terça-feira, abril 09, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Irreversível, de Gaspar Noé




Quando IRREVERSÍVEL foi apresentado em Cannes, cerca de 200 pessoas saíram da sala enojadas e a condenar a produção... nos primeiros 30 minutos. Por outro lado, Gaspar Noé tornou-se um realizador com o seu cult following e um dos nomes mais sonantes do que veio a ser denominado Novo Extremismo Francês, dada a abundância de gore cinemático no início do milénio nesse país. O que pode, afinal, justificar reações tão antagónicas?

Em primeiro lugar, é um filme sobre vingança. Alex (Monica Bellucci) é violada e espancada numa passagem subterrânea algures em Paris e o seu namorado (Vincent Cassel, tal como na vida real) passa o resto da noite à procura do criminoso, que acaba por encontrar e matar. É impossível estar preparado para o realismo inacreditável de ambas as cenas; para além da selvajaria com que os atos são cometidos, a duração da primeira, em especial, é um verdadeiro massacre que envolve fisicamente o espectador.

O facto de IRREVERSÍVEL se ir construindo de forma anti-cronológica obriga também a um esforço intelectual tão bem engendrado quanto o efeito visceral que provoca, porque nos faz testemunhas de crimes para os quais passamos a estar constantemente à espera de justificações. Noé torna esta viagem cada vez menos sinuosa, com a sua câmara de mão, em longos planos-sequência, e usando efeitos visuais e sonoros quase imperceptíveis mas que contribuem para adensar a experiência, até à calma do dia anterior ao explorado.

A naturalidade dos atores torna a ação verosímil ao ponto de a ideia mais assustadora ser pensar na frequência com que a violência ocorre e como pode ser tão aleatória. IRREVERSÍVEL é um inferno urbano que só tem paralelo com TAXI DRIVER, ainda que aqui a preocupação seja menos com os meandros que potenciam a violência e apenas com as suas consequências. Sob essa perspectiva, é um filme corajoso, reduzido à verdade nua e crua.

por David Lourenço (O Narrador Subjectivo).

Elenco
. Monica Bellucci (Alex), Vincent Cassel (Marcus), Albert Dupontel (Pierre), Jo Prestia (Le Tenia )


O Novo Extremismo Francês

Descrito por críticos e autores como um estilo criado para "quebrar todos os tabus", onde histórias de terror físico e psicológico misturam-se com a apresentação gráfica e incondicional de transgressão, violência e sexo. Deste movimento, que se estabeleceu em definitivo durante os anos 2000, realizadores como Gaspar Noé, Catherine Breillat (PARA A MINHA IRMÃ, 2001), Bruno Dumont (29 PALMS, 2003), Claire Denis (35 SHOTS DE RUM, 2008), Bertand Bonello (LE PORNOGRAPHE, 2001), Jean-Claude Brisseau (À AVENTURA, 2008) e Alexandre Aja (HAUTE TENSION, 2003) pontificam como principais representantes.



2 comentários:

António Tavares de Figueiredo disse...

um dos filmes mais brutais de um realizador que opta por agredir verdadeiramente os sentidos da audiência. E mais um excelente texto - como já seria de esperar da parte do Narrador - numa excelente iniciativa :)

Cumprimentos cinéfilos,
António Tavares de Figueiredo
(Matinée Portuense)

O Narrador Subjectivo disse...

Obrigado, António!