A "quarta parede" é a divisória imaginária entre a ficção e a audiência de uma peça de teatro, de um filme ou do leitor de um romance, o qual assiste passivamente à acção do mundo encenado.
O acto de "derrubar a quarta parede" (ou, na forma original, breaking the fourth wall) é um recurso bastante usado para um efeito humorístico nonsense e inteiramente inesperado em ficções narrativas. Alguns acreditam que "derrubar a quarta parede" causa um distanciamento da suspensão de descrença a ponto de contrastar com o humor da história. No entanto, quando usada de forma consistente ao longo da história, é geralmente incorporada no estado passivo da plateia.
Vinte anos da carreira de Quentin Tarantino, repleta em referências culturais, compilados em seis minutos.
Por motivos óbvios, estão ausentes as homenagens de DJANGO LIBERTADO, mas a curiosidade desta semana não esquece o anacronismo de SACANAS SEM LEI (situado nos anos da Segunda Guerra Mundial) em relação a PARIS WHEN IT SIZZLES, um filme produzido e estreado em... 1964.
Toda a ilusão do Cinema, capaz de nos transportar através de eras, dimensões e percepções diversas, condensada num único travelling out de 50 segundos:
Faz agora um ano que o Keyzer Soze dedicou um post aos atentados terroristas do 11 de Setembro de 2001, nomeadamente através da referência a títulos que, no âmbito da ficção cinematográfica, tentaram expor os efeitos económicos, sociais e humanos daquele que será, definitivamente, o evento histórico mais significativo das primeiras décadas do Século XXI.
Hoje, e assinalando a data, debruçamo-nos sobre o que de melhor o cinema documental proporcionou durante os últimos anos: desde a crónica, em tempo real e em pleno ground zero, dos acontecimentos, até às reflexões sobre o que aconteceu e ainda está por explicar em relação àquele fatídico dia.
Seguem-se os cinco documentários, acompanhados de menção honrosa, que o Keyzer Soze's Place considera serem os melhores dedicados ao 11 de Setembro. E fica expressa a vontade, assim como o realce para a sua importância, de nunca deixar de ver o tema abordado pela vertente documental da Sétima Arte.
Documentário incendiado, realizado por um cineasta famoso pela sua também incendiada personalidade, critica a forma como o executivo de George W. Bush lidou com a informação fornecida pelos serviços secretos norte-americanos antes dos atentados, "autopsia", criativa, surpreendente e contundentemente, as relações pessoais e económicas entre a família Bin Laden e representantes do clã Bush — especulando, até, sobre o envolvimento Saudita no 11 de Setembro — e examina as consequências militares (obviamente, a Guerra do Iraque) subsequentes.
Inteiramente parcial e com alguma informação a carecer de veracidade e/ou investigação mais aprofundada, Michael Moore construi um autêntico "agitador" de consciências não só para o público dos Estados Unidos da América, como para todo o mundo ocidental.
As teorias de conspiração acerca dos reais quê, quem e porquê dos atentados do 11 de Setembro — ou seja, e segundo os criadores deste documentário, orquestrados pelo próprio governo norte-americano —, espalhou-se pela Internet que nem um rastilho, inspirou movimentos de cidadania (como o 9/11 Truth movement) dedicados a refutar a versão oficial dos acontecimentos e a exortar o espectador para que este "Ask Questions! Demand Answers!".
Dylan Avery, realizador amador mas pleno de coragem argumentativa, criou aqui um dos documentários consagrados ao 11 de Setembro mais desafiadores da última década e inteiramente merecedor de ser visto e reflectido (em baixo, o documentário integral na sua versão final).
Rodado antes, durante e depois dos atentados, este documentário de 13 minutos e rodado a preto-e-branco com uma câmara Cine-Kodak operada manualmente, é o título mais experimental e menos conhecido dos aqui reunidos.
Inicialmente planeado como um relato da viagem de Terry 'Coyote' Murphy em busca das origens do seu povo, acabou por resultar no confronto do protagonista com as diferenças no quotidiano nova-iorquino provocadas pelo 11 de Setembro e na forma como a ilha de Manhattan se converteu em local de luto e peregrinação para milhares de familiares das vítimas daquele dia. Temática e tecnicamente irreverente, peca apenas pela sua escassa divulgação.
The Falling Man refere-se a uma fotografia, captada pelo fotógrafo da Associated Press Richard Drew, exibindo um homem em queda livre da Torre Norte do World Trade Center. Esse indivíduo (a revelação da sua identidade é um dos temas do documentário) foi um de entre as 200 pessoas que, aparentemente, resolveram "desafiar a morte" daquela forma em vez de sucumbirem ao fumo e fogo que lavravam nos edifícios — indubitavelmente, um dos desenlaces mais sensíveis dos atentados do 11 de Setembro de 2001.
9/11: THE FALLING MAN é um documentário sobre aquela imagem e a sua história. E entre todas as pistas, depoimentos recolhidos e trabalho de investigação desenvolvido para o filme, as respostas a que chega não são inteiramente conclusivas (em baixo, o documentário integral).
