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sábado, junho 29, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Dogville, de Lars von Trier




Depois de ONDAS DE PAIXÃO (1996) e DANCER IN THE DARK (2000), eis que o génio de Lars von Trier surge em alta mais uma vez em DOGVILLE. Ancorado por mais uma magnífica interpretação de Nicole Kidman na sua fase mais áurea — tendo mesmo viajado para a Dinamarca no dia seguinte a receber o Óscar — DOGVILLE rouba inspiração a Brecht e a Wilder para criar uma fábula contra a americanização e, mais que isso, uma alegoria interessante sobre a crueldade e egoísmo da condição humana.

Von Trier reinvigora as suas temáticas habituais de opressão e realismo com uma radical abordagem à história, inventando um cenário despido, com as paredes das casas da pequena aldeia onde a narrativa decorre simplesmente desenhadas a giz. Este efeito de alienação, foi amplamente discutido e aplicado por Brecht no seu teatro por obrigar o espectador a focar-se nos temas e ideias em discussão ao invés dos cenários ou do ambiente. A crítica está lá, como sempre, acutilante, agressiva e ousada, bem ao estilo do provocateur dinamarquês. John Hurt, que narra o conto, apresenta-nos Grace (Kidman) que ao fugir das autoridades dá de caras com a pequena aldeia de Dogville, nas Rocky Mountains, nos anos 30. Quando os cidadãos da isolada e retrógada pequena comunidade não a recebem da forma mais calorosa, Tom (Bettany), filósofo e filho do médico da aldeia, vê-se obrigado a interceder por ela, pedindo que lhe seja dado abrigo e uma oportunidade. Grace, buscando ardentemente a aprovação dos seus pares, sujeita-se ao seu escárnio, discriminação e escravidão, ganhando esforçadamente o afecto e admiração de todos ao longo do tempo perdendo a sua identidade e personalidade até se tornar definitivamente um deles. Mal sabia ela que quando dados do seu passado se revelassem a tortura e opressão aumentaria e aquela pequena e dócil comunidade revelaria a sua real personalidade. Desde o mais mesquinho ao idealista Tom, cada um assume as suas cores verdadeiras e todos, da sua forma, condescendem e maltratam Grace.

DOGVILLE nem sempre consegue executar as ideias e ambições a que von Trier se propõe. Nem sempre o seu conceito resulta na prática e partes do filme parecem esforçar-se para encaixar e muito depende da capacidade que o espectador tenha para analisar criticamente e absorver o que está a ser exposto em ecrã. Não deixa nunca de ser uma obra viva, elegante, experimental e incrivelmente original. A exposição do dinamarquês sobre a injustiça que reina na sociedade contemporânea, violenta, desumana, fechada e antipática, em que muitas vezes julgamos os outros pela sua aparência e não damos oportunidade a quem é diferente de nós, é pertinente, actual e justificada. O seu voraz apetite para introduzir missivas contra os americanos, apesar de desnecessário, não retira valor ao resultado final do filme. Desafiador e profundo, DOGVILLE deve ser comemorado, porque além de uma obra-prima singular, de cunho indelével do cineasta dinamarquês, procura algo mais: fazer o espectador pensar criticamente, para variar.

por Jorge Rodrigues (Dial P For Popcorn).

Elenco
. Nicole Kidman (Grace Margaret Mulligan), Paul Bettany (Tom Edison, Jr.), John Hurt (Narrador), Lauren Bacall (Ma Ginger), Chloë Sevigny (Liz Henson), Stellan Skarsgård (Chuck), Udo Kier (Homem de casaco), Ben Gazzara (Jack McCay), James Caan (The Big Man), Patricia Clarkson (Vera)


Palmarés
. Prémios da Academia Europeia: Melhor Realizador (Lars von Trier), Melhor Fotografia (Anthony Dod Mantle)


