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domingo, outubro 23, 2011

Críticas da Semana

Breve resumo dos principais filmes visualizados esta semana:

. SLEEPING BEAUTY
. O ATALHO
. MYSTERIOUS SKIN
. GEORGE HARRISON: LIVING IN THE MATERIAL WORLD
. FEAR X — O MEDO

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. SLEEPING BEAUTY (2011), de Julia Leigh

Uma jovem estudante (Emily Browning) necessitada de dinheiro multiplica biscates e trabalhos em part-time. Em resposta a um anúncio, integra uma rede estranha de belas adormecidas. Adormece. Acorda. E tem a sensação que não se passou nada...



Se um exercício cinematográfico em estranheza for sinónimo de qualidade, então esta primeira obra de Julia Leigh revela-se irresistível na sua frieza estética e unidimensionalidade de personagens. SLEEPING BEAUTY move-se em torno de uma protagonista disposta a tudo (as sequências iniciais, aparentemente inócuas, expressam essa característica de modo flagrante) e sem grandes preocupações com o que lhe acontece ou lhe é feito quando serve de objecto comatoso de prazer para frustrados e viciosos homens de meia-idade.

Para o espectador, o desconforto e a inquietação não advêm apenas de ser testemunha, um fortuito voyeur, de uma inusitada forma de prostituição. O filme "incomoda" pela potencial falta de moralidade ou manifesto de opressão da sexualidade feminina que ostenta, liderado por uma Emily Browning irrepreensível (num autêntico 'sucker punch' performativo, permitam-me o trocadilho...) e contenção formal ameaçadora de alguma "explosão" que nunca sucede. Enigmático, sensual e, em última instância, arrebatador.

. O ATALHO (2010), de Kelly Reichardt

1845, Oregon. Uma caravana composta por três famílias contrata Stephen Meek (Bruce Greenwood), um explorador, para guiá-los através do deserto. Quando se perdem num caminho não assinalado, os emigrantes terão de enfrentar fome, sede, desesperança e a presença de um nativo-americano (Rod Rondeaux) que tanto poderá encaminhá-los no rumo certo ou em direcção a um destino fatal.



O drama sobre o pioneirismo norte-americano, em pleno Século XIX, está aqui bem presente, mas não é nesse detalhe que O ATALHO se agiganta. Aqui, a nossa atenção deve focar-se neste magnífico atestado de que som e imagem são definitivamente mais importantes que mil palavras ou exímias legendagens, a atmosfera supera quaisquer golpes elementares ou gratuitos de emoção e a intemporalidade de um filme rege-se pela sua aptidão em cativar o espectador sem profundas moralidades.

Entre o road movie e a história de sobrevivência, Reichardt (se WENDY & LUCY já a tinha colocado no mapa, agora é impossível não prestar atenção ao seu futuro) aposta no minimalismo técnico e na rotina quotidiana deste reduzido grupo de personagens para formular o que alguns apelidaram — e, diga-se, com razão — de anti-western, filmado à "moda antiga" (em formato 1.33, ou seja, o enquadramento de tela maioritariamente usado no cinema produzido até 1950), que até pode suscitar interpretações alegóricas mas pretende mostrar-se como experiência sensorial única do princípio ao fim. Muito recomendado.

. MYSTERIOUS SKIN (2004), de Gregg Araki

Os caminhos de um jovem prostituto (Joseph Gordon-Levitt) e de um adolescente (Brady Corbet) que acredita ter sido raptado por extraterrestres em criança cruzam-se, e ambos descobrem um horrível mas esclarecedor passado em comum.



Há que aplaudir a vontade de Gregg Araki abordar, corajosa e respeitosamente, as consequências do abuso sexual de crianças. Adaptando um romance de Scott Heim, num registo tipicamente indie e evitando o exploitation, MYSTERIOUS SKIN equilibra bem realismo com elementos fantásticos e apresenta dois convincentes protagonistas para ilustrar os traumas do tema principal do filme, assim como as diversas maneiras de os enfrentar. Nesse campo, as eficazes interpretações de Joseph Gordon-Levitt, Brady Corbet e Mary Lynn Rajskub (num pequeno mas inesquecível papel) são contributo indispensável.

Todavia, para um argumento que se expõe, desde o início, enigmático em alguns aspectos (sobretudo, os pesadelos que atormentam Brian durante anos), o filme acaba por revelar-se pouco... mysterious, e a previsibilidade da sua última meia hora faz com que o encaremos apenas como mais um drama sobre sexualidade infantil sem um ângulo propriamente inaudito acerca do assunto. Cinema destemido, sem dúvida, mas pouco paradigmático.

. GEORGE HARRISON: LIVING IN THE MATERIAL WORLD (2011), de Martin Scorsese

Amigos (Eric Clapton, Eric Idle), família (as esposas Patti Boyd e Olivia Harrison) e colegas musicais (Paul McCartney e Ringo Starr) reflectem sobre a vida, música, misticismo e carisma de George Harrison.



Mais do que um filme sobre George Harrison, este é o relato sobre o mundo que envolveu, influenciou e foi influenciado por aquele a quem chamaram de quiet Beatle. E Scorsese, depois dos The Band, dos Rolling Stones e de Bob Dylan, demonstra ser um fantástico documentarista musical, capaz de conferir múltiplos significados a uma singela fotografia doméstica, a uma bobine de filme em 16mm ou a uma breve entrevista, datada dos anos 60 e concedida a um obscuro meio de comunicação social.