Produzido para o Canal História, recorre a uma miríade de imagens de arquivo (sobretudo da cobertura televisiva por inúmeros canais de informação e vídeos amadores) para descrever, quase em tempo real, a natureza dos eventos, a reacção emocional dos nova-iorquinos e as diversas perspectivas durante o desenrolar dos atentados.
Fabulosa montagem de imagens de arquivo, reveladora da incompreensão, terror e imediatismo inerentes à magnitude do que aconteceu, a 11 de Setembro de 2001, em Nova Iorque (em baixo, o documentário integral).
Originalmente pensado como um retrato sobre o quotidiano de um bombeiro nova-iorquino, a receber formação num quartel situado a poucos quarteirões do World Trade Center, as objectivas dos irmãos Jules e Gédéon Naudet capturam, em primeira mão, o início e desenrolar dos atentados terroristas do 11 de Setembro de 2011.
Para mim, o melhor cinema documental será sempre aquele que mostra a realidade sem filtros, sem propagandas e elaborado, quase integralmente, a partir de raw footage. Foi com essa filosofia que os realizadores construíram um documentário cru e imediato onde não se dissecam razões, consequências, responsáveis nem moralismos; as imagens e os sons tornam qualquer voz-off inútil perante a veracidade de uma peculiar e trágica situação à qual, acidentalmente, os irmãos Naudet ficaram associados.
Nova Iorque, num futuro não muito distante. Eric Parker (Robert Pattinson), um milionário de 28 anos, sonha em viver numa civilização à frente da nossa e observa uma nuvem negra a formar-se por cima de Wall Street.
Enquanto é conduzido através de Manhattan para cortar o cabelo, o olhar ansioso de Eric fixa-se no câmbio da moeda chinesa: está a subir contra todas as expectativas e contra a sua aposta em como tal não iria suceder. Eric Parker está a perder o seu império a cada segundo que passa.
COSMOPOLIS acompanha a evolução criativa empreendida por David Cronenberg nos últimos anos — UM MÉTODO PERIGOSO (revisto aqui) assinalou a ruptura total com a sua filmografia anterior.
O que aqui se assiste é a transposição — talvez demasiada — do romance homónimo de 2003 assinado por Don DeLillo, onde o protagonista (Pattinson, embora não sendo actor brilhante, exibe uma inexpressividade capaz de funcionar em prol do filme) assume-se como metáfora do sistema económico-financeiro: um indivíduo que procura ganhar dinheiro, controlar os mercados e "compreender o mundo" através de cartografia monetária, indiferente às mudanças que ocorrem a poucos metros de si e/ou no exterior da sua limusina.
Num filme cujos temas, aparentemente, já se demonstram datados (observamos apenas as consequências, sobejamente apreendidas pela sociedade, de atitudes danosas que levaram à crise financeira actual), são, no entanto, entendíveis as razões que atraíram Cronenberg para esta história.
A nível visual, COSMOPOLIS está em harmonia com o que o realizador canadiano tem explanado durante toda a sua carreira — um percurso artístico que explorou, através do apelidado "terror venéreo", temas como a relação entre tecnologia e corpo humano, identidade e alienação. Contudo, tal abordagem nunca foi estanque; Cronenberg procurou desenvolver e apurar o tratamento dos assuntos que abordou.
Nessa busca por uma evolução constante do seu estilo, conclui-se que COSMOPOLIS é totalmente cronenbergiano. Basta observar alguns títulos anteriores do cineasta e encontrar diversas correlações visuais.
. Apresentação de cenários herméticos, isolados e austeros, normalmente com vincada figuração de motivos tecnológicos e/ou futuristas.
SCANNERS (1981)
VIDEODROME (1983)
IRMÃOS INSEPARÁVEIS (1988)
COSMOPOLIS (2012)
. Atracção sexual e "corpos rigorosamente vigiados" pela objectiva...
VIDEODROME (1983)
IRMÃOS INSEPARÁVEIS (1988)
CRASH (1996)
COSMOPOLIS (2012)
. ...os quais estão sujeitos a mutação/deformação/destruição, recorrentemente proporcionada por motivos tecnológicos (armas, veículos, instrumentos cirúrgicos).
VIDEODROME (1983)
CRASH (1996)
PROMESSAS PERIGOSAS (2008)
COSMOPOLIS (2012)
. Caos pessoal e o fim da "aventura", contrastando com a representação, no início de cada filme, confiante, ordeira e quase em simetria com a direcção artística dos protagonistas.
VIDEODROME (1983)
IRMÃOS INSEPARÁVEIS (1988)
CRASH (1996)
COSMOPOLIS (2012)
. Repetição de "lemas" proferidos por diversas personagens ao longo do filme.
Keyzer Soze é um personagem do filme de 1995, OS SUSPEITOS DO COSTUME.
Soze era o líder de uma secreta organização criminosa; a sua impiedosa personalidade e obscura influência granjeou-lhe um estatuto quase mítico entre agentes da lei e gangsters.
O seu papel no supreendente twist final do filme tornou-se num dos ícones da cultura popular dos anos 90.