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terça-feira, novembro 22, 2011

#30



... segundo as palavras da Andreia Mandim, blogger nomeada aos TCN Blog Awards pelo seu Cinema's Challenge:

. SANTA SANGRE
(1989, Santa sangre, Alejandro Jodorowsky)



Seria difícil não incluir este filme na minha lista. Quando o vi, pela primeira vez, não sabia absolutamente nada do mesmo. Resolvi vê-lo apenas porque não tinha mais nenhum filme na altura. Sem muito ânimo, confesso. Mas no fim do filme, considerei que foi uma das melhores 'surpresas' que poderia ter. Deparei-me com uma obra surrealista, embora absolutamente rica culturalmente e cinematograficamente. Algo que raramente se vê actualmente, mesmo que o filme seja do final dos anos 80 — 1989, mais concretamente, é necessário o frisar. Mas penso que a história, personagens, ambiente e toque do realizador foram os elementos-chave que tornaram possível que o incluísse como um dos meus preferidos. Há qualquer coisa de esotérico que passa o ecrã e entra em nós ao vê-lo.

. SLEEPERS — SENTIMENTO DE REVOLTA
(1996, Sleepers, Barry Levinson)



Lembro-me de o ver quando ainda era criança. A minha irmã consumia tudo o que tinha "o menino bonito de hollywood", na altura, Brad Pitt, e eu acabava também por assistir ao filmes. Mas o que conta para aqui para o caso é que foi um filme que me marcou. Na altura era ainda ingénua e gostei de perceber que realmente existem situações, pequenos momentos, em que podemos fazer a coisa errada, na hora errada e decidir parte importante do rumo da nossa vida. Pode parecer um pouco dramático e até absurdo, para alguns, mas é um filme que me diz muito e que ultrapassa o thriller dramático que hoje se vê para aí a pontapés. Não esquecendo o excelente cast que reúne grandes nomes — Brad Pitt, Robert De Niro, Kevin Bacon, etc...

. MYSTERIOUS SKIN
(2004, Mysterious Skin, Gregg Araki)



Revi-o há pouco tempo.É um filme com uma abordagem extremamente inteligente. É a mistura de dois assuntos completamente díspares: ficção científica e abusos sexuais. Num ambiente indie, com um actor que tem dado sinais da sua eficiência (Joseph Gordon-Levitt) e com um argumento fabuloso. Acho difícil não incluir como uma das melhores coisas que vi, pelo menos dentro do seu género.

. MANHATTAN
(1979, Manhattan, Woody Allen)



Respondo como se fosse o próprio: Life doesn't imitate art, it imitates bad television, por isso preciso da minha dose de arte e optei por ver algo de Woody. Podem o chamar pretensioso ou qualquer outra coisa, mas basicamente há sempre deixas brilhantes nos seus filmes e em MANHATTAN temos bastantes exemplos. Podia inventar mil explicações do porquê de ser um dos que mais gosto do Woody Allen, mas penso que talvez goste de vários, porém é o que tenho mais vivo com sinal verde na minha mente.

. SHINING
(1980, The Shining, Stanley Kubrick)



Se Kubrick não fosse realizador, provavelmente seria Deus. Vi uma vez esta piada em algum lugar que já não me recordo, mas acredito mesmo que esteja próximo, pelo menos nas suas capacidades/poderes que tinha para fazer cinema. Vi o SHINING umas 4 vezes na mesma semana, fiquei maravilhada com o filme. Tudo tinha um grau tão assustadoramente elevado de tensão e um certo terror que nunca chega a ser terror que foi impossível não cair de amores pelo filme.

. BOOGIE NIGHTS — JOGOS DE PRAZER
(1997, Boogie Nights, Paul Thomas Anderson)



Outro recente amor. Gostei de tudo neste filme. Actores, abordagem, argumento. E o realizador é talvez dos mais prendados da sua época. Sou sincera, não tinha noção disso. Até começar a ver o seu historial, percebi que já tinha visto muitos filmes que adorei e lhe pertenciam. Quanto ao BOOGIE NIGHTS penso que é um dos filmes mais marcantes para um amante de cinema, e mais não digo.

. CLUBE DE COMBATE
(1999, Fight Club, David Fincher)



É o filme que provavelmente mais vezes vi. Chamem comercial, digam o que quiserem, mas acho que não há uma única pessoa que não tenha gostado da película de Fincher. É tudo tão delicioso. Montagem, personagens, actores. Desenvolvi uma empatia com este filme, talvez por ter nascido na época que ele retrata, neste mundo consumista e com regras sociais que ninguém acredita, num mundo que já acabou antes de ter começado.

