quarta-feira, janeiro 20, 2010

NAS NUVENS (2009), de Jason Reitman



A princípio, NAS NUVENS tinha todo o aspecto de ser o feel good movie of the year, explanando relações amorosas e profissionais sob o signo do estilo cinético que Jason Reitman havia engendrado com OBRIGADO POR FUMAR (2005) e JUNO (2007). Nunca o marketing de um filme foi tão enganador...

Digo enganador porque NAS NUVENS será, provavelmente, um dos filmes mais crus a surgir com a "capa" do Classical Hollywood Style nos últimos anos. Procura analisar as escolhas que, todos os dias, determinam o nosso estilo de vida, a nossa profissão e, até, o nosso estado civil. Aborda, eficazmente, o clima de insegurança financeiro que domina a agenda informativa contemporânea. Demonstra a angústia de milhares face à ameaça da perca de postos de trabalho e como encarar, com necessária humanidade, um indivíduo e transmitir-lhe que está no desemprego. E é, acima de tudo, um estudo sobre a ausência de ligação emocional entre seres humanos num mundo cada vez mais globalizado, onde «tudo está ao alcance de um clique» e «cada cliente é um amigo».



É este ambiente (des)personalizado que Ryan Bingham (George Clooney) apelida de "lar". Executivo de uma empresa especializada na comunicação de despedimentos e downsizings — ou "orientação de carreira", como o protagonista denomina a tarefa —, Bingham emerge no ecrã como um indivíduo metódico, detentor de uma organização pessoal que roça o obsessivo e em pleno conforto quando se vê rodeado por estranhos numa fila de espera ou a bordo de um avião. Existência calculista que determina os dois grandes objectivos da sua vida: alcançar a marca dos 10 milhões de milhas de passageiro frequente da American Airlines e não embarcar numa relação sentimental, seja ela familiar ou amorosa.

Contudo, o seu panorama alterar-se-á, principalmente, pela ligação que efectua com as duas mulheres da história: Alex (Vera Farmiga), atarefada mulher de negócios com quem Bingham partilha hábitos pessoais e quartos de hotéis, e Natalie (Anna Kendrick), jovem colega de Bingham que impressiona o patrão de ambos com um esquema de videoconferência online, apropriado à comunicação de rescisões contratuais, eliminando assim o recurso às longas e dispendiosas deslocações aéreas pelos quatro cantos dos EUA que "alimentam" a vida do protagonista.



O contacto e experiências com estas duas figuras femininas, de idades e prioridades díspares, levarão Bingham a rever os seus dogmas mais básicos.

Natalie (fabulosa composição de Anna Kendrick, capaz de relegar Clooney para segundo plano sempre que partilham o ecrã), apesar da sua presunçosa e agressiva auto-estima inicial, é o protótipo da "geração educada à frente dos computadores" e, por isso, incapaz de lidar com emoções genuinamente humanas, sejam as inerentes à comunicação de um despedimento ou ao súbito término do seu namoro (ironicamente, através de um frio e distante SMS). Será Bingham quem devolverá carácter e esperança à jovem "aprendiz", evocando as mesmas estratégias que utiliza para convencer um recém-desempregado que «tudo não passa duma nova fase da sua vida». E Alex, que representa a maior perspectiva de compromisso matrimonial que alguma vez surgiu para Bingham, demonstra ser menos livre e mais libertina do que a princípio imaginaríamos.



Nestes "conflitos" narrativos, torna-se premente elogiar o trabalho de Jason Reitman na exploração da presença de George Clooney (da qual é impossível não gostar) e os traços da personagem que desempenha (de quem desejamos gostar, por ser encarnada por Clooney!), de tal modo que é difícil notar qualquer tragédia iminente. No final, percebemos que Bingham pode ser caracterizado como um anti-herói dos tempos modernos, cujo drama pessoal não o transforma na vítima maior desta história. Apoiado pelo seu habilidoso discurso directo e simpatia estampada num inflexível sorriso de conforto, o seu ganha-pão é causador de profundos tumultos nas vidas de centenas — os testemunhos na primeira pessoa desses dispensados (dos quais, a maioria é genuína), constituem os reais momentos dramáticos de NAS NUVENS.

Manifestando-se como um híbrido satisfatório de entretenimento acessível ao espectador comum e a reflexão acerca dos lucros e prejuízos no actual contexto sócio-económico mundial, NAS NUVENS resvala, a espaços, para territórios cinematograficamente mais "seguros". Do sentimentalismo (servido pelo enredo secundário do envolvimento de Bingham durante o casamento de uma das suas irmãs) à comédia de costumes, o desenvolvimento desses mecanismos é apresentado em doses equilibradas e de forma positivamente original.
Em nota pessoal, NAS NUVENS é um dos melhores filmes norte-americanos de 2009.

1 comentário:

Oscar disse...

Legal seu comentário sobre o "Up In The Air".
Quase não abri o post porque aqui no Brasil o filme se chama "Amor Sem Escalas".

Também fiz um comentário sobre o filme. Caso queira ler está em:
http://cinemacommel.blogspot.com/2010/01/amor-sem-escalas.html

Abraços

Oscar R. Júnior
Florianópolis, SC - Brasil