todos os aspectos, do argumento à realização, passando pelas interpretações ou pelos efeitos especiais. É um prazer absoluto e é um dos poucos filmes que comprei em todos os formatos (Vhs, DVD e Blu-ray) de cinema em casa por que já passou a minha vida de cinéfilo.

6. PSICO
(1960, Psycho, Alfred Hitchcock)



Outro filme que tenho em todos os formatos (em Vhs cheguei a comprar três edições diferentes). É, para mim, o mais perfeito dos filmes. Desde a concepção e as histórias de bastidores, às opções tomadas por Hitchcock no sentido de provocar reacções no espectador e que, passados mais 50 anos, continuam a resultar em cheio. É o poder da manipulação através da arte no seu estado mais puro, sem facilitismos e com enorme personalidade. Tudo no filme resulta e é brilhantemente executado, desde os facilmente reconhecíveis acordes musicais às imagens icónicas inesquecíveis.

7. MORRER EM LAS VEGAS
(1995, Leaving Las Vegas, Mike Figgis)



A par com LES NUITS FAUVRES (Cyril Collard, 1992), são histórias de amor reais e trágicas que têm como pano de fundo o desejo de auto destruição de uma das personagens principais. Mas se no filme de Collard esse desejo apenas precipitava uma inevitabilidade, no de Figgis nunca nos é dada uma razão válida que nos permita aceitá-lo. É a outra face da moeda para o sacrifício final de CASABLANCA, e um segundo despertar para a fatalidade que o amor encerra. Além disso, estes dois filmes são muito carnais e, talvez por isso, vertiginosos nas emoções.

8. SETE PECADOS MORTAIS
(1995, Se7en, David Fincher)



Um dos filmes mais maquiavélicos alguma vez escritos. O argumento de Andrew Kevin Walker, apesar de ser um dos mais inteligentes thrillers já filmados, não poupa ninguém. Todo o desenrolar da narrativa não nos prepara para um desfecho que, de tão horrendo, dificilmente esquecemos. O ritmo imposto por Fincher é milimetricamente perfeito (como sempre) e não há uma única falha a apontar na sua concepção e execução. É um daqueles filmes que me faz sentir muito pequenino enquanto artista em potência, e a que volto muitas vezes a ver se aprendo alguma coisa.

9. SACANAS SEM LEI
(2009, Inglorious Basterds, Quentin Tarantino)



Além de ser outro filme que eu considero perfeito, há um factor que faz com que apareça nesta lista: a irreverência e atrevimento com que, mesmo que apenas através da arte, seja colocada alguma justiça na história. Tarantino é provavelmente o meu realizador vivo predilecto, mas aqui excedeu todas as expectativas. Além do mais, apesar de ser um filme mosaico (muito ao seu estilo), no sentido de reunião de referências e de conciliação de diferentes estórias, nunca perde o seu objectivo e atrai-nos para um clímax que nunca suspeitámos ser possível. No fundo, naquele momento, numa sala de cinema, somos abruptamente atirados da realidade para a ficção enquanto Tarantino nos diz que quem manda aqui é ele. É preciso ter tomates.

10. CINEMA PARAÍSO
(1988, Nuovo Cinema Paradiso, Giuseppe Tornatore)



Este é um filme que entra na lista dos 10 filmes da minha vida de uma forma peculiar. Não é um dos filmes que mais gosto (pelo menos para estar nos 10 primeiros), nem um dos que me influenciou enquanto cinéfilo. NUOVO CINEMA PARADISO está aqui porque é esta a minha história, sem tirar nem pôr. Toda a minha infância, juventude e adolescência foi passada num cinema, o Fanfarra Operária Gago Coutinho e Sacadura Cabral em Angra do Heroísmo, que o meu pai geria. Foi ele o meu Alfredo e o grande responsável pela minha paixão pelo cinema. Conheci todos aqueles personagens, com outros nomes e rostos, mas com as mesmas atitudes e comportamentos. Também eu recolhia e guardava pedaços de película espalhados pelo chão da sala de montagem. Também eu fugia para a sala de projecção tentando perceber como toda aquela magia funcionava. A dada altura, até por lá passou um projeccionista chamado Salvador, como na fase adolescente do protagonista. E tal como no filme, tudo isto teve um final pouco feliz. Há pouco mais de um ano, também eu voltei a Angra para o funeral do meu Alfredo, e também fui espreitar a Fanfarra. Aquela sala, da qual guardo as mais gratas e inesquecíveis memórias, está hoje a céu aberto depois de um incêndio que a consumiu há alguns anos. Resta a parte da frente do edifício e a parte traseira, do palco. Aquela sala à moda antiga, com plateia e balcão e imenso ar para respirar, onde me formei como cinéfilo e ser humano, existe apenas nas minhas gratas memórias. A paixão, essa ficou. E já de cá não sai.

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Obrigado, Pedro, pela tua participação!

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