. VOANDO SOBRE UM NINHO DE CUCOS
(1975, One Flew Over the Cuckoo's Nest, Milos Forman)



É majestoso. Jack Nicholson faz, mais uma vez, um papel que é absolutamente brilhante. O filme em si tem uma trama que prende o espectador. E a ideia de ver um filme passado num manicómio é sempre tentadora. Afinal de médico e de louco todos temos um pouco — já dizia o outro.

. UMA QUESTÃO DE CONFIANÇA
(1990, Trust, Hal Hartley)



É uma obra quase clássica. Bastante calma, mas que conta muita coisa. Ficamos embebecidos com as personagens que vivem histórias dispares, porém é a confiança que os salva. Acho que foi mais uma surpresa quando o vi, não estava à espera de algo assim tão bom e recomendo vivamente.

. O HOMEM ELEFANTE
(1980, The Elephant Man, David Lynch)



É difícil não ficarmos sensibilizados quando vemos este filme. Entre o surrealismo quase extremo de Lynh, com o preto e branco e personagens inconcebíveis no mundo real, encontramos também um mundo onde os sentimentos são impulsionados, são quase provocados, mesmo que através de histórias pouco prováveis de acontecer no mundo real, pelo menos com um homem elefante. Mas que acontece com outro tipo de pessoas que têm diferenças, mas que têm algo mais para além do aspecto, tal como o Elephant Man.

Estes filmes escolhidos são apenas uma parcela dos que considero os filmes da minha vida. É uma lista diferente das que fiz para outros blogues, propositadamente. É uma forma de mostrar todos aqueles filmes que me foram marcando e ainda marcam, mas que não totalizam tudo o que vi e gostei de ver até hoje.

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Obrigado, Andreia, pela tua participação!

domingo, outubro 23, 2011

Críticas da Semana

Breve resumo dos principais filmes visualizados esta semana:

. SLEEPING BEAUTY
. O ATALHO
. MYSTERIOUS SKIN
. GEORGE HARRISON: LIVING IN THE MATERIAL WORLD
. FEAR X — O MEDO

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. SLEEPING BEAUTY (2011), de Julia Leigh

Uma jovem estudante (Emily Browning) necessitada de dinheiro multiplica biscates e trabalhos em part-time. Em resposta a um anúncio, integra uma rede estranha de belas adormecidas. Adormece. Acorda. E tem a sensação que não se passou nada...



Se um exercício cinematográfico em estranheza for sinónimo de qualidade, então esta primeira obra de Julia Leigh revela-se irresistível na sua frieza estética e unidimensionalidade de personagens. SLEEPING BEAUTY move-se em torno de uma protagonista disposta a tudo (as sequências iniciais, aparentemente inócuas, expressam essa característica de modo flagrante) e sem grandes preocupações com o que lhe acontece ou lhe é feito quando serve de objecto comatoso de prazer para frustrados e viciosos homens de meia-idade.

Para o espectador, o desconforto e a inquietação não advêm apenas de ser testemunha, um fortuito voyeur, de uma inusitada forma de prostituição. O filme "incomoda" pela potencial falta de moralidade ou manifesto de opressão da sexualidade feminina que ostenta, liderado por uma Emily Browning irrepreensível (num autêntico 'sucker punch' performativo, permitam-me o trocadilho...) e contenção formal ameaçadora de alguma "explosão" que nunca sucede. Enigmático, sensual e, em última instância, arrebatador.

. O ATALHO (2010), de Kelly Reichardt

1845, Oregon. Uma caravana composta por três famílias contrata Stephen Meek (Bruce Greenwood), um explorador, para guiá-los através do deserto. Quando se perdem num caminho não assinalado, os emigrantes terão de enfrentar fome, sede, desesperança e a presença de um nativo-americano (Rod Rondeaux) que tanto poderá encaminhá-los no rumo certo ou em direcção a um destino fatal.



O drama sobre o pioneirismo norte-americano, em pleno Século XIX, está aqui bem presente, mas não é nesse detalhe que O ATALHO se agiganta. Aqui, a nossa atenção deve focar-se neste magnífico atestado de que som e imagem são definitivamente mais importantes que mil palavras ou exímias legendagens, a atmosfera supera quaisquer golpes elementares ou gratuitos de emoção e a intemporalidade de um filme rege-se pela sua aptidão em cativar o espectador sem profundas moralidades.

