quinta-feira, julho 21, 2011

#18



... segundo o Filipe Coutinho, do blog Cinema is my Life:

Nestas andanças costuma-se dizer que a lista que escolhemos é "a lista de hoje", ou seja, se a escolhessemos noutro dia, os nomes que figuram nela seriam distintos. Embora isso seja verdade, e por muito que custe fazer as escolhas, apresento aqui os dez filmes da minha vida. Não são os melhores da história, e provavelmente nem são os meus favoritos, mas são aqueles, que num dado período da minha vida, me fizeram acreditar no cinema, que me marcaram de uma determinada forma. E nesse particular, também é um dos meus critérios. Vários filmes marcaram-me ao mesmo nível mas pretendo, com esta selecção e trabalho de introspecção, indicar os filmes que me marcaram a níveis diferentes. Obviamente, muitos e bons filmes estão por ver e, como tal, daqui a uns anos os filmes que marcaram serão outros, mas hoje, aqui e agora, estes são os 10 filmes da minha vida:

1. CLUBE DE COMBATE
(1999, Fight Club, David Fincher)



Life changing Fight Club. Não são poucos os indivíduos a afirmá-lo. A subversiva obra de Fincher marcou-me profundamente numa altura em que a minha mentalidade estava a ser moldada. Para o bem ou para o mal, a mensagem pegou, mas mais do que isso, Fight Club fez-me olhar para o cinema com outros olhos, fez-me ver para além do entretenimento, do sexo e da violência. Fight Club mostrou-me o cinema como um media, o mais poderoso deles todos. Se hoje estudo, vivo e respiro cinema, tenho Fight Club a agradecer por isso, a Fincher, a Pitt, a Norton, a Uhls e a Palahniuk e a todos os que tornaram esta fita possível, já que sem ela, eu não seria o mesmo, sem ela, a pessoa em que me tornei nunca existiria. Fight Club não é o meu filme favorito mas é, sem qualquer margem para dúvidas, o filme da minha vida por excelência.

. CINEMA PARAÍSO
(1988, Nuovo Cinema Paradiso, Giuseppe Tornatore)



Muito provavelmente a experiência mais emocionalmente avassaladora que tive. Nunca um filme me tocou tanto. Não sei se é pela homenagem que faz ao cinema e à sua história, se é pela bela fábula que cria ou pela nostalgia que emana. Provavelmente são todas essas razões juntas e mais algumas. Certo é que apenas o vi uma vez. E não pretendo voltar a rever, pelo menos não num futuro próximo. Talvez seja o medo de não corresponder à experiência anterior ou mesmo a incapacidade de a repetir, mas as memórias de que dela guardo são muito vívidas e reais, e é tudo o que necessito para manter o filme vivo na minha mente. Afinal, Nuovo Cinema Paradiso não é bem um filme, é uma experiência, uma ode ao amor, seja ela pelo que for, uma ode ao ser humano e pela crença na bondade. E, como cereja no topo do bolo, tem, na minha opinião, o melhor término de fita de todos os tempos, aquele que em menos de três minutos resume uma história de mais de 100 anos.

. BOOGIE NIGHTS — JOGOS DE PRAZER
(1997, Boogie Nights, Paul Thomas Anderson)



Paul Thomas Anderson, o melhor contador de histórias do panorama do cinema americano actual. E que bela história é Boogie Nights: provocadora, honesta, épica e global e brilhantemente contada. São muitas e de grande qualidade as cenas memoráveis, seja aquele fabuloso plano-sequência de abertura ou um Alfred Molina drogado a cantar Jessie’s Girl de Rick Springfield (o argumento apontava para REO Speedwagon); e não menos bom é o diálogo e a estrtura narrativa. Mas o que torna Boogie Nights num dos filmes da minha vida é a capacidade de PTA em interligar as vidas de personagens tão distintas de forma tão genial à medida que usa música para contar a sua trama. Sim, porque sou um acérrimo defensor de que o cinema é mais do que uma imagem, é a conjugação de sons e imagens, e sons não incluem apenas reverbações diegéticas ou composições sonoras. Sons também significam músicas. E se Tarantino ficou famoso pela sua banda sonora, creio ser PTA o verdadeiro entededor na conjugação de música e imagem. E mais do que There Will Be Blood ou Magnolia é, para mim, Boogie Nights o seu melhor filme, o filme que me mostrou a força que a música dá uma imagem, o filme que consegue roçar a barreira do politicamente incorrecto sem nunca a ultrapassar ou cair no mau gosto. Não é uma obra fetichista. É uma obra de um cineasta maduro que sabe contar uma história. E o que é o cinema se não um agregado de histórias?

