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domingo, março 18, 2012

Críticas da Semana

Breve resumo dos principais filmes visualizados esta semana:

. A INVENÇÃO DE HUGO
. ELENA
. A DAMA DE FERRO
. APOLLONIDE — MEMÓRIAS DE UM BORDEL

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. A INVENÇÃO DE HUGO (2011), de Martin Scorsese



Hugo Cabret (Asa Butterfield) é um órfão que vive em segredo nas paredes de uma estação de comboios de Paris. Com a ajuda de Isabelle (Chloe Grace Moretz), procura a resposta para uma misteriosa ligação entre o pai (Jude Law) que perdeu recentemente, o mal-humorado dono (Ben Kingsley) da loja de brinquedos que vive por baixo dele e uma fechadura em forma de coração, aparentemente sem chave.



Vencedor de cinco estatuetas na última cerimónia dos Óscares, almeja surpreender os mais cépticos sobre a primeira experiência de Scorsese na tecnologia 3D (a qual é, aqui, dominada com particular destreza) pela forma como o cineasta transforma esta história, onde dominam a fantasia e pureza emocionais, baseada no excelente romance juvenil de Brian Selznick, em algo de extremamente pessoal — quem sabe, o mais pessoal no seio da sua filmografia.

A notabilizada paixão de Martin Scorsese pela preservação da memória cinematográfica (nomeadamente, a do cinema mudo) encontra em A INVENÇÃO DE HUGO um inesperado e eloquente reflexo. A verve cinéfila do realizador caminha ao lado da aventura inerente ao argumento, onde a "pedagogia" acerca dos primeiros anos da Sétima Arte revela-se apropriadamente emocional e nada forçada na sua nostalgia. Eis o tipo de filme que, entre outras sensações, leva-me a abandonar a minha generalização crítica usual e confessar a minha predilecção por temas como o da preservação e restauro do Cinema clássico. São, para mim, como um perfume delicado ou idêntico ao sentimento que se nutre pela pessoa amada: totalmente irresistíveis. O tom vago deste texto é intencional; os encantos e as surpresas de A INVENÇÃO DE HUGO merecem ser reveladas apenas durante a sua visualização...

. ELENA (2011), de Andrei Zvyagintsev



Elena (Nadezhda Markina) e Vladimir (Andrei Smirnov) são um casal de idosos, provenientes de diferentes origens sociais e casamentos anteriores. Quando o filho dela revela possuir dificuldades financeiras, Elena decide pedir auxílio ao marido, o qual aceita relutantemente, e engendra um plano para que nada falte à sua família.



O cinema contemporâneo demonstra escasso interesse em colocar um casal de terceira idade como protagonista. Só o facto de ELENA contrariar essa tendência — e permitir que o mundo conheça o sereno mas portentoso talento de Nadezhda Markina — já o converte numa obra de visualização quase obrigatória, sobretudo pela abordagem renovada que faz a temáticas batidas como envelhecimento, depressão social e austeridade financeira.

Perante a abundância de autores que, na produção cinematográfica europeia, dedicam-se à inquietação urbana e às complexidades das relações humanas (os irmãos Dardenne ou Christian Petzold são de citação óbvia), Zvyagintsev distancia-se desse paradigma através do minimalismo formal — o plano de abertura demonstra que ainda é possível existir fascínio na composição e foco de um enquadramento — e frugalidade de diálogos do filme, concedendo espaço às expressões dos actores e ao mistério das circunstâncias aqui explanadas com um cáustico "sentido russo" de crime e castigo. E mesmo que o seu último acto não se apresente tão rigoroso quanto o filme inteiro, os "terrenos" ambíguos "pisados" por ELENA são suficientemente inquietantes para que não saia, nem tão cedo, da nossa memória. Muito recomendado.

. A DAMA DE FERRO (2011), de Phyllida Lloyd



Margaret Thatcher (Meryl Streep), a antiga Primeiro-Ministro, agora octogenária, reside melancólica e em total anonimato na sua casa de Chester Square, em Londres. Apesar do seu marido, Denis (Jim Broadbent), ter falecido há alguns anos, a decisão de se ver livre finalmente do seu guarda-roupa desencadeia uma sucessão de memórias.



Meryl Streep, oscarizada por esta reverente e rigorosa interpretação que ameaça, a espaços, o overacting, é, obviamente e sem grande surpresa, o principal motivo para se assistir a esta descrição arrítmica de um dos principais líderes políticos europeus do Século XX.

Abordando timidamente os episódios emblemáticos da vida de Margaret Thatcher (a ascensão à liderança do Partido Conservador, a subida ao poder, Bobby Sands, a Guerra das Malvinas, a postura não-negociadora perante o IRA, relações diplomatas com Reagan ou Gorbachev, abrupta demissão), é entendível que não se tenha planeado converter A DAMA DE FERRO num biopic. Contudo, o intensivo recurso ao flashback faz-nos duvidar das reais intenções do filme. Para o espectador, o resultado final é semelhante à demência que a protagonista exibe: sem a mínima ideia de quem é ou quem foi a Dama de Ferro...

