segunda-feira, setembro 07, 2009

ANTICHRIST (2009), de Lars von Trier



Assim que leio e ouço a celeuma causada por um filme em festivais de Cinema (sobretudo se for no de Cannes), em que público e crítica especializada unem esforços para difamar, de forma veemente, a específica visão de um cineasta, então concluo que se está perante algo de muito especial. Várias questões colocam-se: não existindo tal coisa como má publicidade, o filme é merecedor deste hype gratuito? Será realmente abominável? É a obra de um louco? Assim que ANTICHRIST termina, existirão apenas duas certezas: é um filme sem item de comparação e assinala o regresso de Lars von Trier à sua melhor e mais desregrada índole criativo-provocadora desde OS IDIOTAS (1998).

Lars von Trier afirmou durante a conferência de imprensa em Cannes, rebatendo uma plateia composta por irados jornalistas, que ANTICHRIST é fruto da luta contra uma depressão que quase o incapacitou de trabalhar. Neste sentido, não se podia esperar, à partida, um filme que não fosse adequadamente sombrio, grotesco e desolador, reservado ao escândalo pela misoginia intensa e violência gráfica que patenteia. A surpresa advém do terror sobrenatural que é misturado com a descrição de uma narrativa sobre alguns dos sentimentos humanos mais básicos, como a dor, o remorso ou o desespero.



De facto, logo na sequência inicial apercebemo-nos de que von Trier não poupará nada nem ninguém. Filmada a preto-e-branco, em extremo slow motion e acompanhada de uma ária de Handel, somos confrontados com o extâse de uma cena de sexo entre o casal protagonista (Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg, somente designados como Ele e Ela) durante a qual o seu filho cai, fatalmente, de uma janela. Crivada pela mágoa, Ela entra numa profunda depressão, responsabilizando-se pela perda e encarando a calma do marido como insensibilidade. Ele, um terapeuta experiente, decide assumir o tratamento da esposa e, durante este processo, viaja com Ela até a uma cabana isolada — apelidada de Éden — no meio da floresta. É neste terreno agreste que a frágil relação do casal desaba.

«O caos reina», segundo as palavras, num momento vividamente surreal do filme, de uma raposa de voz cavernosa. Esta visão, experienciada por Ele, serve de mote para o definitivo confronto físico e espiritual entre o casal e, rapidamente, a narrativa força-nos a testemunhar algumas das cenas de violência conjugal mais impiedosas que já se concebeu em Cinema — não as vou descrever; tal acto seria, por si só, um spoiler do pior tipo. Apenas partilho (ou quererei dizer advirto?) que são imagens de choque e realismo incontornáveis, algumas adequadas aos níveis de um série B semi-pornográfico.



Lars von Trier conclui ANTICHRIST numa toada incerta, deixando muito à interpretação do espectador. No entanto, é evidente o seguimento das temáticas sobre espiritualidade e cariz religioso que abundam na filmografia do dinamarquês. Neste filme, a queda da união do casal é pautada por longas dissertações acerca da origem desse conceito tão subjectivo que é o "Mal", descrito como uma característica inata da Natureza, determinante na espécie humana e irremediável na vida selvagem. E é a partir destes pressupostos que a câmara de von Trier (o magnífico trabalho de fotografia é da autoria de Anthony Dod Mantle, oscarizado por QUEM QUER SER BILIONÁRIO?) capta, por exemplo, a floresta onde decorre grande parte da acção (um cenário com uma quota parte de beleza e terror) ou a mencionada violência estilizada (despoletada quase sem fundamento) de algumas cenas.

ANTICHRIST é, em suma, um filme de abismais altos e baixos. Mas vive, sobretudo, do seu destemido par de actores. Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg — justa vencedora do Prémio de Interpretação Feminino em Cannes — agarram estes dois papéis sem recear consequências ou juízos de valor. Aliás, Dafoe reforça a sua conhecida atitude corajosa, habituado que está a abordar personagens "repugnantes" (basta lembrar A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO ou UM CORAÇÃO SELVAGEM) para um actor do seu estatuto. Sem medo da exposição ou do rídiculo gratuitos, as composições de Dafoe e Gainsbourg mantêm o argumento coeso de uma ponta à outra do filme, numa autêntica (permitam-me a liberdade) lição para actores adeptos do Método.

6 comentários:

Anónimo disse...

Caro Sam

Espero que não seja filmado ao estilo "dogma" com a câmara aos tremeliques ! "Os idiotas" é de facto um filme brutal. Um dos gajos, um alto, louro e narigudo, é igualzinho ao meu irmão André...que felizmente não é idiota.
JNAS

Sam disse...

Caro JNAS,

existe um ou outro vestígio, mas em ANTICHRIST os "artificalismos" são muitos. Parece que o Dogma 95 já era!...

Cumps. cinéflos.

Victor Afonso disse...

Estou ansioso para ver.

zebeto disse...

Um conselho, não percam tempo com um lixo de filme como esse, só tem pornografia , nada de terror e o pior é que a história não tem sentido algum e o final é pior ainda. Não dá pra entender como alguém produz um filme como este.

Anónimo disse...

meu Deus...eu não li isso...
Pessoal, vale a pena assistir e tirar suas próprias conclusões...achei várias analogias interessantíssimas...é só leram o que a crítica diz e a vontade de assistir será ainda maior...
eu gostei...

Sam disse...

Assim se prova que ANTICHRIST é uma obra "fracturante"...

Está aberto o debate e é muito bem-vindo!

Cumps cinéfilos.