Falar de VANILLA SKY é ter de mencionar, obrigatoriamente, aquela cena inicial em que o protagonista se vê desamparado numa Nova Iorque deserta, culminando no pânico de correr pela Times Square sem vivalma que acolha os seus medos. Logo de seguida, entendemos que são imagens de um pesadelo que nos mergulha, intensamente, em direcção a um intrépido e surreal cenário de ficção-científica misturado com a sensibilidade romântico-pop — ou não fosse ele o realizador dessa "ode" ao rock dos anos 70 chamada QUASE FAMOSOS (2000) — que vive em Cameron Crowe.
Remake do filme espanhol DE OLHOS ABERTOS (1997, Alejandro Amenabar), VANILLA SKY encontra em David Aames (Tom Cruise) o seu protagonista, o jovem, narcisista e playboy director de uma das maiores editoras dos Estados Unidos que, após encontrar em Sofia (Penélope Cruz) a mulher que poderia realmente alterar a sua vida, sobrevive a um acidente de viação — causado pelo ciúme de Julie (Cameron Diaz) — terrivelmente desfigurado. A partir desse momento, tanto David como o espectador são transportados através de um "espelho" em que a realidade e o sonho se intercalam continuamente.
As diversas fatalidades que acossam a personagem de Tom Cruise — aqui a registar uma das interpretações mais consistentes e subvalorizadas da sua carreira — são mais do que meros plot points. Na verdade, os temas de paranóia (será David vítima de uma conspiração com o intuito de lhe roubar o império empresarial que herdou?) e desilusão amorosa (Sofia aparenta ser, simultaneamente, um ambíguo mas terno interesse romântico) ecoam o sentimento geral norte-americano do princípio do Século XXI — e 2001 pareceu ser um ano pródigo nessa análise, DONNIE DARKO demonstrou-o. Tal como a última década veio a comprovar, nunca a frase "o dinheiro não traz felicidade" fez tanto sentido. E David Aames, na insegurança e desgraça que se lhe abate desde aquela referida sequência inaugural, acaba por simbolizar essa afirmação como poucos nos últimos anos.
Mantendo a história próxima do argumento de DE OLHOS ABERTOS e integrando-lhe obsessões muito pessoais — o cinema e a música, "a visão e o som dos sonhos" —, Cameron Crowe concretiza aqui uma das suas melhores obras. Algo de imensamente irónico, sobretudo quando nos lembrarmos de que não se trata de um produto oriundo da sua imaginação. Mesmo contrariando a bondade inata das personagens — numa aparente recusa em apresentar alguém que possamos classificar de mau que, em comparação, até se revela uma fraqueza autoral — dos seus filmes anteriores, VANILLA SKY é um genuíno dream movie. Ou de como nem todos os pesadelos devem ser ignorados apenas pelo seu conteúdo "traumático".
por Samuel Andrade.
Elenco
. Tom Cruise (David Aames), Penélope Cruz (Sofia Serrano), Kurt Russell (Dr. Curtis McCabe), Jason Lee (Brian Shelby), Cameron Diaz (Julianna "Julie" Gianni), Noah Taylor (Edmund Ventura / Apoio Técnico), Timothy Spall (Thomas Tipp), Tilda Swinton (Rebecca Dearborn)
Palmarés
. Academia de Cinema de Ficção-Científica, Fantasia e Terror: Melhor Actor (Tom Cruise)
Sobre Cameron Crowe
Com background de jornalismo musical na Rolling Stone, profundamente influenciado por Billy Wilder e adepto de argumentos focados nas personagens, Cameron Crowe alcançou sucesso na Sétima Arte com obras como VIDA DE SOLTEIRO (1992), JERRY MAGUIRE (1996), QUASE FAMOSOS (2000, pelo qual conquistou o Oscar para Argumento Original) e ELIZABETHTOWN (2004).
