domingo, outubro 28, 2012

KILLER JOE (2011), de William Friedkin



A mãe do traficante de 22 anos Chris Smith (Emile Hirsch) rouba-lhe droga no valor de seis mil dólares. De repente, Chris passa a ter uma dívida em mãos e muito pouco tempo para a pagar. Desesperado, descobre que a mãe tem um seguro de vida que vale muito dinheiro e contrata os serviços de Killer Joe (Matthew McConaughey), um polícia com um negócio paralelo: matar pessoas.

Normalmente, Joe exige pagamento adiantado, mas desta vez aceita Dottie (Juno Temple), a atraente irmã de de Chris, como garantia até o dinheiro ficar disponível... se alguma vez ficar.
— filmSPOT.pt



A manipulação do espectador de cinema revela-se, por vezes, no modelo mais simples e no veículo menos esperado.

Quase cartoonesco na sua violência e no comentário social, KILLER JOE percorre um caminho estreito entre a comédia surreal e o tenebroso realismo, assinalando não só o regresso de William Friedkin (realizador de OS INCORRUPTÍVEIS CONTRA A DROGA, O EXORCISTA e VIVER E MORRER EM LOS ANGELES, provavelmente o seu último grande filme) a um pico de forma na provocação emocional que os títulos supracitados reuniram, como consegue elaborar, contundente e ironicamente, acerca da figura do redneck norte-americano — quem diria que este "estereótipo cinematográfico" ainda poderia facultar tanta singularidade? — para narrar a queda criminosa e amoral de uma família.



Ancorado, mas não dependente, na assombrosa performance de Matthew McConaughey ('Joe' é o papel da sua carreira e, depois do que mostrou em MAGIC MIKE e MORRE... E DEIXA-ME EM PAZ, estamos perante o caso mais flagrante de actor em "reabilitação" da actualidade), temos um protagonista capaz de se revelar elegante, sedutor, metódico e sádico no espaço de uma sequência — polivalência a que a eficaz transposição da peça de teatro, assinada por Tracy Letts, "obriga" —, em confronto com todo um elenco (sobretudo, Juno Temple e Gina Gershon) representativo de uma classe média a viver acima das suas "possibilidades éticas e de bons costumes".



E não haverá tempo para catarses nem mote para redenções. Ao invés disso, KILLER JOE oferece-nos um clímax burlesco e perturbador, propositadamente horrendo, cómico e penoso de se assistir — o papel "erótico" da Kentucky Fried Chicken, neste particular, já é de antologia —, e o final em aberto, tão perverso e desconcertante como o protagonista, assegura a brilhante excentricidade do filme.



Este é um estranho e sombrio "jogo" de William Friedkin, exactamente o mesmo com que Joe agita a família Smith: oferece-nos primeiro o que desejamos, mas cedo faz-nos duvidar desse desejo. E a autonomia do "jogo" só depende de nós e da nossa resistência à manipulação. No nosso caso, agradecemos o ludíbrio.

Extremamente recomendado.

1 comentário:

António Sousa disse...

Concordo plenamente... uma das grandes surpresas de 2012. Para quando acham que estrear em Portugal?

Se puderem visitem o meu blog... E mt recente mas qualquer comentário ou crítica é valorizada :)

http://7arteforum.blogspot.pt/

Abraço!