quinta-feira, setembro 09, 2010

Festival de Veneza 2010 — Dia 8



Um dia depois de Casey Affleck ter apresentado novo filme, foi a vez do irmão Ben trazer a "sua" Boston nativa até Veneza com THE TOWN (fora de Competição).



O argumento foca um grupo de assaltantes de bancos cujos métodos primam pela violência e ameaça psicológica. Mas o líder (interpretado pelo próprio Ben Affleck) apaixona-se pela gerente do banco onde o último golpe foi cometido, semeando a discórdia entre os membros do gangue. Inspirado em factos verdadeiros, o realismo do filme não deixou de ser abordado na conferência de imprensa: «a realidade social deste filme foi muito importante para mim», afirmou Affleck, acrescentando que «não é possível gostar ou acreditar nesta história se não existir um forte sentido de espaço, transmitindo a ideia de que estas personagens são mesmo de Boston e que tudo o que vemos está mesmo a acontecer».

Apesar da tónica comercial de THE TOWN, a crítica elogiou este segundo trabalho de Ben Affleck enquanto realizador. Embora não estejamos perante uma obra revolucionária, a «atenção ao detalhe, através do qual se exibe o passado de todas as personagens» possibilita um filme de «grande entretenimento e emoção (...) que demonstra a inteligência e visão do seu realizador».

Affleck e Rebecca Hall, o duo romântico de THE TOWN

Depois de ESTADO DE GUERRA, Veneza não é lugar incógnito para Renner — e ele demonstra-o

Mais uma oportunidade (neste caso, talvez falhada) para o cinema grego demonstrar a sua vitalidade recente, deste vez com ATTENBERG (Em Competição), de Athena Rachel Tsangari.



Narrativa íntima e surreal sobre uma jovem incapaz de compreender coisas como o amor, sexo e morte, ATTENBERG foi recebido friamente em Veneza. A realizadora, não escondendo as dificuldades que enfrentou para completar este filme, salientou que «existe uma nova geração de cineastas gregos muito dependentes de uma metodologia independente, ainda para mais com a actual crise económica do nosso país». Não admira, portanto, que «a ideia de construir um filme através de todos os meios necessários permite uma maior liberdade criativa».

Um esforço que não parece ter sido "recompensado" pela imprensa, já que «não oferece qualquer tema ou ideia discernível, apesar da actriz principal exibir um desempenho cativante». Em suma, «um filme imperfeito, mas original, que chama a atenção para a diretora Athena Rachel Tsangari».

Athena Rachel Tsangari (ao centro), uma nova esperança do cinema grego

Abdellatif Kechiche, talvez o realizador tunisino mais conceituado da actualidade, voltou a Veneza para apresentar VENUS NOIRE (Em Competição).



Acolhido de forma "morna" pelo Festival — desde os espectadores até aos críticos —, o filme demonstra as sensibilidades próprias de Kechiche ao narrar a história verdadeira de Saartjie Baartman, jovem sul-africana que, no Séc. XIX, percorreu a Europa num circo de aberrações devido a uma rara deficiência física. Na conferência de imprensa, o realizador confessou a "agenda" política que o motivou a filmar VENUS NOIRE, realçando que «as teorias dos cientistas do passado ecoaram e continuam a ecoar na História recente, por exemplo nas origens do Fascismo». A situação do repatriamento de ciganos em França também não deixou de ser abordada, com Kechiche a mostrar-se «muito preocupado, quase angustiado, com as imagens das expulsões».

A crítica dividiu-se. Entre os que consideram VENUS NOIRE «uma obra notável sobre a sociedade do espectáculo e a dignidade humana», houve quem mostrasse depreciação «não só [pela] longa duração como as cenas repetitivas, detalhadas e por vezes excessivas do que se pode chamar de tortura de Saartjie foram questionadas». Mas a grande vencedora do dia foi mesmo Yahima Torrès, que interpreta Saartjie com «uma dignidade incontestável».

Yahima Torrès, revelação do Festival, posa ao lado de Abdellatif Kechiche

O cinema português, a vários níveis, esteve representado ontem no Festival. João Nicolau, com A ESPADA E A ROSA, e DARMA GUNS — SUCESSION STARKOV, rodado quase inteiramente nos Açores pelo francês F.J. Ossang, foram exibidos na Secção Orizzonti.

Reacções apenas conhecidas para A ESPADA E A ROSA, a obra mais longa da secção em que concorre e apelidada de «filme de utopias, aventuras, solidão e fim de Verão».



Sobre DARMA GUNS — SUCESSION STARKOV, Ossang descreveu-o como «um filme primitivo, dividido em três movimentos, três espaços-tempo em que o herói tenta, como Orfeu, resgatar a noiva do Inferno». Infelizmente, não é conhecida, até ao momento, nenhuma apreciação crítica à película.



Imagens retiradas de: Site Oficial do Festival e Associated Press.

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