Cameron Crowe encontrou-se com Emma Stone, no restaurante de um hotel de Los Angeles, e não foi parco nas perguntas: os gostos musicais, as memórias de infância, as experiências profissionais e a confiança instintiva da actriz resumem a longa conversa entre os dois e agora publicada no site da Interview Magazine.
Emma Stone assume alguma timidez nas palavras, mas não na sua imagem, tal como a sessão fotográfica que acompanha a entrevista demonstra. Através da objectiva de Mikael Jansson, Stone parece quase andrógina e saída do videoclip de uma banda synthpop dos anos 80, sem nunca abandonar aquele semblante pueril que a celebriza.
São raras as expressões artísticas que detêm um carácter tão "plástico" como o Cinema. Enquanto existir material filmado, previamente descartado na sala de montagem mas disponível para visualização, será sempre possível observar as diferentes nuances de uma sequência sobejamente conhecida, descobrir momentos cinematográficos que se tornariam inesquecíveis ou absorver significados totalmente diferentes nos filmes que amamos.
A revitalização de sequências cortadas ganhou impulso com os director's cut (prática popularizada por Ridley Scott no seu BLADE RUNNER — PERIGO IMINENTE) de vários títulos, transformando a sua visualização em algo de emocionante para qualquer cinéfilo. Os momentos memoráveis também são feitos de sequências que, durante algum tempo, estiveram afastadas do olhar do grande público. Assim, aqui ficam cinco exemplos, acompanhados da habitual menção honrosa, de como "filme acabado" pode ser termo bastante enganador...
Um dos aspectos mais brilhantes de ALIEN — O 8º PASSAGEIRO é a sua sonoplastia, que desde o genérico coloca o espectador em permanente sentido de alerta, muito antes da revelação dos horrores que se abatem sobre a tripulação da Nostromo (e convém recordar que tal só sucede a partir da hora de filme...).
Resignados, por intermédio do computador de bordo, a investigar um sinal acústico de origem desconhecida, cedo se procede à sua descodificação. E caso esta sequência estivesse incluída na montagem final, a natureza agressiva do som assumir-se-ia como um dos primeiros grandes "sustos" do filme.
A semântica e grandiloquência das palestras de "auto-motivação masculina", promovidas por Frank 'TJ' Mackey (Tom Cruise), constituem um dos momentos altos do impressionante filme-mosaico que é MAGNOLIA. Contudo, observar o próprio Mackey a colocar em prática os seus "ensinamentos" oferece toda uma nova dimensão, não só à própria personagem, como também ao contexto dramático em que se insere.
Continuo a achar que Tom Cruise deveria ter sido o recipiente do Óscar de Melhor Actor Secundário daquele ano. Para além da convicção com que proferiu frases como "Respect the cock!" ou "Fucking Denise! Denise the Piece!", eis aqui mais alguns argumentos para apoiar esta opinião...
Neste que é, para mim, o "rei" de todos os mockumentaries, o processo de montagem foi tudo menos nobre. Embora os motivos que justificaram o corte de sequências como esta, ou desta também, permaneçam em mistério, há que agradecer aos deuses da preservação cinematográfica pelo quarto lugar da presente lista.
Bruno Kirby, no papel do motorista dos Spinal Tap, descobre, da forma mais hilariante possível, os surpreendentes efeitos de substâncias psicotrópicas — e somos brindados com uma preciosa amostra do talento de Kirby, actor a quem falta prestar devido reconhecimento mediático.
Neste tour de force cuja duração excede os 190 minutos, excisar-lhe uma sequência de dez minutos que encena uma reunião pouco amistosa entre Richard Nixon e Richard Helms, naquela altura director da CIA, afigurou-se como decisão lógica e nada prejudicial para a compreensão integral deste magnífico e subvalorizado biopic.
Embora se limite a reforçar temas sobre a vida de Nixon que o filme já explora em vários momentos-chave — as memórias traumáticas da sua infância, o passado político obscuro, os caminhos sinuosos que a sua Administração percorreu, etc. —, merece destaque nesta lista por provar que é possível haver dinâmica num "simples" confronto de palavras e ideias, enriquecida pelo (saudoso) estilo de montagem histórico-intelectual de Oliver Stone e ainda nos proporciona uma fabulosa declamação do poema The Second Coming, de W.B. Yeats. Electrizante.