. O TOURO ENRAIVECIDO
(1980, Raging Bull, Martin Scorsese)



Sempre fui um apaixonado pela fotografia a preto e branco e desde o término dos anos 60 não jamais vi um uso tão apropriado e distinto da mesma. Raging Bull é extraordinariamente fotografado e, inegavelmente, aquele preto e branco não é meramente uma questão estética mas, em instância última, enaltece a história de um protagonista condenado desde os seus primórdios. Raging Bull é também o meu biopic favorito. Sempre detive um especial apreço pela possibilidade de ver grande histórias no grande ecrã. E sejamos sinceros, que histórias são melhores do que aquelas baseadas em eventos reais e indivíduos de carne e osso? Mas nem todos os realizadores e argumentistas têm a sensabilidade suficiente para contar uma história em pouco mais de duas horas. Mas Scorsese e Schrader tiveram, e o resultado foi uma das películas mais perfeitas da história do cinema dotada também de uma das suas melhores interpretações, o grande De Niro que se sacrificou pelo papel de uma vida. As características do filme não o fazem uma das fitas da minha vida. Mas a experiência que tive quando o vi fazem. "You didn’t get me down Ray. You didn’t get me down!" diz LaMotta no célebre combate ante Sugar Ray Robinson. E eu tremi nessa cena: a honra, a dignidade, o espírito de sacrifício, a luta interna e externa... É só uma cena mas há muitas, demasiadas para descrever, demasiadas para explorar os arrepios que senti quando vi este poderosíssimo retrato.

. A DOCE VIDA
(1960, La dolce vita, Federico Fellini)



Ouço a música de Nino Rota enquanto escrevo estas palavras. Fellini, quem mais, para conceber este imaginário, para criar uma obra divida em tantos e tão bons actos (7 para ser mais preciso), para dar origem a uma legião de fãs, para mudar o rumo do jornalismo internacional, para criar algo tão trágico, sedutor e ousado? La Dolce Vita detém tantas camadas e tão distintas que, por vezes, o tom leviano que as acompanham pode ser muito enganador. Ainda assim, é brilhante a todos os níveis, um verdadeiro feito no âmbito da sátira à classe ociosa num período complicado da história Italiana. Um pouco à semelhança de Amarcord, La Dolce Vita é o retarto de um tempo, de um tempo agridoce, irónico e sarcástico. O boémio e o embuste andam de mãos dadas, o que é particularmente bem resumido na fabulosa sequência final, também denominada como "orgia na praia". Por quê um filme da minha vida? Porque me disse muito sobre a sociedade e porque me fez descobrir o cinema italiano, um dos meus favoritos.

. A PERSONAL JOURNEY WITH MARTIN SCORSESE THROUGH AMERICAN MOVIES
(1995, A Personal Journey with Martin Scorsese Through American Movies, Martin Scorsese e Michael Henry Wilson)



São quase quatro horas que passam a voar. É uma experiência tremenda ouvir um realizador e historiador falar sobre um cinema que tanto admiro. Embora tenha caído na paródia, e muitos vezes interrogo-me se o ódio vem da indústria ou do país em si, o cinema de Hollywood sempre foi o grande agitador do panorama mundial. E, se é verdade que a indústria já conheceu melhores dias, também não é menos erróneo afirmar que existe muito bom cinema a sair de lá e o preconceito é, muitas vezes, injustamente irritante. Martin Scorsese analisa o cinema de outros tempos. E que belo cinema o era. E que bem estrturado é este documentário, que delícia é ouvir Scorsese sobre os seus filmes favoritos, sobre os filmes que mudaram a indústria, sobre as pessoas que nela trabalharam. E em instância última, Scorsese fez-me descobrir novo cinema, cinema que não conhecia e pelo qual me apaixonei. Como é que este documentário pode ser algo menos do que um filme da minha vida?

