«In commercial cinema nature often does not exist at all; all one has is the most advantageous lighting and interiors for the purpose of quick shooting — everybody follows the plot and no one is bothered by the artificiality of a setting that is more or less right, nor by the disregard for detail and atmosphere. When the screen brings the real world to the audience, the world as it actually is, so that it can bee sen in depth and from all sides, evoking its very 'smell', allowing audiences to feel on their skin its moisture or its dryness — it seems that the cinema-goer has so lost the capacity simply to surrender to an immediate, emotional aesthetic impression, that he instantly has to check himself, and ask: 'Why? What for? What's the point?'»
... há Mikhail Kalatozov (1903 — 1973). E não se trata de mero pormenor cronológico.
Urge conhecer, mais e melhor, este cineasta de origem georgiana. Estudante aplicado da Escola de Montagem Soviética nos anos 20 e 30, artífice por excelência na propagação da mentalidade política do Premier Nikita Khrushchev nos anos 50 e 60, a obra cinematográfica de Kalatozov assume-se como uma das mais fascinantes, irrepreensíveis e, de modo virtual e paradoxal, desconhecidas — mesmo para algumas "elites" — do Século XX.
De natureza vincadamente propagandística, a filmografia de Mikhail Kalatozov demarca-se da maioria pela diligência e habilidade técnicas utilizadas, sem desviar o espectador, tanto no documentário como na ficção, da condição humana que define o cerne dos seus filmes: os dramas são profundamente pessoais para as personagens, as narrativas mais emocionais do que comoventes (embora essa característica seja, por vezes, encontrada), a busca de redenção está sempre presente. Apetrechados de planos fulgurantes atrás de planos fulgurantes, expressivos movimentos de câmara e inspiradas direcções de montagem e fotografia, cada título testemunha, individualmente, a carreira visionária e singular do realizador.
A breve experiência de Kalatozov como montador e operador de câmara nos estúdios de cinema de Tbilissi é evidente nos três principais filmes que constituem o seu início de carreira, os quais situam-no — assim o devemos e temos de considerar — enquanto nome tão fundamental para a compreensão da teoria da montagem soviética como os de Eisenstein, Kuleshov, Vertov ou Pudovkin.
MATI SAMEPO/THEIR EMPIRE (1928), documentário constituído por fragmentos de actualidades noticiosas e cujo paradeiro só foi parcialmente redescoberto em 20081, critica a ineficácia e o cinismo do estilo de vida burguês georgiano face aos progressos alcançados pelo regime comunista. A futura marca de Kalatozov já é reconhecível nos segmentos finais do filme, repletos de uma sátira capaz de extrapolar os métodos do Agitprop.
Um dos melhores exemplos do cinema dito etnográfico (género que prima, como poucos, pela apresentação estética da ou duma realidade) pertence, desde muito cedo, a Kalatozov com o impressionante JIM SHVANTE/SALT FOR SVANETIA (1930) — uma representação da dura vida rural do povo de Svanetia, na Geórgia, vergado por um feudalismo supersticioso e obsoleto que só será libertado pelo estabelecimento no Cáucaso da "nova União Soviética" —, já evidencia a sensibilidade visual que Kalatozov explanaria mais tarde, tais como a obliquidade da objectiva ou perspectivas invulgares sobre os sujeitos filmados.
E, neste período, a ficção do cineasta em prol da propaganda socialista atinge o seu auge técnico e narrativo em LURSMANI CHEQMASHI/NAIL IN THE BOOT (1931), obra banida pelos censores estalinistas por "o argumento ser ideologicamente confuso para as plateias"2 mas portadora de um sentido de puro cinema visual: magnífica iluminação, arrojados ângulos de câmara, notável montagem.
Mikhail Kalatozov empreendeu uma "travessia do deserto" que durou mais de uma década, apenas assinando durante esse período alguns títulos, dedicados a propaganda de guerra, que a História regista parcamente e cuja visualização é, de momento, extremamente difícil.
É preciso esperar pelo ano de 1957 para a Sétima Arte assistir ao ressurgimento definitivo de Kalatozov. QUANDO VOAM AS CEGONHAS, drama romântico toldado pela Segunda Guerra Mundial, Palma de Ouro no Festival de Cannes, "a indiscutível primeira obra-prima do cinema pós-Estaline"3 e a estreia da colaboração do realizador com o director de fotografia Sergei Urusevsky, com o qual conceberá as mais notáveis e assombrosas imagens alguma vez registadas em película.
É exemplo disso a forma como, neste excerto, a câmara segue, apaixonada e freneticamente, o rosto de Tatyana Samojlova, a principal vedeta do grande ecrã soviético daquele período...