Sobre Lars von Trier

Depressivo, controverso e literalmente considerado como persona non grata pelo Festival de Cannes, é conhecido como um dos principais impulsionadores do Dogma 95 — colectivo avant-garde de realizadores baseado em valores narrativos, representativos e temáticos tradicionais — e a sua obra está preenchida por uma abordagem variada e iconoclasta a ambientes opressivos e pessimistas, onde a Humanidade é, invariavelmente, a causa de todos os males. Da sua filmografia, realce para O ELEMENTO DO CRIME (1984), EUROPA (1991), ONDAS DE PAIXÃO (1996), DANCER IN THE DARK (2000, Palma de Ouro em Cannes) e ANTICRISTO (2009).



domingo, outubro 02, 2011

Críticas da Semana

Breve resumo dos principais filmes visualizados esta semana.

PINA (2011), de Wim Wenders

Viagem sensual e deslumbrante através das coreografias dançadas no palco e em locais da cidade de Wuppertal - cidade que durante 35 anos foi a casa e o centro de creatividade de Pina Bausch, coreógrafa alemã que morreu em 2009.



Longe de ser uma exploração do percurso cronológico e/ou artístico de Pina Bausch, esta é uma biografia sentimental sobre a coreógrafa exposta através dos testemunhos e emoções, num criativo estilo de talking heads, dos bailarinos que com ela trabalharam. Embora estejam lá alguns dos seus trabalhos mais emblemáticos (Café Muller, Vollmond, etc.), ressalta-se a metodologia e sensibilidade peculiares de Bausch através da recriação desses bailados, registados com um virtuosismo que há muito não se via em Wenders.

Devo consessar o meu défice no que toca a apreciar inteiramente a exigente arte do bailado, mas é impossível negar o poder de sedução visual que PINA imprime no espectador. Independentemente de ser ou não visualizado em 3D...

DRIVE (2011), de Nicolas Winding Refn

Um duplo de Hollywood (Ryan Gosling) utiliza as suas habilidades ao volante para ajudar assaltantes em fuga. Decidido em ajudar uma família com quem cria laços pessoais, o saldo trágico desse "serviço" obriga-lo-á a lutar pela própria vida.



Superando todas as expectativas e tendências do noir moderno, eis o apurado sentido visual de Nicolas Winding Refn em função de interpretações seguras — sobretudo Gosling, reinventando o conceito do "vingador solitário" —, da melhor Los Angeles nocturna desde COLATERAL e de uma estetização da violência que bem poderia reacender o velho debate acerca do seu uso no cinema dito mainstream.

Mas se todo o style over substance fosse assim, seríamos todos cinéfilos mais realizados... Sem hesitações, um dos melhores filmes de 2011.

MELANCHOLIA (2011), de Lars von Trier

A difícil relação entre duas irmãs (Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg) é posta à prova, ao mesmo tempo que um misterioso novo planeta, escondido por trás do Sol, ameaça colidir contra a Terra.



Perante o que aqui é concretizado, não é de admirar o "escarcéu" que Lars von Trier teve de causar, no último Festival de Cannes, para captar atenções em torno de um drama familiar/apocalíptico que atinge a "proeza" de representar um fim do mundo tremendamente banal. Não se consegue eduzir daqui um tema pertinente, todas as ideias demonstram-se estafadas e há momentos em que o cliché domina.

Contudo, o filme pertence a uma fabulosa Charlotte Gainsbourg — o prémio de interpretação entregue a Kirsten Dunst em detrimento da actriz francesa, também em Cannes, já é um dos mistérios do ano — e ao fantástico epílogo que demonstra como o Dogma 95 é, definitivamente, História: dois factores que elevam MELANCHOLIA de um argumento pouco convincente e execução desapaixonada. Apropriado para quem nunca viu um filme de Lars von Trier e (quase) desaconselhado para fãs do cineasta.

domingo, maio 22, 2011

Festival de Cannes 2011 — Os Prémios



Robert De Niro e restantes membros do Júri do 64º Festival de Cannes anunciaram, há poucas horas e durante a Cerimónia de Encerramento, os galardoados nas diversas categorias em Competição.