. L.A CONFIDENCIAL
(1997, L.A. Confidential, Curtis Hanson)



Paul Schrader e Martin Scorsese defendem que o film noir é só um estilo, um sub-género do crime/thriller; outros críticos vêm-no como um género propriamente dito, dada a sua influência e o período de mais de 15 anos onde foi fértil e vasto. Seja como for, é o estilo/género da minha vida. Dificilmente outro tipo de filme exemplifica de forma tão interessante a verdadeira natureza do ser humano. LA Confidential, baseado na homónima obra do polémico James Ellroy, é um épico do noir, uma história que em pouco mais de duas horas consegue conciliar três tramas distintas, desenrolar uma conspiração e, ao mesmo tempo, entreter enquanto cria sequências memoráveis, subversivas e surpreendentes. Curiosamente, esta lista
dos filmes da minha vida não inclui um
noir "verdadeiro". Double Indemnity, The Killers, The Big Heat, Out of the Past, Murder, My Sweet, The Night of the Hunter, This Gun for Hire, poderiam perfeitamente figurar na lista e seria apenas natural que isso se sucedesse dada a influência que tiveram no meu crescimento cinematográfico. Mas na verdade escolhi LA Confidential porque mee mostrou que o noir não está morto, o género/estilo em que mais acredito ainda tem uma palavra a dizer e pode ser levado a sério nos dias de hoje. O noir que é tantas vezes injustamente parodiado vê os seus subversivos contornos ridicularizados em obras infantis que falham em perceber a sua essência. Mas não L.A. Confidential, não o filme que me fez voltar a acreditar no noir contemporâneo.

. A MULHER QUE VIVEU DUAS VEZES + A BELA DE DIA
(1958, Vertigo, Alfred Hitchcock) + (1967, Belle de Jour, Luis Buñuel)





Dois filmes tão diferentes ligados por um elo comum: a obsessão. Separados por nove anos, as obras de Hitchcok e Buñuel foram-me muito marcantes pela forma como exploram a sexualidade, os mais íntimos e escondidos desejos animalescos e a poder da irracionalidade ante a racionalidade. Hitchcock, por um lado, é sempre mais reservado mas invariavelmente acutilante e venonoso. O seu humor negro faz deste Vertigo uma obra-prima, possivelmente o seu melhor e mais complexo filme. O trabalho de Buñuel é mais explícito, mas nem por isso menos complexo. E se Vertigo e Belle de Jour são ambos filmes da minha vida, são-nos dado o contexto e os claramente distintos períodos em que foram vistos o que, de certo modo, me levaram a retirar conclusões que ainda hoje observo, dia após dia, e justificam o cinema como a arte da vida em movimento, independentemente de quanto este é romanceado. Gostei de ver Hitchcock ser agressivo em 58 e gostei ainda mais da audácia de Buñuel em 67 ao explorar os desejos de uma mulher à mercê da sua insatisfação sexual. Por um lado, a obsessão pela figura, por outro, a obsessão pelo que nos é inerente e incontrolável. Hitchock e Buñuel, dois visionários, dois surrealistas à sua própria maneira, dois capazes de fazer um filme, um dos filmes da minha vida.

CAMINHO PARA DOIS
(1967, Two for the Road, Stanley Donen)



Vi-o numa altura muito peculiar da minha vida. Além de ser um dos mais cruéis e fiéis retratos da vida marital, mostrou-me uma outra Audrey Hepburn (paixão antiga) e o seu poder que vai muito além das suas afáveis e encantadoras personagens em Breakfast at Tiffany’s e Roman Holiday. A fita de Stanley Donen andou perdida no tempo. O homem responsável por Singin’ in the Rain ou Charade revelou uma enorme versatilidade e um excelente director de actores, nomeadamente, de Hepburn. Arriscaria a dizer que ela tem a sua melhor performance neste filme, não a mais carismática, mas a mais complexa e marcante. E todas as circustâncias que envolvem a relação entre Hepburn e Finney são tão reais quanto a sua própria natureza. Houvesse uma dose de humor mais elevada e um tom mais suave e estaríamos perante uma obra-prima de Woody Allen. No entanto não é Allen que toma as rédeas. É Donen e com ele o sarcasmo atinge limites ousados mas que resultam em prol de um fita que me fez pensar, e muito, sobre a felicidade, sobre relações e sobre o que significa passar uma vida com alguém ao nosso braço. Ainda hoje observo o que se passa à minha volta e vejo imagens de Two for the Road a querer marcar o teste do tempo, a mostrar que as relações, não obstante as restrições inerentes ao tempo em que são vividas, são intemporais. E intemporal é também a forma como estas são vividas.