Só com o argumento de que "abrandaria o ritmo" do filme se pode explicar a omissão desta hilariante sequência. Reveladora do lado mais bipolar e diabólico de Sam Quint (Robert Shaw) que só testemunhamos na última meia hora de filme, vemo-lo aqui entretido a atormentar os esforços de um jovem clarinetista durante uma interpretação da Nona Sinfonia de Beethoven.
Sendo tarefa quase impossível determinar o seu contexto no filme de Spielberg, atesta que Quint será, muito provavelmente, a primeira personagem da história do Cinema a merecer um filme só seu — fosse ele prequela ou spin-off...
Cameron Crowe afirmou que, caso soubesse que lhe seria vedada permissão para incluir esta sequência na montagem final, muito provavelmente nunca faria QUASE FAMOSOS. À última da hora, a produção não conseguiu assegurar os direitos de «Stairway to Heaven», dos Led Zeppelin, e observando a cena, percebe-se como não faria qualquer sentido utilizar outro tema que não esse para o jovem protagonista (Patrick Fugit) demonstrar à sua mãe (Frances McDormand), reticente em deixar o filho adolescente acompanhar uma tournée de um grupo musical, o poder do rock'n'roll.
Dez fabulosos minutos de Cinema, recheados de elementos visuais e sonoros que nenhum cinéfilo se deveria privar de assistir.
Fenómeno definitivamente instalado no panorama cinematográfico norte-americano, o remake manifesta-se tanto pela adaptação de sucessos críticos e de bilheteira internacionais à língua, hábitos e contextos dos EUA, assim como através da actualização de clássicos americanos. É, também, sintoma da badalada crise de criatividade que Hollywood, aparentemente, não encontra argumentos para esbater e um caminho seguro para o retorno do investimento aplicado na "reformulação de um filme".
Talvez por isso, o Keyzer Soze confessa a sua escassa atracção por este género de projecto. Ideias como refazer frame por frame um título existente — é exemplo disso, e como a imagem acima ilustra, PSICO (1998, Gus Van Sant) — ou a mencionada "americanização" de filmes como O ACOSSADO (refeito em 1983 com o título O ÚLTIMO FÔLEGO), O HOMEM QUE QUERIA SABER (A DESAPARECIDA, 1993) ou AS ASAS DO DESEJO (transposto em 1998 como CIDADE DOS ANJOS) saldaram-se em algo aquém do positivo.
Os remakes de CÃES DE PALHA (1971, Sam Peckinpah) e MILLENNIUM 1. OS HOMENS QUE ODEIAM AS MULHERES (2009, Niels Arden Oplev), previstos para 2011, servem de mote à recordação dos filmes que, embora produzidos nesses moldes, o Keyzer Soze não "desdenha". Como sempre, a opinião pessoal foi predominante nas escolhas que se seguem.
Remake de RINGU (1998, Hideo Nakata), não altera a história original — a investigação de uma jornalista sobre uma cassete VHS que provoca a morte do espectador sete dias depois do seu visionamento — mas capta, eficazmente, a atmosfera de terror e subtil metáfora aos perigos da tecnologia que celebrizaram o filme nipónico.
Remake de DE OLHOS ABERTOS (1997, Alejandro Amenábar), é a transposição literal de um argumento situado em Espanha para Nova Iorque, à qual Cameron Crowe acrescentou uma série de referências visuais pop (sobretudo musicais). A presença de Tom Cruise permitiu uma maior e merecida exposição ao fantástico surrealismo do filme original.