Confirmando a notoriedade que lhe foi granjeada antes e durante o Festival, a atribuição da Palma de Ouro a THE TREE OF LIFE permite que o nome de Terrence Malick fique indelevelmente marcado à edição deste ano.

O palmarés da edição de 2011 ficou assim estabelecido:

  • EM COMPETIÇÃO — LONGA-METRAGEM


Palma de Ouro
THE TREE OF LIFE (EUA), de Terrence Malick.

Bill Pohlad e Dede Gardner, ao lado de Jane Fonda, aceitaram a Palma de Ouro em nome do ausente Terrence Malick.

Grande Prémio do Júri
ONCE UPON A TIME IN ANATOLIA (Bósnia-Herzegovina / Turquia), de Nuri Bilge Ceylan.



ex-aequo

LE GAMIN AU VÉLO (Bélgica / França / Itália), de Jean-Pierre e Luc Dardenne.



Prémio de Realização
Nicolas Winding Refn, por DRIVE (EUA).

Nicolas Winding Refn e o seu prémio

Prémio do Júri
POLISSE (França), de Maïwenn.

A realizadora Maïwenn agradece o Prémio do Júri

Prémio de Interpretação Masculina
Jean Dujardin, por THE ARTIST (França), de Michel Hazanavicius.

Dujardin posa junto de Catherine Deneuve

Prémio de Interpretação Feminina
Kirsten Dunst, por MELANCHOLIA, (Alemanha / Dinamarca / França / Suécia) de Lars von Trier.

Kirsten Dunst, pouco depois de ser galardoada Melhor Actriz

Prémio de Argumento
Joseph Cedar, por HEARAT SHULAYIM (Israel).

Palma de Ouro - Curta Metragem
CROSS-COUNTRY, (França / Ucrânia), de Maryna Vroda.



Caméra d'Or
LAS ACACIAS (Argentina / Espanha), de Pablo Giorgelli.



Prémio FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema)
LE HAVRE (Alemanha / Finlândia / França), de Aki Kaurismäki.

Prémio Ecuménico do Júri
THIS MUST BE THE PLACE (França / Irlanda / Itália), de Paolo Sorrentino.

  • UN CERTAIN REGARD


Prémio Un Certain Regard
ARIRANG (Coreia do Sul), de Kim Ki-duk.

ex-aequo

HALT AUF FREIER STRECKE (Alemanha), de Andreas Dresen.



Prémio do Júri
ELENA (Rússia), de Andrey Zvyagintsev.

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A lista completa dos laureados pode ser consultada aqui.

[Crédito de imagens: Site Oficial do Festival e Associated Press.]

quinta-feira, maio 19, 2011

Festival de Cannes 2011 — Dia 9



Nono e "agitado" dia de Festival: devido às suas bombásticas declarações, proferidas ontem, de simpatia por Hitler, Cannes decidiu considerar Lars von Trier como persona non grata e baniu a sua presença de futuras edições do certame. Contudo, MELANCHOLIA permanece em competição (ou seja, ainda elegível para prémios, incluindo a Palma de Ouro) e as reacções de estupefacção à decisão da organização não tardaram em fazer-se sentir...

Esta quinta-feira fica, também, marcada pela exibição de dois dos títulos mais sonantes em concurso. Pedro Almodóvar apresentou LA PIEL QUE HABITO, protagonizado por Antonio Banderas, ou a primeira experiência do realizador espanhol no cinema de terror, numa mistura explosiva de horror, suspense e cirurgia plástica.

Almodóvar posa para os fotógrafos

Um pujante Antonio Banderas, dentro e fora do grande ecrã

E, a julgar pela imprensa especializada, não estamos perante uma experiência falhada. Com Banderas a encarnar um «'neo-Frankenstein' de forma convincente», LA PIEL QUE HABITO está repleto de «surpreendentes revelações» e fotografia dominada por «sensualidade, texturas e salpicos de sangue». Contudo, realçou-se que, apesar de uma premissa tão ambiciosa, o filme «nunca atinge todo o seu potencial».

