domingo, junho 05, 2011

5 Momentos Memoráveis

#14: Remakes "toleráveis"

Fenómeno definitivamente instalado no panorama cinematográfico norte-americano, o remake manifesta-se tanto pela adaptação de sucessos críticos e de bilheteira internacionais à língua, hábitos e contextos dos EUA, assim como através da actualização de clássicos americanos. É, também, sintoma da badalada crise de criatividade que Hollywood, aparentemente, não encontra argumentos para esbater e um caminho seguro para o retorno do investimento aplicado na "reformulação de um filme".



Talvez por isso, o Keyzer Soze confessa a sua escassa atracção por este género de projecto. Ideias como refazer frame por frame um título existente — é exemplo disso, e como a imagem acima ilustra, PSICO (1998, Gus Van Sant) — ou a mencionada "americanização" de filmes como O ACOSSADO (refeito em 1983 com o título O ÚLTIMO FÔLEGO), O HOMEM QUE QUERIA SABER (A DESAPARECIDA, 1993) ou AS ASAS DO DESEJO (transposto em 1998 como CIDADE DOS ANJOS) saldaram-se em algo aquém do positivo.

Os remakes de CÃES DE PALHA (1971, Sam Peckinpah) e MILLENNIUM 1. OS HOMENS QUE ODEIAM AS MULHERES (2009, Niels Arden Oplev), previstos para 2011, servem de mote à recordação dos filmes que, embora produzidos nesses moldes, o Keyzer Soze não "desdenha". Como sempre, a opinião pessoal foi predominante nas escolhas que se seguem.

MENÇÃO HONROSA: THE RING — O AVISO (2002), de Gore Verbinsi



Remake de RINGU (1998, Hideo Nakata), não altera a história original — a investigação de uma jornalista sobre uma cassete VHS que provoca a morte do espectador sete dias depois do seu visionamento — mas capta, eficazmente, a atmosfera de terror e subtil metáfora aos perigos da tecnologia que celebrizaram o filme nipónico.

Original:



Remake:



5. VANILLA SKY (2001), de Cameron Crowe



Remake de DE OLHOS ABERTOS (1997, Alejandro Amenábar), é a transposição literal de um argumento situado em Espanha para Nova Iorque, à qual Cameron Crowe acrescentou uma série de referências visuais pop (sobretudo musicais). A presença de Tom Cruise permitiu uma maior e merecida exposição ao fantástico surrealismo do filme original.

Original:



Remake:









4. O CABO DO MEDO (1991), de Martin Scorsese



Remake de CAPE FEAR (1962, J. Lee Thompson), esteve durante alguns anos nas mãos de Steven Spielberg até ao momento em que trocou de projectos com Scorsese (o outro filme em causa era A LISTA DE SCHINDLER). Através das óbvias comparações que se estabelecem entre Robert Mitchum e Robert De Niro, notam-se as diferenças no estilo cinético de filmar uma ameaça chamada Max Cady, um dos psicopatas mais inesquecíveis da História da Sétima Arte.

Original



Remake



3. OS SETE MAGNÍFICOS (1960), de John Sturges



Remake de OS SETE SAMURAIS (1954, Akira Kurosawa), partilha essencialmente a mesma história do original. A grande diferença reside no foco de cada filme: enquanto Kurosawa centrou-se nas emoções das personagens (situação potenciada pela sua belíssima fotografia a preto e branco), Sturges apostou no western épico e dinâmico que o tempo se encarregou de torná-lo num título obrigatório.

Original:



Remake:









2. A MOSCA (1986), de David Cronenberg



Remake de A MOSCA (1958, Kurt Neumann), serviu de base às habituais obsessões de Cronenberg pela "mutação da carne humana" — sem dúvida, o chavão que, quase academicamente, resume a sua filmografia —, concretizado numa tremenda obra com um poder recíproco de fascínio e choque. O que alguns espectadores viveram em 1958 foi duplicado em 1986...

Original:



Remake:



1. SCARFACE — A FORÇA DO PODER (1983), de Brian De Palma



Remake de SCARFACE, O HOMEM DA CICATRIZ (1932, Howard Hawks), foi tão ou mais polémico que o original na sua data de estreia, modernizando sem relativizar os temas políticos subjacentes ao primeiro filme. Com Al Pacino no seu papel mais carismático, possui frases memoráveis em Cinema nos últimos 30 anos. Em suma, mereceria um post inteiro sobre os porquês de ser o meu remake predilecto.

Original:



Remake:



8 comentários:

Pedro Ponte disse...