< — A ORGIA DO PODER + OS HOMENS DO PRESIDENTE
(1969, Z, Costa-Gavras) + (1976, All the President's Men, Alan J. Pakula)





São dois filmes fundamentalmente diferentes é certo, mas são unidos pela qualidade do argumento, das interpretações, da realização, e claro está, do tema em comum: a corrupção nos corredores do poder. Ambos são longas-metragens de investigação, mas o que se revela verdadeiramente interesssante é o espectro em que ambas as películas foram concebidas e a, digamos, "aura" que as envolve. Por um lado, All the President’s Man (Alan J. Pakula) não me parece uma obra de Hollywood e, por outro, Z (Costa-Gravas) não me parece a típica obra Europeia. Ambos estão numa zona neutra, uma zona que não cede a pressões externas e mesmo assim critica, rasga e acusa. Foram filmes que me marcaram pelo seu realismo. Não sei se serão docu-dramas ou meros dramas, mas fascina-me a forma como se desenvolve a descoberta de uma conspiração. E não é fácil fazê-lo. Muitos foram os que tentaram e falharam (um das minhas maiores desilusões é The Parallax View, curiosamente do mesmo Pakula). Mas estas duas películas epitomizam o género de filme que um dia gostaria de fazer, marcaram-me pelo engenho do argumento (e quão difícil é escrever algo assim), pela simplicidade dos processos e pela mordaz crítica social, ainda que objectiva mas tantas vezes em subtexto.

Menção Honrosa: THE WIRE
(2002, The Wire, David Simon)



Muito simplesmente porque cada episódio é um filme de uma hora, melhor interpretado, escrito, dirigido e fotografado do que a maior parte do cinema contemporâneo. Divido em cinco temporadas, cada uma explorando uma problemática distinta na cidade de Baltimore mas unidas por um elo comum, The Wire é um épico do crime, uma obra incrivelmente realista e sensata. Mas tudo isto não é apenas sobre Baltimore. Essa cidade podia ser qualquer uma outra em qualquer país do mundo. É uma série que se desenvolve com um calculismo e uma frieza avassaladores, e as raízes da corrupção vão lentamente, episódio após episódio, temporada após temporada, sendo desnudadas. Não são os bravos quem ganham a guerra, porque não há bravos. E também não são os vilões, porque na verdade não há vilões. Há pessoas e dificilmente alguma série mostrou de forma mais explícita o que significa ser, em toda a sua latitude, uma "pessoa". É The Wire uma série ou uma longa, longa-metragem? Pode ser ambas diria. The Wire marcou-me profundamente como um analista da sociedade e fez-me olhar para o espectro televisivo como uma extensão da sétima arte, algo que nunca um produto televisivo havia feito antes.

--//--

Obrigado, Filipe, pela tua participação!

8 comentários:

Paulo Soares disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulo Soares disse...

Nunca vi o Two for the Road. Tenho-o aqui para ver há algum tempo mas outras coisas vão sempre passando à frente. Talvez a sugestão me dê então um pouco mais de vontade. E grande Menção Honrosa! :)

João Bizarro disse...

Grandes filmes. Um grande documentário e... uma das minhas séries de eleição.

Estou rendido à lista do Fifeco.

Pedro Ponte disse...

Fabulosa lista, como seria de esperar. E acima de tudo imensamente fundamentada, nota-se genuinamente o apreço que tens por estes filmes.

TWO FOR THE ROAD é também o único que não vi e apenas partilhamos um filme (VERTIGO) mas dos restantes são quase uniformemente filmes que poderiam perfeitamente ter entrado na minha lista (especialmente RAGING BULL, CINEMA PARADISO e FIGHT CLUB), confirmando a tal ideia que estabelecemos há uns tempos de que somos gémeos cinéfilos. :)

Cumprimentos.

Fifeco (Filipe Ferraz Coutinho) disse...

Obrigado a todos pelos comentários e obrigado ao Sam (nada que ele não saiba) por publicar as minhas escolhas e os meus textos.

Para quem não viu o Two for the Road gostaria só de deixar o seguinte comentário. é ousado na estrutura que apresenta (pelo menos para quando foi feito), contém performances extraordinárias e é devastador. Não se tornou um filme da minha vida de imediato. Foram precisos meses e o filme insistia em aparecer na minha cabeça, sequência atrás de sequência enquanto a realidade que observava a minha volta insistia em tornar o filme tão cruelmente real. Nesse sentido, não digo para esperarem uma obra prima, mas um filme real, com tudo o que a realidade contém.

ArmPauloFer disse...

Muito boa lista. Muito interessante nalgumas das opções, que mesmo não tendo visto, afiguram-se de grande nível. Por fim, estar lá o Vertigo, um dos filmes da minha vida, é puro ouro sobre azul.
Well one!

Loot disse...

Ahh seu batoteiro :P

Grande menção honrosa sem dúvida. E grande lista :D

Abraço

Jorge disse...

É uma senhora lista, no mínimo com alguns títulos fora do comum, o que lhe aumenta o interesse. Do que vi, destaco Fight Club, Cinema Paraíso e Vertigo como inquestionáveis também para mim.

abraço