... e é obrigatório ver e rever este plano sequência de SOY CUBA! (1964), onde sobressaem pormenores que quase poderiam ser apelidados de "cinema impossível":
Feita esta "análise formal e visual", impõe-se sublinhar a influência e o legado estético de Mikhail Kalatozov na obra e carreira de Andrei Tarkovsky (daí o título deste post), detectável em todos os filmes, sem excepção, do cineasta soviético mais celebrizado da segunda metade do século passado. Nomeadamente, A INFÂNCIA DE IVAN (1962), flagrante descendente da "morfologia" de NEOTPRAVLENNOYE PISMO/LETTER NEVER SENT — e são vários os autores a corroborar essa perspectiva4.
Por outras palavras, considero Kalatozov um percursor e inovador como poucos na História da Sétima Arte e que, no seu estudo, tem sido permanentemente sonegado pelos constrangimentos políticos que a sua vida pessoal e profissional conheceu. Um autor capaz de sugerir, poética e visualmente, ideologias políticas mas permitindo a liberdade emocional dos intervenientes humanos das narrativas. Um cineasta de simultâneo apelo popular, filosofia íntima e valor artístico.
Para mim, e embora não o assuma de ânimo leve, Kalatozov está um grau acima de Andrei Tarkovsky — outro autor de inegável brilhantismo e qualidade mas sem a carga política do primeiro. Mas há convicções pessoais que, por mais controversas e incrédulas que sejam, têm de ser partilhadas.
Contudo, num aspecto não hesito: procurem conhecer a obra de Mikhail Kalatozov. O Cinema também reserva fulgor nos autores menos óbvios.
«Geoff Dyer's latest book, Zona, is an unabashed love letter to the dead Russian film director Andrey Tarkovsky, written in the form of a passionate, 200-page, shot-by-shot celebration of Tarkovsky's 1979 masterpiece, STALKER. This is a fan's book, aimed at aficionados of Tarkovsky and Dyer. But it's also a good introduction to both.»
1. 2001: ODISSEIA NO ESPAÇO (1968, 2001: A Space Odyssey, Stanley Kubrick)
O mais admirável e grandioso, para mim, da riquíssima filmografia de Kubrick, este filme é uma experiência sensorial fascinante, que junta, de forma maravilhosa, riqueza visual e portento sonoro. Uma ode a uma técnica prodigiosa, este é sem dúvida o filme que me mostrou a mim que nunca haverá um realizador tão dotado e visionário como este. Uma obra-prima imortal.
2. 8½ (1963, 8½, Federico Fellini)
Contado da perspectiva do realizador (cuja personagem, subentende-se, é uma encarnação do próprio Fellini, supostamente perdido na sua carreira), este é o melhor filme que já vi sobre cinema. Relatando a história privilegiando imagem sobre conteúdo, baseando todo o filme no limbo entre a fantasia e a realidade, o processo de Fellini é irrepreensivelmente fascinante, quase mágico até – ele revela, ele desconstrói, ele só mostra o que nos quer deixar ver. Este é um filme para se deixar levar – e se maravilhar. Quando termina, faz-nos sentir como se tivéssemos chegado de uma viagem longa mas surreal.
3. EVA (1950, All About Eve, Joseph L. Mankiewicz)
Rico em discussões, discórdias e confusões, cheio de inteligência, elegância, fluidez e muita personalidade, um argumento sagaz e muito perspicaz na forma como analisa os bastidores do teatro e da fama e celebridade e um confronto que faz a tela pegar fogo. Na teoria, este filme tinha tudo para dar certo. Mankiewicz e o elenco deram 100% de si mesmo para assegurar a universalidade e a pertinência deste filme para muitos séculos que hão-de vir.
4. ANDREI RUBLEV (1966, Andrey Rublyov, Andrei Tarkovskiy)
Brilhante em termos técnicos, de ritmo deliberadamente lento, uma história fascinante na forma como retrata a Rússia do século XV, ANDREI RUBLEV o filme mais enigmático e complexo do genial Tarkovsky, é pura poesia cinematográfica, uma película surpreendente sobre a transcendência na arte, na fé, na vida.
5. CHINATOWN (1974, Chinatown, Roman Polanski)
Um thriller noir nada convencional que vive muito da capacidade perceptiva e mestria do grande realizador Roman Polanski (em topo de forma aqui, naquele que é o seu maior trabalho) e da interpretação fabulosa tanto de Jack Nicholson como de Faye Dunaway. Nota-se na forma cuidada como cada frame está disposto (uma composição imaculada), na subtileza de vários detalhes e na forma como o filme nos prende do princípio ao fim, envolvendo-nos numa trama sem par.
6. O MUNDO A SEUS PÉS (1941, Citizen Kane, Orson Welles)
Tecnicamente perfeito, não desperdiçando um segundo sequer de película, exuberante na forma profunda como narra o passado de Charles Foster Kane, que ensina uma valiosíssima lição sobre a vida: nós só sobrevivemos nas memórias dos outros, não no que outrora possuímos ou fizemos. Seremos imortais porque assim nos tornámos no imaginário das pessoas. Charles Kane era um simples homem — mas na mente dos outros, tornou-se mais do que isso. A história extraordinária de um homem tão singular e único, CITIZEN KANE funciona como uma revelação, como um épico que de épico nada tem e que fica para sempre nos anais da história como um dos maiores filmes que o cinema alguma vez produziu.