Remake de CAPE FEAR (1962, J. Lee Thompson), esteve durante alguns anos nas mãos de Steven Spielberg até ao momento em que trocou de projectos com Scorsese (o outro filme em causa era A LISTA DE SCHINDLER). Através das óbvias comparações que se estabelecem entre Robert Mitchum e Robert De Niro, notam-se as diferenças no estilo cinético de filmar uma ameaça chamada Max Cady, um dos psicopatas mais inesquecíveis da História da Sétima Arte.
Remake de OS SETE SAMURAIS (1954, Akira Kurosawa), partilha essencialmente a mesma história do original. A grande diferença reside no foco de cada filme: enquanto Kurosawa centrou-se nas emoções das personagens (situação potenciada pela sua belíssima fotografia a preto e branco), Sturges apostou no western épico e dinâmico que o tempo se encarregou de torná-lo num título obrigatório.
Remake de A MOSCA (1958, Kurt Neumann), serviu de base às habituais obsessões de Cronenberg pela "mutação da carne humana" — sem dúvida, o chavão que, quase academicamente, resume a sua filmografia —, concretizado numa tremenda obra com um poder recíproco de fascínio e choque. O que alguns espectadores viveram em 1958 foi duplicado em 1986...
Remake de SCARFACE, O HOMEM DA CICATRIZ (1932, Howard Hawks), foi tão ou mais polémico que o original na sua data de estreia, modernizando sem relativizar os temas políticos subjacentes ao primeiro filme. Com Al Pacino no seu papel mais carismático, possui frases memoráveis em Cinema nos últimos 30 anos. Em suma, mereceria um post inteiro sobre os porquês de ser o meu remake predilecto.
Antes de passar a esta "embaraçosa" listagem two-in-one (uma estreia na rubrica dos 'Momentos Memoráveis'), é preciso compreender a definição de 'guilty pleasure' em Cinema: basicamente, são aqueles títulos detentores de um lugar especial no nosso "coração cinéfilo" mas que, pela fraca recepção crítica e pública que obtiveram ou pelos seus inferiores valores artísticos (à luz dos critérios que elevam um filme à controversa denominação «de qualidade»), dificilmente admitimos essa afeição junto de outrem.
Assim, aos leitores deste blogue me confesso e partilho cenas memoráveis dos cinco (e adequada menção honrosa) 'guilty pleasures' da minha vida:
Menção Honrosa:VANILLA SKY (2001), de Cameron Crowe
Se o conceito de um remake de ABRE LOS OJOS (1997, Alejandro Amenabar) não fosse afronta suficiente, reproduzir uma das obras europeias de ficção científica mais geniais dos anos 90 com Tom Cruise, Cameron Diaz e Penélope Cruz (reencarnando exactamente o mesmo papel que desempenhara no título original) e inundá-la de referências culturais Pop norte-americanas foi a gota de água para a crítica especializada, que não tardou em arrasar este VANILLA SKY aquando da sua estreia. Até o público o abominou — lembro-me bem da ruidosa desilusão demonstrada pelos espectadores que estavam comigo na sala quando vi o filme...
Mas VANILLA SKY suscitou em mim um enorme parecer positivo. Não só fui revê-lo no dia seguinte, como adquiri tanto a respectiva banda sonora e o VHS que preservei até aos dias de hoje. Não senti qualquer pena do público nem da crítica que esperavam mais desta obra de Cameron Crowe (afinal de contas, o cineasta ainda desfrutava do sucesso, no ano anterior, de QUASE FAMOSOS), como também "censurei" a premeditação de que um filme com este elenco só poderia ser uma comédia romântica e pouco exigente para células cinzentas humanas.
E a sequência abaixo destacada, extraída dos primeiros minutos do filme, constitui um dos melhores indicadores por mim observados de que VANILLA SKY iria "romper" com uma ou outra norma de comédias românticas...