Dividido em duas partes (logicamente, pelas fases pré e pós-Beatles), soma uns impressionantes céleres 208 minutos de duração e, no fim, o espectador poderá ficar com a impressão de um "soube-me a pouco". Quem alimentar no seu espírito uma "grama" de nostalgia, não conseguirá deixar de ficar rendido por este documentário e pelas facetas de Harrison: guitarrista, compositor, produtor cinematográfico, místico e profundamente humano.

. FEAR X — O MEDO (2003), de Nicolas Winding Refn

Quando a sua esposa é assassinada no que parece ter sido um homicídio acidental, Harry (John Turturro), movido por misteriosas visões, empreende uma viagem para descobrir as verdadeiras razões do acontecimento que transformou a sua vida.



Nicolas Winding Refn continua a angariar positiva admiração por estes lados, mesmo quando se está perante um dos seus filmes menores. E FEAR X tem, indiscutivelmente, imensos pontos fracos, sobretudo no seu argumento, pejado de escandalosos plot holes e gratuitos becos sem saída. Mas é, também, um thriller policial que se distancia de outros títulos semelhantes pela extraordinária e aprimorada atmosfera, criada a partir de sombras, cores e sons, que deixa o espectador sempre atrás dos acontecimentos, mesmo quando estes são totalmente descortinados.

Pode-se invocar, com legitimidade, que a sua "intoxicação" visual e sonora apenas serve de camuflagem à insuficiência narrativa do filme. Mas estamos perante um vincado filme de autor — todas as imagens de marca de Refn estão aqui patentes, e o dinamarquês ainda não tinha o reconhecimento de que hoje usufrui —, que homenageia Kubrick e Lynch sem pudor e revela um realizador com visão única no panorama cinematográfico contemporâneo.

sábado, maio 14, 2011

Festival de Cannes 2011 — Dia 2



Depois de um primeiro dia infundido do "romantismo mágico" de Woody Allen, o espírito do Festival rapidamente mudou para ambiências mais sombrias. Curiosidade ou não, por intermédio de duas mulheres realizadoras...

SLEEPING BEAUTY, primeira obra da australiana Julia Leigh, protagonizada por Emily Browning, sobre uma jovem universitária que decide trabalhar para uma estranha rede de prostituição, dividiu plateia e crítica, preconizando uma das obras mais desequilibradas em competição.

Julia Leigh, Emily Browning e Rachael Blake

Emily Browning, motivo de atenção por parte de muitas objectivas

Embora alguns considerem que se trata de «uma auspiciosa estreia» para Julia Leigh, o veredicto mais consensual indica um exercício «frustrante, com escassa profundidade na caracterização psicológica das personagens». Na conferência de imprensa, Emily Browning juntou-se à realizadora na defesa de SLEEPING BEAUTY, afirmando que concordou em fazê-lo «assim que terminei de ler o argumento. Era muito desafiador».

Mas o verdadeiro "choque" do dia apareceu sob a forma de
WE NEED TO TALK ABOUT KEVIN
, a história da mãe de um jovem norte-americano que cometerá, no futuro, um massacre na sua escola.

Ezra Miller, Tilda Swinton, Lynne Ramsay e John C. Reilly

Ezra Miller, o Kevin sobre quem temos de conversar

Capaz de «estremecer Cannes», o filme de Lynn Ramsay cativa pelo seu «intenso e distintivo trabalho visual» para criar uma «tremenda experiência para à qual ninguém está preparado» e onde Tilda Swinton, no papel principal, forja uma performance «à altura dos seus melhores desempenhos».

A conferência de imprensa foi dominada pela imagem maternal que o filme transmite, imediatamente justificada por Tilda Swinton: «Quando uma pessoa tem um filho sente-se às vezes como se estivesse a escrever uma carta que nunca lhe enviará. A vida torna-se complicada. Uma mãe sente-se às vezes isolada com o seu bebé. É difícil ser mãe, sobretudo de uma criança como o Kevin».

Ontem marcou, igualmente, o regresso de Gus Van Sant (galardoado em 2003 com a Palma de Ouro por ELEFANTE) ao Festival de Cannes. RESTLESS, a abrir a Secção Un Certain Regard, é o seu mais recente filme, história de amor e tragédia entre dois jovens interpretados por Mia Wasikowska e Henry Hopper (filho de Dennis Hopper).

Mia Wasikowska, Henry Hopper, Gus Van Sant, o argumentista Jason Lew e Bryce Dallas Howard, produtora de RESTLESS

Mia Wasikowska, pretty in pink

Contudo, e atentando ao que a imprensa especializada tem divulgado, não estamos perante o melhor dos retornos, sendo considerado como «o mais banal e indulgente estudo de Van Sant sobre adolescentes problemáticos» e onde «os protagonistas estão longe de ser interessantes». Por outro lado, há quem defenda os méritos de RESTLESS e interprete-o como «algo da ordem da superação».

[Crédito de imagens: Site Oficial do Festival e Getty Images.]