7. ANA E SUAS IRMÃS (1986, Hannah and Her Sisters, Woody Allen)
O filme mais maduro do enorme contador de histórias, narrador de neuroses suburbanas e de relacionamentos periclitantes que é Woody Allen, HANNAH AND HER SISTERS convence por ser genuíno, por ter um coração tão grande quanto a profundidade comédica do seu argumento, por aliar tão bem o intelectual com o enérgico, por retratar de forma tão curiosa e tão autêntica as complexas relações entre três irmãs e as várias pessoas que giram e se interconectam nas suas vidas. Apaixonante, igualmente divertido e sério, sobretudo sincero e honesto, este é o Woody mais completo que eu já vi.
8. NASHVILLE (1975, Nashville, Robert Altman)
Nunca vi um filme como este e nunca mais, suspeito eu, irei ver. Robert Altman é único e este NASHVILLE é a sua obra-prima mais Altmanesca. Um elenco sublime e todos com participações gloriosas, num entrelaçar de várias histórias compilado que ajuda e muito na construção da atmosfera colorida, envolvente e tão peculiar pela qual a grande cidade do Tennessee, capital mundial da música country (que também tem um grande papel no filme), é universalmente conhecida e que o filme tão bem retrata. Influente, inspirador, desafiador de convenções, NASHVILLE é um dos clássicos modernos mais importantes do nosso tempo.
9. A MÁSCARA (1966, Persona, Ingmar Bergman)
Hipnótico, complexo, absorvente, profundo, perfeito, PERSONA é a maior obra-prima do gigante do cinema universal que é Ingmar Bergman. Filmado experimentalmente a preto e branco, um exercício artístico assumido desde logo por parte do auteur, PERSONA impressiona e marca tanto pela sua simplicidade de conteúdo como pela complexidade das suas personagens e da relação estabelecida entre elas. Profundamente emocional, é uma experiência que dificilmente irei esquecer.
10. MADAME DE... (1953, Madame de..., Max Ophüls)
Uma rica composição, excelente a conferir atmosfera e exímio na forma como explora a amplitude de movimentos da câmara, impressionante em termos visuais, esta obra-prima inesquecível de Ophüls, notável connaisseur do espaço e da emoção, capaz de criar o mais incrível dos dramas a partir da mais singela e vulgar ideia, hábil realizador consumido pela sua curiosidade e fixação pelos seus sujeitos, eternamente conhecido como o virtuoso cineasta do romance, é uma belíssima e arrebatadora experiência catártica.
... segundo as palavras do João Gonçalves, do blog Modern Times:
10 escolhas, 10 filmes da minha vida. Muitos ficaram de fora e foi difícil a selecção.
Como 10 tinham de ser, optei por aqueles que me dizem mais, não necessariamente os melhores. Valem o que valem. Não consigo justificar melhor, não quando os filmes são tão pessoais.
1. PRIMAVERA TARDIA (1949, Banshun, Yasujirô Ozu)
Lembro-me de cinema, lembro-me de Ozu. Lembro-me da forma como me marcou este filme. Uma câmera, uma família.
2. O SACRIFÍCIO (1986, Offret, Andrei Tarkovsky)
O último filme de Tarkovsky. O meu filme preferido. Uma sensibilidade uníca na arte de filmar.
3. AURORA (1927, Sunrise: A Song of Two Humans, F.W. Murnau)
A melhor história de amor de todos os tempos. Não há filme no mundo mais belo do que Sunrise. Para City Girl e Tabu serviriam as mesmas palavras.
4. JANELA INDISCRETA (1954, Rear Window, Alfred Hitchcock)
É o melhor filme do mestre Hitchcock. Cada vez que o revejo, novos pormenores encontro. Incrivelmente bem filmado.
5. O TOURO ENRAIVECIDO (1980, Raging Bull, Martin Scorsese)
Porque foi dos primeiros filmes que vi quando comecei a ver cinema a sério. Scorsese no seu melhor, numa obra marcante.
6. O INTENDENTE SANSHO (1954, Sanshô dayû, Kenji Mizoguchi)
Uma obra de arte.
7. VOANDO SOBRE UM NINHO DE CUCOS (1975, One Flew Over the Cuckoo's Nest, Milos Forman)
Um filme perturbador, que não nos sai da cabeça por dias. Admiro a leveza, num tom quase cómico como é conduzido o filme para logo espetar um murro no estômago. Um filme que me diz muito.
Keyzer Soze é um personagem do filme de 1995, OS SUSPEITOS DO COSTUME.
Soze era o líder de uma secreta organização criminosa; a sua impiedosa personalidade e obscura influência granjeou-lhe um estatuto quase mítico entre agentes da lei e gangsters.
O seu papel no supreendente twist final do filme tornou-se num dos ícones da cultura popular dos anos 90.