O sempre activo Takashi Miike pisou hoje a Croisette para a exibição de HARA-KIRI: DEATH OF A SAMURAI, a mais recente incursão do cineasta japonês pelo mundo das histórias de poder e vingança entre samurais.

Takashi Miike e o actor Eita demonstram o poder dos samurais

Num filme «metódico e, por vezes, frontalmente sombrio», Miike foi duramente criticado pela «construção de narrativa pouco satisfatória» e uma «incompreensível e inútil opção pelo formato 3D». Aparentemente, não se trata dos melhores títulos em competição.

Fora de competição, e desafiando as autoridades iranianas, Cannes conheceu THIS IS NOT A FILM, a obra mais recente de Jafar Panahi e que descreve o quotidiano do cineasta um dia antes de saber o veredicto do recurso ao seu mandato de prisão. Uma obra documental capaz de transformar «censura numa forma de arte».

Jafar Panahi

Destaque final para o primeiro prémio atribuído no âmbito da presente edição do Festival. TAKE SHELTER, de Jeff Nichols, arrecadou o Grande Prémio da Semana da Crítica.

Imagem de TAKE SHELTER, com Michael Shannon e Jessica Chastain

[Crédito de imagens: Getty Images e Site Oficial do Festival]

Festival de Cannes 2011 — Dia 8



Oitavo dia de Festival marcado pelas habituais postura e visão artística controversa de Lars von Trier. Dois anos depois de ANTICRISTO (chocou a plateia mas valeu a Charlotte Gainsbourg o prémio de Melhor Actriz), o cineasta dinamarquês regressa à competição com MELANCHOLIA, drama "operático" sobre o choque de emoções entre duas irmãs durante a iminente e literal destruição, ao som de Wagner, do nosso planeta.

Lars von Trier, sem dúvida ainda a remoer acontecimentos de Festivais passados

Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg, irmãs desavindas em MELANCHOLIA

Desta vez, a indignação foi provocada mais pelas declarações de simpatia nazi afirmadas por Lars von Trier durante a conferência de imprensa do que pelo filme, considerado como «o trabalho mais contido do realizador desde EUROPA». «Introspectivo, sombrio e absolutamente devastador», MELANCHOLIA possui «o retrato mais gentil de aniquilação» proporcionado em cinema nos tempos recentes. Do outro lado da "contenda crítica", unanimidade no veredicto de ser «um estudo letárgico, vazio e frustrante sobre vida e morte».

Também em concurso pela Palma de Ouro, HANEZU NO TSUKI, da nipónica Naomi Kawase, narra a história de um triângulo amoroso situado na região montanhosa de Asuka, vista como o berço da nação japonesa.

A realizadora Naomi Kawase, ou a presença do kimono em Cannes

Num projecto cuja "filosofia", de acordo com Kawase, só ficou totalmente estabelecida após o terramoto que atingiu o Japão em Março último, «a sua delicada direcção de fotografia» não esconde o facto de ser «um dos títulos com ritmo mais lento do Festival» e «enorme teste à capacidade de resistência do espectador». Abundam relatos de que alguns adormeceram, ruidosamente, durante a projecção de HANEZU NO TSUKI...

O romeno Catalin Mitulescu (EU CAND VREAU SA FLUIER, FLUIER, 2010) apresentou hoje, na secção Un Certain Regard, LOVERBOY, centrado nos conflitos de um homem que seduz mulheres para mais tarde vendê-las a uma rede de tráfico humano.

George Pistereanu e Ada Condeescu com o realizador Catalin Mitulescu (à direita)

Apesar de ter sido apenas visualizado pela crítica romena e pelo júri da secção, os primeiros "ecos" apontam para uma obra «execução quase experimental, mas cuja mensagem formulada não é propriamente original».

Fora de competição, foi possível observar LA CONQUÊTE, de Xavier Durringer, um polémico biopic sobre o caminho até ao poder do actual Presidente Nicolas Sarkozy.

Denis Podalydes, o Sarkozy de LA CONQUÊTE

«Prometendo muito mas concretizando pouco», a coragem do realizador resulta apenas numa «divertida mas inócua farsa política». Denis Podalydes, numa imitação quase perfeita do líder francês, é merecedor de elogios totalmente consensuais.

