domingo, abril 21, 2013

O Cinema dos Anos 2000: O Filho, de Jean-Pierre e Luc Dardenne




A capacidade dos irmãos Dardenne em extrair das situações humanas, concebidas nos argumentos por eles assinados, autênticas fábulas morais de significado religioso e redenção humana encontra, em O FILHO, um dos seus expoentes máximos.

Numa lenta e austera exposição narrativa, sem qualquer espécie de música (nem sequer diegética) e com a câmara em constante grande plano do rosto e cabeça do protagonista, acompanhamos a crescente obsessão de Olivier, professor de carpintaria num centro de reabilitação juvenil, por Francis, um aluno recém-chegado. Os motivos para esse comportamento persecutório (desde a segui-lo pelos corredores do centro até a esgueirar-se na casa do jovem) apenas são, e muito surpreendentemente, revelados nos cinco minutos finais; mas antes desse momento, há um fabuloso crescendo de tensão, de diversas e escabrosas suspeições ou de uma bizarra busca por uma "figura filial" na sua vida, que instalam no espectador um profundo sentimento de desconforto e de incessantes probabilidades e inseguranças.

Na atmosfera de quase thriller demonstrada por O FILHO, existe igualmente, e acima de tudo o resto, uma poderosa mensagem de perdão e fé. A disciplina, primor e simpatia que Olivier empresta à sua actividade enquanto carpinteiro (uma possível leitura de associação ao Cristianismo é inevitável) revela-se aqui, e sobretudo com a conclusão do filme, como o tema fundamental explanado pelos Dardenne: uma cuidadosa lição, tanto para os alunos em reabilitação como para nós, da importância da exactidão e de empenho nas nossas vidas. Tais atitudes — a forma como agimos será sempre o que determinará as nossas existências — serão fulcrais para a remissão dos dois protagonistas, e no seio da relação pai-filho que realmente é encetada, o desenlace é marcado por um dos melhores, mais realistas e inolvidáveis exemplos de absolvição em Cinema. E não só nos anos 2000.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Olivier Gourmet (Olivier), Morgan Marinne (Francis Thorion), Isabella Soupart (Magali), Nassim Hassaïni (Omar), Kevin Leroy (Raoul), Félicien Pitsaer (Steve), Rémy Renaud (Philippo)


Palmarés
. Festival de Cannes: Melhor Actor (Olivier Gourmet), Prémio do Júri Ecuménico


Sobre os Irmãos Dardenne

Autores centrados numa análise madura, pungente e mordaz da condição humana contemporânea, com particular enfoque na natureza das relações familiares, Jean-Pierre e Luc Dardenne têm conquistado prémios e a crítica em títulos como A PROMESSA (1996) e O SILÊNCIO DE LORNA (2008). ROSETTA (1999) e A CRIANÇA (2005) conquistaram a Palma de Ouro no Festival de Cannes.



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