Outro remake a figurar nesta lista, O ÚLTIMO A CAIR é vagamente baseado no clássico YOJIMBO, O INVENCÍVEL de Akira Kurosawa (que já havia sido reinterpretado por Sergio Leone em POR UM PUNHADO DE DÓLARES). Enquanto que a história original abordava temáticas como a honra e a paz, Walter Hill apostou num 'western do puro e do duro', ofegantemente dominado pela poeira tórrida do deserto norte-americano e a apatia expressiva de Bruce Willis no papel de um solitário que decide, pelo mero prazer de sentir a combustão da pólvora em revólveres, terminar com a luta entre os grupos rivais que avassala a cidade texana de Jericho.
A acção é súbita, explosiva, violenta e quase caricata — uma visão típica dos westerns produzidos nos anos 90 e são exemplos disso RÁPIDA E MORTAL (1995, Sam Raimi) ou HOMEM MORTO (1995, Jim Jarmusch) — e a sequência que destaco de O ÚLTIMO A CAIR demonstra essas características. Se somarmos que o vilão principal é interpretado por Christopher Walken (nenhum actor consegue entrar tão facilmente em "modo automático" de antagonia como ele), estão reunidas todas as condições para um dos 'guilty pleasures' que revejo com mais frequência e admito, muitas vezes, encará-lo como uma referência para o renascimento contemporâneo do género «Oeste Selvagem».
Antes de Terry Gilliam conceber a sua adaptação ao grande ecrã, já eu conhecia e prezava o livro de Hunter S. Thompson, considerando-o como uma daquelas obras totalmente "infilmáveis". Pois bem, o ex-Monty Python provou o contrário ao escolher Johnny Depp (Raoul Duke, um caricatural sósia do romancista) e Benicio Del Toro (no papel de Dr. Gonzo, o inflado advogado do protagonista) para conceber uma das películas mais curiosas e representativas sobre acid trips e excessos característicos de Las Vegas.
DELÍRIO EM LAS VEGAS é inteiramente filmado no estilo que a sequência abaixo demonstra: constantes e surpreendentes representações de alucinações e esquizofrénicos close-ups registados com lentes angulares transformam as personagens em desenhos animados, transmitindo-nos a sensação de que a película decorre num País das Maravilhas adequado para "Alices" sem pavor de caírem na toca do coelho. Para além disso, o filme é povoado pelo mais interessante elenco de cameos de que há memória, com fugazes aparições de Tobey Maguire, Gary Busey, Ellen Barkin, Christina Ricci, Cameron Diaz, Harry Dean Stanton e o próprio Hunter S. Thompson.
No final, tanto o livro como o filme parecem ser uvas da mesma casta...
Antes de qualquer consideração, atentemos ao estado da carreira de Demi Moore na época em que G.I. JANE — ATÉ AO LIMITE estreou. Era a actriz mais bem paga e rainha da controvérsia de Hollywood. "Fresca" do sucesso e (sobretudo) polémica que STRIPTEASE gerara, Moore embarcou neste drama militar, sobre as hipóteses do factor girl power no seio do universo machista dos Fuzileiros norte-americanos, disposta a tudo: rapou o cabelo (acto que lhe "engordou" o salário), aumentou a sua musculatura e vociferou algumas das linhas de diálogo mais improváveis para uma actriz do seu estatuto — sendo "Master Chief... suck my dick!" a mais infame de todas.
Mas G.I. JANE — ATÉ AO LIMITE não é um 'guilty pleasure' apenas pela presença de Demi Moore. Ridley Scott aposta sempre muito no visual dos seus filmes, tornando-os atraentes até para os tecnicamente mais leigos, e o filme demonstrou a emergência do talento de um actor escandinavo-americano chamado Viggo Mortensen, que viria a afirmar-se na trilogia de Peter Jackson O SENHOR DOS ANÉIS (2001, 2002 e 2003). Encarnando o sargento de instrução mais duro desde NASCIDO PARA MATAR (1987, Stanley Kubrick), a sua primeira aparição não se consubstancia num chorrilho de humilhantes agressões verbais aos recrutas, mas através da declamação de um dos poemas mais tocantes sobre a fragilidade da natureza humana alguma vez escritos. É essa sequência que agora destaco.