Belmondo, acompanhado de Barbara Gandolfi, na passadeira vermelha

Destaque final para o tributo, prestado ontem à noite, a Jean-Paul Belmondo: ao seu percurso pessoal, carreira artística e influência no Festival de Cannes.

[Crédito de imagens: EPA, Site Oficial do Festival e Associated Press.]

terça-feira, maio 10, 2011

Festival de Cannes 2011 — Antevisão



Começa amanhã, e prolongando-se até 22 do corrente mês, a 64ª edição do Festival de Cannes. Palco de cerimónias cuidadosamente planeadas e ferozes disputas artísticas, o certame iniciar-se-à com a ligeireza cómico-romântica de Woody Allen mas rapidamente assumirá faceta "sombria": desde a clandestina presença e à última da hora de Jafar Panahi (realizador iraniano detido pelo regime de Ahmadinejad), passando pelo auspício de momentos desconfortáveis "oferecidos" por Almodóvar, von Trier e Dumont, até aos potenciais arrepios que as primeiras obras de Julia Leigh e Sean Durkin poderão causar, apenas uma certeza existe: vão ser os onze dias de cinema mais electrizantes do ano.

Não se adivinha tarefa fácil para o júri, este ano presidido por Robert De Niro, atribuir a Palma de Ouro. O muito aguardado regresso de Terrence Malick, a habitual "pressão" dos irmãos Dardenne ou a presença de Bilge Ceylan e Kaurismäki na Selecção Oficial prometem incerteza até ao derradeiro minuto.

Como já é tradição, o Keyzer Soze's Place acompanhará o Festival com o relato dos melhores momentos de cada dia. Por agora, segue o destaque dos principais títulos a serem exibidos na Croisette:

  • Em Competição

  • . LA PIEL QUE HABITO, de Pedro Almodóvar



    Baseado num romance de Thierry Jonquet, narra a vingança de um cirurgião plástico (Antonio Banderas) que, após a morte da esposa num acidente de viação, procura conceber uma espécie de pele humana que proteja uma pessoa de qualquer agressão.

    . HEARAT SHULAYIM, de Joseph Cedar



    A história de uma insana rivalidade entre pai e filho, ambos excêntricos professores numa Universidade Hebraica de Jerusalém. O filho é um sedento oportunista, apenas interessado nos louvores atribuídos por aquela instituição; o pai é um obstinado purista mas, secretamente, anseia pelo reconhecimento público do seu trabalho. O concurso para o prémio mais prestigiante de Israel levará os dois a um amargo confronto final.

    . ONCE UPON A TIME IN ANATOLIA, de Nuri Bilge Ceylan



    A vida numa pequena cidade é semelhante à experiência de caminhar no meio das estepes: o sentimento de que "algo novo e diferente" irá aparecer por trás de cada monte numa paisagem que se demonstra sempre igual e a estrada persistentemente monótona...

    . LE GAMIN AU VÉLO, de Jean-Pierre e Luc Dardenne



    Cyril (Thomas Doret), prestes a completar doze anos, tem apenas um plano: encontrar o pai que o abandonou num infantário. Conhece, por acaso, Samantha (Cécile de France), a gerente de um salão de cabeleireiros que o deixa ficar com ela nos fins-de-semana. Cyril é incapaz de reconhecer a empatia que Samantha sente por ele; contudo, só esse amor poderá acalmar a ira que cresce dentro do rapaz.

    . LE HAVRE, de Aki Kaurismäki



    Comédia dramática sobre um desiludido escritor (André Wilms) que decide iniciar uma respeitável, mas pouco lucrativa, carreira de engraxador de sapatos. Com o sonho de triunfar na literatura finalmente enterrado e feliz por viver junto de amigos e da esposa Arletty, o destino obriga-o a ajudar um jovem refugiado africano (Blondin Miguel).