. APOLLONIDE — MEMÓRIAS DE UM BORDEL (2011), de Bertrand Bonello



No amanhecer do século XX, o bordel parisiense Apollonide vive os seus últimos dias. Neste mundo quase secreto, onde alguns homens se apaixonam e outros se tornam viciosamente perigosos, as raparigas partilham entre si os seus segredos e as suas rivalidades, as suas tristezas e alegrias.



Em LE PORNOGRAPHE (2001), já Bertrand Bonello analisara a analogia entre sexo, condição humana e alienação social de forma pungente, gráfica e franca. Paradoxalmente, L'APOLLONIDE retoma essas intenções e atitudes sem a mesma sagacidade temática ou pertinência moral do título referido. As inúmeras representações de deboche e perversão até são exigentes do ponto de vista técnico mas, a certa altura, adversárias do próprio timing do filme, o qual encontra os seus melhores momentos quando se concentra na camaradagem entre as prostitutas do Apollonide.

Mas apesar do seu argumento excessivamente enigmático, dos cenários intensamente claustrofóbicos que "afogam" personagens e espectadores e com uma duração desnecessariamente longa para a escassez dramática apresentada, a atmosfera sumptuosa e imagens cativantes conferem ao filme um poder irresistível. Juntamente com o impressionante elenco feminino (destacam-se os nomes, por enquanto desconhecidos do grande público, de Noémie Lvovsky e Hafsia Hersi), está garantida uma satisfação geral após a sua visualização.

terça-feira, maio 17, 2011

Festival de Cannes 2011 — Dia 6



Sexta e muito aguardada jornada de Festival, ou não fosse este o dia de THE TREE OF LIFE, projecto no qual Terrence Malick, um dos cineastas mais reclusivos do mundo, trabalhou durante mais de trinta anos e cuja produção esteve envolta no maior dos secretismos.

Brad Pitt e Jessica Chastain, duas das estrelas de THE TREE OF LIFE

Face a tanta antecipação, o visionamento para a imprensa foi marcada por incidentes antes (a sala foi demasiado pequena para inúmeros e desejosos espectadores) e depois (aplausos e assobios em quotas iguais) da projecção. Contudo, é unânime a sensação de que exibe «uma ambição sem paralelos, onde Malick «aventura-se num experimentalismo narrativo e delírio visual que deixará qualquer um positivamente atónito» como já não se via «desde 2001: ODISSEIA NO ESPAÇO». Os detractores, por seu turno, consideram que «acusações de ambição desmedida e pretensiosismo não são descabidas» para descrever o filme.

Pitt, Chastain e Sean Penn - só faltou mesmo Terrence Malick na passadeira vermelha

O outro filme em competição exibido hoje na Croisette foi L’APOLLONIDE — SOUVENIRS DE LA MAISON CLOSE, drama situado num bordel parisiense do Séc. XIX realizador por Bertrand Bonello (mais conhecido por LE PORNOGRAPHE que, em 2001, chocou Cannes).

Equipa técnica e elenco de L'APOLLONIDE

Noemie Lvovsky, na muito morna conferência de imprensa

Apesar de «sensual e intrigante», L'APOLLONIDE salda-se num exercício «pedante, executado de forma pedestre e com uma abordagem totalmente errada». Embora o realizador, na conferência de imprensa, advogue que não pretendeu abrir debate sobre prostituição, esse tem sido o mote de todas as críticas e artigos dedicados ao filme.

Também recebido de modo pouco "pacífico" foi HORS SATAN, do sempre controverso Bruno Dumont e em concurso na secção Un Certain Regard, sobre a peculiar e espontânea relação entre um homem e uma rapariga totalmente desconhecidos um para o outro.

Bruno Dumont ladeado pelos protagonistas de HORS SATAN

Este será, sem dúvida, um dos filmes mais devassados pela crítica durante a presente edição do Festival: «insano, pretensioso, hipnótico e transcendente em medidas iguais», passando pela afirmação de que esta é «a obra de um egoísta, para quem qualquer recurso estilístico, câmara de ângulo forçado ou murmúrio monossilábico tem de invocar no espectador um significado profundo» até à conclusão de ser um «um exercício desmotivado», não faltaram "insultos" a HORS SATAN. Definitivamente, um título apenas para admiradores da filmografia de Dumont.

Destaque final para a apresentação, na secção Cannes Classics, de THE LOOK, documentário sobre a carreira de Charlotte Rampling, no qual a realizadora Angelina Maccarone traça o perfil «divertido, inteligente e marcante» de uma das actrizes mais versáteis no panorama cinematográfico europeu.

Charlotte Rampling, feérica, na photocall de THE LOOK

[Crédito de imagens: EPA, Site Oficial do Festival, Reuters e WireImage]

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