(O poema é de D.H. Lawrence e reza assim: "I never saw a wild thing sorry for itself. A bird will fall frozen dead from a bough without ever having felt sorry for itself.")
Dos filmes cujos percursos ficaram imediatamente afectados pelo 11 de Setembro de 2001, OPERAÇÃO SWORDFISH foi o que mais "danos colaterais" registou. A seu favor, tinha produção de Joel Silver, "mago" das super-produções de Hollywood, um elenco de alto calibre (John Travolta, Hugh Jackman, Don Cheadle e, sobretudo, Halle Berry a ocupar a vaga de femme fatale com pouca ou nenhuma roupa), diálogos que podiam muito bem ter sido dactilografados por Quentin Tarantino e sequências de acção quase "orgiásticas" nos seus índices de devastação urbana.
Com todos estes ingredientes, o que poderia falhar? Obviamente, o contexto temporal da sua estreia não foi o mais favorável à sugestão de planos ultra-secretos para derrubar estados que acolhem terroristas como refugiados políticos ou visões de prédios a explodir com contornos demasiado semelhantes aos observados nas Torres Gémeas em 2001 — como resultado, OPERAÇÃO SWORDFISH "desapareceu" rapidamente de circulação. Deste modo, privou-se uma franja considerável de espectadores de um dos actioners que mais empreendeu na difícil tarefa de aliar um argumento coerente com a pura adrenalina ilógica das suas sequências de acção.
E esses mesmos espectadores não puderam escutar a personagem de John Travolta, logo nos minutos iniciais, queixando-se da ausência de realismo que caracteriza a maioria do cinema mainstream norte-americano. Um monólogo que, neste contexto, reveste-se de fabulosa ironia e é o principal factor para a sua classificação de 'guilty pleasure' pessoal.
Ridicularizado, menosprezado e esquecido até à medula: foi este o saldo de O ÚLTIMO GRANDE HERÓI aquando da sua estreia e estes sinónimos tornaram-se num rótulo do qual o filme nunca se descolou. Contudo, foi conquistando, ao longo dos anos, um considerável número de fãs (incluindo eu) que se rendeu às suas cenas memoráveis e desenfreado sentido de auto-ironia. Arnold Schwarzenegger troçando da sua própria imagem? O Cinema de grande orçamento made in Hollywood a fazer pouco de si mesmo? A propositada abundância de clichés narrativos e erros de continuidade de uma ponta à outra do filme? Não serão motivos suficientes para se encarar O ÚLTIMO GRANDE HERÓI como algo de único e especial?
Tendo em conta a quantidade de produções menores que, actualmente, obtêm sucesso imediato sem reservas, continua a espantar-me o falhanço crítico e comercial deste filme. Com John McTierman, um dos melhores realizadores de acção (CAÇA AO OUTUBRO VERMELHO, 1990), ao leme das operações, uma irrepreensível interpretação de Charles Dance e Ian McKellen a surgir num divertido cameo como a personagem da Morte de O SÉTIMO SELO (1957, Ingmar Bergman) que emerge literalmente do ecrã de uma sala de cinema, poderia ocupar todo este espaço com as razões para admirar O ÚLTIMO GRANDE HERÓI.
Mas o seu ponto alto é, sem dúvida, a visão do actual Governador da Califórnia, na imaginação do jovem protagonista Danny Madigan (Austin O'Brien), encarnando Hamlet numa adaptação cinematográfica bastante "livre" do clássico texto de William Shakespeare. Poderia ver e rever esta sequência vezes sem conta e nunca me cansar daquele lacónico "Not to be!" que Schwarzenegger murmura antes de acender outro charuto...
Keyzer Soze é um personagem do filme de 1995, OS SUSPEITOS DO COSTUME.
Soze era o líder de uma secreta organização criminosa; a sua impiedosa personalidade e obscura influência granjeou-lhe um estatuto quase mítico entre agentes da lei e gangsters.
O seu papel no supreendente twist final do filme tornou-se num dos ícones da cultura popular dos anos 90.