    . SLEEPING BEAUTY, de Julia Leigh



    Conto de fadas erótico sobre Lucy (Emily Browning), jovem estudante universitária atraída para um misterioso mundo de beleza e desejo. De forma a conseguir pagar as despesas, aceita um emprego na mansão de Clara (Rachael Blake) como objecto sexual de clientes que só encontram satisfação na literal passividade de Lucy.

    . THE TREE OF LIFE, de Terrence Malick



    Jack (Sean Penn), uma alma perdida no mundo moderno, procura reconciliar-se com a sua juventude, marcada pela relação conflituosa com o pai (Brad Pitt), e entender a mais importante regra da vida que nunca poderá ser alterada: o eterno esquema de que todos fazemos parte.

    . LA SOURCE DES FEMMES, de Radu Mihaileanu



    Numa pequena aldeia entre o Norte de África e o Médio Oriente, o trabalho de subir ao alto da montanha para recolher água de uma fonte sempre esteve reservado às mulheres. Um dia, a jovem Leila (Leïla Bekhti) exorta as restantes mulheres a entrarem numa greve particular: não haverá amor nem sexo até os homens assumirem a tarefa de ir buscar a água para a aldeia.

    . ICHIMEI, de Takashi Miike



    O samurai Hanshiro (Ebizo Ichikawa) solicita licença para cometer hara-kiri no pátio da casa do senhor feudal Kageyu (Koji Yakusho). Este, relutante em aceitar essa defesa de honra, recorda a trágica história de um pedido semelhante feito por um jovem ronin chamado Motome. Mas nas costas do arrogante Kageyu, um laço vingativo formou-se entre Hanshiro e Motome...

    . HABEMUS PAPAM, de Nanni Moretti



    Após a morte do Papa, reúne-se um conclave para decidir o sucessor. O cardeal escolhido (Michel Piccoli) parece incapaz de suportar o peso de tal responsabilidade. Será ansiedade? Depressão? Simples inadaptação? Enquanto os fiéis aguardam na Praça de São Pedro pelo anúncio do novo pontífice, o Vaticano recorre a métodos pouco ortodoxos para solucionar a crise.

    . THIS MUST BE THE PLACE, de Paolo Sorrentino



    A estreia de Paolo Sorrentino (IL DIVO — A VIDA ESPECTACULAR DE GIULIO ANDREOTTI, 2008) ao leme de uma produção norte-americana centra-se em Cheyenne (Sean Penn), um próspero e reformado cantor de rock, que regressa a Nova Iorque após receber notícias da morte do pai. Descobrindo a humilhação que o falecido suportou às mãos de um oficial das SS em Auschwitz, Cheyenne percorre os Estados Unidos para enfrentar Muller, vingar o pai e redescobrir a sua própria identidade.

    . MELANCHOLIA, de Lars von Trier



    Justine e Michael (Kirsten Dunst e Alexander Skaarsgård) celebram o seu casamento com a realização de uma sumptuosa festa na casa da irmã (Charlotte Gainsbourg) da noiva. Entretanto, um planeta desconhecido ameaça destruir a Terra...

    . DRIVE, de Nicolas Winding Refn



    Duplo em Hollywood durante o dia e motorista de criminosos durante à noite, um homem solitário (Ryan Gosling) vê-se perseguido pelo homem mais perigoso de Los Angeles quando um trabalho falha redondamente. Para sobreviver, terá de se exceder naquilo que melhor sabe fazer: conduzir.

  • Un Certain Regard

  • . RESTLESS, de Gus Van Sant



    Annabel (Mia Wasikowska), a padecer de um cancro terminal, e Enoch (Henry Hopper), a recuperar da trágica morte dos pais, conhecem-se por acaso num funeral e rapidamente percebem que possuem diversos e inesperados pontos em comum. Juntos, serão capazes de conceber as suas próprias regras para enfrentar as amarguras da vida.

    . HORS SATAN, de Bruno Dumont



    Na Côte d'Opale, perto de um rio, vive um estranho homem que é ajudado por uma rapariga natural daquela região. Juntos encetarão uma série de súplicas privadas, perto de lagoas onde o diabo passeia...