Bem, tendo esta tua lista surgido daquela nossa conversa na altura do trailer de THE GIRL WITH THE DRAGON TATTOO, é adequado que seja o primeiro a comentar. :)

É difícil não sentir antipatia pelo próprio conceito de remake, porque na sua essência, hoje em dia, é o acto de copiar e, como dizes, servir-se de algo já criado com vista a fazer dinheiro, muitas vezes aproveitando-se da fan-base dos filmes originais. De qualquer forma, não é sempre esse o caso, algo que a tua lista espelha bem. Por mais que se valorizem certos filmes, muitos deles clássicos, há casos em que é "justificável" refazer um filme, adaptá-lo a uma realidade política, social ou até geográfica diferente. Não é, obviamente, o que se verifica hoje em dia, em que um filme sai na Europa e no ano seguinte o respectivo remake já está pronto a avançar do outro lado do oceano. Por esse tipo de remake, não tenho respeito rigorosamente nenhum. Mesmo que ele venha da parte de alguém como David Fincher.

Para além dos que mencionas, há outros que deviam aí aparecer, começando por THE THING, de John Carpenter, que em minha opinião é mesmo O melhor já feito. A FISTFUL OF DOLLARS, de Leone, é, como THE MAGNIFICENT SEVEN, uma transposição perfeita do género samurai para o western, tal como NOSFERATU THE VAMPIRE, de Herzog, que é tudo o que o filme de Murnau tinha sido, mais de 50 anos atrás. Em termos mais recentes, DAWN OF THE DEAD, de Zack Snyder, é uma homenagem ao filme de Romero antes sequer de ser um "remake", e por isso mesmo é tão bom. INSOMNIA, de Christopher Nolan, é daqueles casos em que o remake ajudou genuinamente o original (porque, digam o que disserem, grande percentagem daqueles que viram o filme viram-no porque queriam ver o original) e THE DEPARTED é um grande filme, independentemente de ser um remake ou não. Podia perfeitamente não o ser. THE MAN WHO KNEW TOO MUCH, de Hitchcock, é também um caso interessante por ser a primeira ocasião em que um realizador refez o seu próprio filme, algo que aliás se tornaria comum - numa espécie de 'statemente' e recusa a deixar outra pessoa tocar em algo que lhe pertence por definição. É o caso de FUNNY GAMES US, de Michael Haneke.

Haverão certamente mais, mas estes são alguns daqueles que não me incomodam porque têm uma razão de ser. A partir do momento em que deixam de ter, está tudo estragado.

Abraço.

annastesia disse...

Realmente. Bastante "tolerável" essa lista. Admito que gosto de alguns e faço um esforço para tolerar outros. Mas há um que, pra mim, é inaceitável: a pretensão de Van Sant e seu "remake" de Psycho.

Sam disse...

Pedro, realmente ponderei incluir o A FISTFUL OF DOLLARS nesta lista, mas optei por estes seis títulos. E sim, o remake é um fenómeno muito ambíguo...

P.S.: este teu "primeiro lugar" é mais que merecido; e vamos ter a tua lista? :)

annastesia, ainda estou para saber no que estava o Van Sant a pensar com aquilo...

DiogoF. disse...

Não me costumo dar bem com remakes, não.

Tiago Ramos disse...

Eu confesso que fujo à maioria e não descarto logo um filme apenas por ser remake. Há remakes de boa qualidade, mesmo que não cheguem a atingir o auge do original. É verdade. A questão coloca-se: porquê uma cópia, se existe um original? É verdade, talvez não fosse preciso... de qualquer modo...

Parece-me impossível não concordar com a tua lista, jogaste pelo seguro e é inevitável considerá-los bons filmes. Alguns deles nem me recordava que eram remakes...

Sarah disse...

Concordo que fazer remakes demonstram, talvez, alguma falta de criatividade dos argumentistas, e ainda por cima, a maior parte dos remakes falham miseravelmente. No entanto, não gosto de deter a ideia pré concebida de que todos os remakes são mau, porque felizmente existem excepções. The Ring (2002) é sem dúvida a principal excepção. Creio que consegue superar o original, de longe. Mas também depende de quando se vê o original. Eu vi o original depois de ter visto a versão americana, logo já não existia o factor surpresa.
The Fly (1986) está qualquer coisa de extraordinário, acho que Cronenberg esmerou-se. Vi o filme em pequena e fiquei super traumatizada com a transformação da personagem ahah.

Sarah
http://depoisdocinema.blogspot.com

Elisabete Cardoso disse...

I don't think it's sacrilegious to remake any movie, including a good or even great movie.
Jonathan Demme

Eu também não! Depende da perspectiva com que se olha, pois um remake não deixa de ser um exercício criativo de alguém que pensa que pode fazer melhor, diferente e/ou até mais dinheiro, porque não. Prefiro acreditar que a inspiração ou a falta dela possa vir do trabalho do que de uma força divina qualquer.
Parabéns pelo post e pelo blog :)

django disse...

Que tal "The talented mr. Ripley" - A. Minghella - ( aqui no Brasil "O talentoso Ripley" ) que parece-me superar com folgas "Plein soleil" - R. Clement - ( cá em Brasil "O sol por testemunha" ) embora considere muito difícil fazer comparações desta natureza pelo fato das produções serem feitas geralmente em contextos inteiramente diferentes.
Abraços do Rio de Janeiro