Entre o road movie e a história de sobrevivência, Reichardt (se WENDY & LUCY já a tinha colocado no mapa, agora é impossível não prestar atenção ao seu futuro) aposta no minimalismo técnico e na rotina quotidiana deste reduzido grupo de personagens para formular o que alguns apelidaram — e, diga-se, com razão — de anti-western, filmado à "moda antiga" (em formato 1.33, ou seja, o enquadramento de tela maioritariamente usado no cinema produzido até 1950), que até pode suscitar interpretações alegóricas mas pretende mostrar-se como experiência sensorial única do princípio ao fim. Muito recomendado.

. MYSTERIOUS SKIN (2004), de Gregg Araki

Os caminhos de um jovem prostituto (Joseph Gordon-Levitt) e de um adolescente (Brady Corbet) que acredita ter sido raptado por extraterrestres em criança cruzam-se, e ambos descobrem um horrível mas esclarecedor passado em comum.



Há que aplaudir a vontade de Gregg Araki abordar, corajosa e respeitosamente, as consequências do abuso sexual de crianças. Adaptando um romance de Scott Heim, num registo tipicamente indie e evitando o exploitation, MYSTERIOUS SKIN equilibra bem realismo com elementos fantásticos e apresenta dois convincentes protagonistas para ilustrar os traumas do tema principal do filme, assim como as diversas maneiras de os enfrentar. Nesse campo, as eficazes interpretações de Joseph Gordon-Levitt, Brady Corbet e Mary Lynn Rajskub (num pequeno mas inesquecível papel) são contributo indispensável.

Todavia, para um argumento que se expõe, desde o início, enigmático em alguns aspectos (sobretudo, os pesadelos que atormentam Brian durante anos), o filme acaba por revelar-se pouco... mysterious, e a previsibilidade da sua última meia hora faz com que o encaremos apenas como mais um drama sobre sexualidade infantil sem um ângulo propriamente inaudito acerca do assunto. Cinema destemido, sem dúvida, mas pouco paradigmático.

. GEORGE HARRISON: LIVING IN THE MATERIAL WORLD (2011), de Martin Scorsese

Amigos (Eric Clapton, Eric Idle), família (as esposas Patti Boyd e Olivia Harrison) e colegas musicais (Paul McCartney e Ringo Starr) reflectem sobre a vida, música, misticismo e carisma de George Harrison.



Mais do que um filme sobre George Harrison, este é o relato sobre o mundo que envolveu, influenciou e foi influenciado por aquele a quem chamaram de quiet Beatle. E Scorsese, depois dos The Band, dos Rolling Stones e de Bob Dylan, demonstra ser um fantástico documentarista musical, capaz de conferir múltiplos significados a uma singela fotografia doméstica, a uma bobine de filme em 16mm ou a uma breve entrevista, datada dos anos 60 e concedida a um obscuro meio de comunicação social.

Dividido em duas partes (logicamente, pelas fases pré e pós-Beatles), soma uns impressionantes céleres 208 minutos de duração e, no fim, o espectador poderá ficar com a impressão de um "soube-me a pouco". Quem alimentar no seu espírito uma "grama" de nostalgia, não conseguirá deixar de ficar rendido por este documentário e pelas facetas de Harrison: guitarrista, compositor, produtor cinematográfico, místico e profundamente humano.

. FEAR X — O MEDO (2003), de Nicolas Winding Refn

Quando a sua esposa é assassinada no que parece ter sido um homicídio acidental, Harry (John Turturro), movido por misteriosas visões, empreende uma viagem para descobrir as verdadeiras razões do acontecimento que transformou a sua vida.



Nicolas Winding Refn continua a angariar positiva admiração por estes lados, mesmo quando se está perante um dos seus filmes menores. E FEAR X tem, indiscutivelmente, imensos pontos fracos, sobretudo no seu argumento, pejado de escandalosos plot holes e gratuitos becos sem saída. Mas é, também, um thriller policial que se distancia de outros títulos semelhantes pela extraordinária e aprimorada atmosfera, criada a partir de sombras, cores e sons, que deixa o espectador sempre atrás dos acontecimentos, mesmo quando estes são totalmente descortinados.

Pode-se invocar, com legitimidade, que a sua "intoxicação" visual e sonora apenas serve de camuflagem à insuficiência narrativa do filme. Mas estamos perante um vincado filme de autor — todas as imagens de marca de Refn estão aqui patentes, e o dinamarquês ainda não tinha o reconhecimento de que hoje usufrui —, que homenageia Kubrick e Lynch sem pudor e revela um realizador com visão única no panorama cinematográfico contemporâneo.