    . MARTHA MARCY MAY MARLENE, de Sean Durkin



    Assombrada por dolorosas memórias e sofrendo de ansiedade crescente, Martha (Elizabeth Olsen) escapa ao controlo de uma seita abusiva e regressa a casa para viver com a irmã Lucy (Sarah Paulson). Contudo, os constantes pesadelos causados pela coerção psicológica daquele culto impedem uma vida normal e Martha acaba por cair num irremediável estado de pânico permanente.

    . THE DAY HE ARRIVES, de Sang-soo Hong



    Sang-Joon (Yu Jun-Sang), professor de Cinema numa universidade de província, viaja até Seul para se encontrar com o crítico Young-Ho (Kim Sang-Jung). Durante essa estadia de três dias, Sang-Joon trava uma série de encontros com a sua ex-namorada, cuja omnipresença torna-se quase intolerável.

    . ARIRANG, de Ki-duk Kim



    Filme íntimo e pessoal de Kim Ki-duk, no qual aborda o seu "desaparecimento" nos últimos três anos, durante os quais enfrentou diversos problemas de saúde.

    . ET MAINTENANT, ON VA OÙ?, de Nadine Labaki



    Situado num país devastado pela guerra, esta é a história da determinação de um grupo de mulheres em proteger a sua comunidade das forças divisoras que ameaçam ruir aquela união. Mas quando os eventos assumem contornos trágicos, até onde irão estas mulheres para evitar um sangrento tumulto?

    . LOVERBOY, de Catalin Mitulescu



    Luca (George Pistereanu) tem 20 anos, reside numa pequena cidade junto ao Danúbio e seduz mulheres para depois vendê-las a uma rede de tráfico humano que opera no Mar Negro. Quando conhece e apaixona-se por Veli (Ada Condeescu), Luca decide rever o seu estilo de vida.

    . TRABALHAR CANSA, de Marco Dutra e Juliana Rojas



    Helena (Helena Albergaria), jovem dona de casa, decide abrir a sua própria mercearia. Para dedicar-se ao negócio, contrata Paula (Naloana Lima) para tomar conta da filha. Mas quando o seu marido Otávio (Marat Descartes) é subitamente demitido, as relações entre estas três personagens alteram-se e acontecimentos perturbadores ameaçam a rentabilidade do estabelecimento.

  • Fora de Competição

  • . MIDNIGHT IN PARIS, de Woody Allen



    Comédia romântica sobre uma família americana que viaja em negócios para Paris. Aí, um jovem casal (Owen Wilson e Rachel McAdams) é forçado a testar a ilusão de que uma vida diferente é sempre melhor que a actual.

    . THE BEAVER, de Jodie Foster



    Atormentado pelos seus "demónios interiores", Walter Black (Mel Gibson), em tempos um chefe de família e executivo bem sucedido, cai numa profunda depressão. Por mais que se esforce, Walter parece não ser capaz de se reencontrar... até que a marioneta de um castor entra na sua vida.

    . PIRATES OF THE CARIBBEAN: ON STRANGER TIDES, de Rob Marshall



    A enigmática Angelica (Penélope Cruz) obriga o Capitão Jack Sparrow (Johnny Depp) a embarcar numa imprevisível viagem em busca da Fonte de Juventude.

    . IN FILM NIST, de Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb



    Um dia na vida do cineasta Jafar Panahi, antes da celebração do Novo Ano Iraniano.

    . LES BIEN-AIMES, de Christophe Honoré



    Da Paris dos anos 60 até à Londres do Século XXI, Madeleine (Catherine Deneuve) e a sua filha Vera (Chiara Mastroianni) entram e saem da vida dos homens que amam. Mas nem todas as épocas permitem sentir o amor com a mesma ligeireza. Como resistir ao tempo que corrói os nossos sentimentos mais profundos?

    --//--

    O programa completo do Festival, nas suas várias secções, pode ser consultado aqui.

    [Fontes: sinopses traduzidas a partir da informação disponível no site oficial do Festival; imagens retiradas do Mubi.]